Laura Carvalho e Joseph Stiglitz: Cortes de Flávio Bolsonaro levarão à pobreza

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais do dia 25 de outubro, que coloca frente a frente o candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o futuro econômico do país tornou-se alvo de um duro escrutínio. Em um artigo recém-publicado no site Project Syndicate, a professora da USP Laura Carvalho e o vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2001 e professor da Universidade Columbia, Joseph E. Stiglitz, analisam as estratégias de ambos os candidatos e fazem um alerta contundente contra o projeto econômico da oposição.

De acordo com Laura Carvalho e Joseph Stiglitz, o plano de Flávio Bolsonaro espelha o de seu pai — o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente cumprindo pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe — e terá consequências severas para o país. Os economistas afirmam de forma inequívoca que, sob a liderança do candidato de extrema-direita, o desemprego será maior, o crescimento desacelerará, a pobreza aumentará e a classe média ficará em situação pior, marcando um contraste direto com o histórico de resultados já comprovados pela atual gestão.

O centro da preocupação dos autores recai sobre a promessa de Bolsonaro de cortar os gastos públicos entre 1,5% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Embora a equipe da campanha afirme que o programa Bolsa Família seria mantido, não detalha de onde sairiam os cortes. Como o orçamento do país é majoritariamente comprometido com previdência, benefícios atrelados ao salário mínimo, saúde e educação, os especialistas advertem que essas áreas seriam inevitavelmente atingidas.

“Como economistas que estudam o Brasil há muito tempo, podemos ser inequívocos: sob Bolsonaro, o desemprego será maior, o crescimento desacelerará, a pobreza aumentará e a classe média ficará em situação pior.”

Os impactos dessas reduções seriam drásticos. Baseados em estimativas padrão de multiplicadores fiscais, os autores projetam que um corte em gastos sociais equivalente a 1,5% do PIB eliminaria 2,7% do PIB logo no primeiro ano, e 3,2% em dois anos. Esse impacto seria suficiente para transformar uma simples desaceleração em uma recessão. A perda de crescimento drenaria as receitas tributárias, gerando uma espiral viciosa de novos cortes que atingiria primeiramente os mais vulneráveis ao ciclo econômico: trabalhadores informais, vendedores ambulantes, motoristas de aplicativos e pequenos empresários.

O artigo também destaca que o projeto de Bolsonaro falharia em resolver o problema da dívida nacional, uma vez que cerca de 53% da dívida pública está atrelada à taxa básica de juros (Selic). As altas taxas de juros no Brasil, segundo o texto, devem-se mais às metas de inflação, a um mercado financeiro disfuncional e à volatilidade cambial do que aos gastos públicos, visto que o déficit primário tem se mantido próximo de zero. Mesmo na improvável hipótese de a Selic cair para 9% sob um governo Bolsonaro, a dívida continuaria subindo, apesar de eventuais superávits primários anuais de 3% do PIB.

Agravando esse cenário, os economistas criticam as propostas de cortes de impostos de Bolsonaro. Em um país de extrema desigualdade, essas medidas poderiam prejudicar o crescimento a longo prazo e piorar a situação fiscal a curto prazo. Os autores chegam a comparar Bolsonaro ao presidente argentino Javier Milei, afirmando que o candidato demonstra desconhecer as consequências macroeconômicas de suas políticas e ignora a necessidade de corrigir injustiças fiscais. Ainda assim, o Ibovespa saltou 7,7% e bateu recorde no primeiro dia de negociações após o primeiro turno, uma reação que os especialistas alertam ser frágil e que pode desmoronar rapidamente diante de uma recessão ou crise institucional.

“Nos últimos quatro anos, o Brasil mostrou que o crescimento e a justiça social podem avançar juntos. A escolha que os eleitores enfrentarão em 25 de outubro é se devem construir sobre esse progresso ou revertê-lo.”

Em contrapartida, os economistas destacam o sucesso das políticas de Lula. Contrariando as projeções do mercado de três anos atrás, que previam um crescimento anual de apenas 1%, o PIB brasileiro avançou 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. A inflação despencou do pico de 12,1% (abril de 2022) para 4,22% em agosto de 2026, com os alimentos subindo apenas 2,95%. Paralelamente, o desemprego caiu para 5,3% em 2026, a pobreza atingiu níveis mínimos recordes — com o Bolsa Família resgatando 6,1 milhões de pessoas da miséria —, e a própria bolsa de valores subiu cerca de 70% desde janeiro de 2023. Tudo isso aliado a aumentos reais do salário mínimo e a uma reforma tributária progressiva, enquanto os déficits primários foram reduzidos a quase zero.

Apesar dos avanços, que poderiam ter sido maiores não fossem as guerras impulsionadas pela Rússia e a administração Trump, os autores ressaltam que ainda há muito a ser feito. A recomendação dos especialistas é criar espaço fiscal eliminando deduções de impostos que beneficiam os 10% mais ricos, controlando as emendas parlamentares e aumentando a tributação mínima sobre os super-ricos. Os recursos gerados deveriam ser destinados a investimentos estratégicos em transporte, habitação e infraestrutura de cuidados, reduzindo o custo de vida da população. Para os economistas, as eleições do dia 25 representam a escolha entre construir sobre o progresso dos últimos quatro anos ou revertê-lo.

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