Lagarde deixa o BCE com credibilidade no combate à inflação

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Fonte da notícia: Valor Valor

Christine Lagarde anunciou, na quinta-feira, que renunciará à presidência do Banco Central Europeu (BCE) em fevereiro, meses antes do término de seu mandato. Considerando seu início difícil e um tanto tenso, Lagarde - apenas a quarta presidente nos 28 anos de história do BCE - deixa um banco central em uma situação bastante satisfatória.

Ao assumir o cargo, ela enfrentou o desafio de suceder a Mario Draghi, conhecido como o “salvador do euro”. Alguns questionaram a sensatez de colocar uma não economista e ex-política no comando do banco central.

Não precisavam ter se preocupado. Após um tropeço inicial - quando, poucos meses após assumir o posto, declarou que o BCE “não está aqui para fechar ‘spreads’” (diferenciais de rendimento), o que gerou nervosismo no mercado de títulos durante a pandemia -, ela passou a conduzir com firmeza a comunicação da política monetária, ajudando a consolidar a credibilidade da instituição.

A maior prova dessa credibilidade reside na forma como o BCE cumpriu seu mandato de combate à inflação após o drástico choque nos preços de energia em 2022. Embora tenha demonstrado a mesma inércia que outros grandes bancos centrais ao iniciar o aperto monetário, o BCE conseguiu - ainda que tardiamente - trazer a inflação de volta à meta de 2% no final de 2024.

Embora o BCE tenha mantido os juros inalterados na quinta-feira, os mercados preveem que serão necessários novos ajustes restritivos para manter o crescimento dos preços sob controle, em meio ao choque de oferta decorrente do conflito envolvendo o Irã. É verdade que a Zona do Euro também contou com uma dose de sorte.

A economia europeia resistiu à disparada dos preços de energia melhor do que o esperado. O estímulo global proveniente dos investimentos em tecnologia nos EUA também impulsionou o crescimento econômico na área do euro, ao mesmo tempo em que a política monetária conteve a demanda interna.

Lagarde provou ser uma construtora de instituições - fato que, talvez, tenha sido favorecido justamente por ela não ser economista. Ela soube ouvir atentamente seus colegas e, segundo relatos, transformou o Conselho do BCE - composto por 27 membros - em um órgão colegiado e harmonioso.

Essa conquista é ainda mais relevante em uma união monetária que abrange diversos países, onde as lealdades nacionais ainda podem ser bastante fortes. Diante da crescente atenção que os mercados financeiros vêm dedicando aos problemas fiscais da França - país de origem de Lagarde -, este talvez seja um momento oportuno para ela deixar o cargo.

Sob sua gestão, o BCE criou o Instrumento de Proteção à Transmissão (TPI, na sigla em inglês), uma ferramenta de política monetária destinada a enfrentar ataques especulativos contra a dívida soberana de um país da Zona do Euro. Ela teve a sorte, contudo, de que os mercados de títulos dos Estados-membros não tenham sido submetidos a testes severos durante seu mandato.

Os observadores do mercado parecem confiantes de que o banco central dispõe dos meios e da vontade necessários para evitar o tipo de desestabilização de mercado que ocorreu durante a crise da dívida na Zona do Euro. Caso seja necessário decidir pelo uso desse instrumento em relação à França, a situação será menos complexa se a presidência do BCE não estiver ocupada por uma pessoa de nacionalidade francesa.

No que diz respeito a uma de suas principais bandeiras, Lagarde talvez não tenha conseguido avançar tanto quanto desejava: a incorporação de critérios ambientais à política monetária perdeu força, em meio a uma reação mais ampla contra a transição ecológica. Além disso, o BCE não se empenhou tanto quanto poderia para impulsionar o uso internacional do euro.

Por outro lado, sob a gestão de Lagarde, o BCE posicionou-se na vanguarda global do desenvolvimento de moeda digital pública, tanto no segmento de atacado quanto no de varejo. A instituição está avançando na disponibilização de uma moeda digital de banco central para o atacado, voltada à liquidação de negociações de ativos tokenizados; já a criação de um euro digital para o varejo está a poucos anos de distância, dependendo apenas de uma decisão política final.

Embora o fato não seja amplamente conhecido, esse pode acabar sendo o legado mais significativo dos anos de Lagarde à frente da instituição. Nesse aspecto, também, ela deixa um legado mais sólido do que muitos de seus críticos iniciais previam.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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