A prova do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de 2026 teve questões abordando temas como terras raras, inteligência artificial e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Ela também teve a volta do formato testlets, um "textão" para várias questões.
Novidade de 2025 em Linguagens, o formato agora apareceu também na prova de Ciências Humanas. A questão de terras raras, um tema muito debatido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a campanha presidencial, mostrava um gráfico comparando os países que possuem esse tipo de mineral e questionava o contexto global a partir disso.
Já o item sobre o ECA Digital apresentava o quarto artigo do documento ("A utilização de produtos ou serviços de tecnologia da informação por crianças e adolescentes tem como fundamentos: I – a garantia de sua proteção integral; II – a prevalência absoluta de seus interesses; III – a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento biopsicossocial; IV – a segurança contra intimidação, exploração, abuso, ameaça e outras formas de violência") e pedia uma interpratação do que ele estabelecia.
A prova também apresentou diversas questões abordando a inteligência artificial. Entre elas, foram abordados ferramentas que combatem plátio em instituições acadêmicas e o impacto ambiental de data centers para o consumo de água.
Além disso, os textões voltaram a aparecer. No Enem do ano passado, uma novidade até então pouco familiar nos simulados surpreendeu os candidatos: um único texto grande, gráfico ou situação-problema servia de base para até cinco questões consecutivas.
Chamado “testlet”, o formato estreou na prova de Linguagens em 2025 e se repetiu neste ano. Em novembro do ano passado, a diretora de Avaliação da Educação Básica do Inep, responsável pelo exame, Hilda Linhares, afirmou que o plano era expandir a metodologia para outras áreas do conhecimento.
Por isso, essa era a aposta de educadores para o exame deste ano, que acabou se confirmando. Um dos textões deste ano foi de Lilia Schwarcz sobre museus.
Ele teve 42 linhas para quatro questões de Ciências Humanas. Além disso, cinco questões foram elaboradas a partir de um trecho de “Menino de engenho”, de José Lins do Rego.
— A resenha, gênero textual recorrente no exame, voltou a aparecer, e a prova também trouxe campanhas e questões sobre o uso da tecnologia na atualidade. O esporte esteve presente em várias questões, e os textos de apoio abordaram temas relacionados a pessoas com deficiência, mulheres, povos indígenas, pessoas negras e à cultura afro-brasileira — afirmou Ávila Oliveira, professor de Redação e Linguagens do Colégio Unificado.
Na avaliação de Lígia Albuquerque, professora de Filosofia e Sociologia do Elite Rede de Ensino, a prova foi cansativa. Ela relata que neste ano houve mais questões de filosofia antiga, como as provas anteriores.
— Patrimonialismo foi um assunto que não aparecia há tempos. A prova abordou questões de gênero e inclusão de minorias.
Destaque para a causa cigana. O tema da redação não apareceu em nenhuma questão direta em humanas — afirmou.
Com o tema "A valorização do Sistema Único de Saúde (SUS) como direito universal", o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2026 mudou o estilo do que vinha sendo escolhido. Em dez dos últimos 11 anos foi retratado algum grupo social, como idosos, negros ou pessoas com doenças mentaios, o que não se repetiu neste ano.
Desde 2015, apenas uma edição fugiu desse eixo: em 2018, quando o tema foi “manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Nos demais anos, foram propostas discussões sobre diferentes grupos e questões de vulnerabilidade social, como a população idosa, a ancestralidade africana, as mulheres que exercem trabalho de cuidado e os povos tradicionais.
— Os temas que do últimos anos já delimitavam, de forma explícita, um grupo minoritário no próprio comando da frase temática. Neste ano, podemos dizer que a prova manteve o padrão de cobrar uma problemática social clássica, mas mudou um pouco essa estrutura — afirmou Daniela Toffoli, professora de Redação do Curso Anglo, da Cogna Educação.
A recorrência de temas ligados a questões sociais também foi mencionada pelo ministro da Educação, Leonardo Barchini, que afirmou, anteontem, que as propostas de redação são “aderentes ao que estamos vivendo na nossa época”. Coordenador do curso pré-vestibular Raio-X e do Colégio Mopi, no Rio de Janeiro, Rafael Pinna avalia que a redação do Enem funciona também como uma avaliação do grau de cidadania do estudante.
Por isso, considerava que o histórico da prova aponta para a possibilidade de um tema relacionado a alguma forma de exclusão social. — Muitas minorias ainda não foram abordadas.
Pode ser desde pessoas com deficiência até grupos sociais ligados a alguma atuação profissional, como catadores de lixo e caminhoneiros. Um caminho legal para o aluno é entender se as legislações específicas para esses grupos têm políticas públicas realmente capazes de protegê-los — afirma.
O professor de Redação do Colégio Andrews, Raphael Torres, aponta outro detalhe: o tema deste ano não apresenta uma problematização no seu enunciado. De acordo com ele, não há uma "palavra-problema".
— O grande desafio dos alunos vai ser perceber essa necessidade de problematização, mas ele conhecendo o perfil Enem, acaba de alguma forma contemplando bem essa demanda. Há muitas as possibilidades de argumentação.
É um tema necessário e contemporâneo demais às demandas vividas hoje — afirmou.
O Globo