247 – O economista e deputado federal eleito Elias Jabbour (PCdoB-RJ) fez duras críticas à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. Em publicação nas redes sociais, Jabbour classificou a decisão como política, acusou o Banco Central de estar capturado pelos interesses do sistema financeiro e questionou se o modelo brasileiro de remuneração da dívida pública não constituiria “o maior esquema de corrupção legalizada do mundo”.
“A reunião do Copom trouxe um resultado esperado. Manutenção da taxa de juros em 13,75%.
Uma evidente decisão política”, afirmou o economista, que relacionou a manutenção dos juros elevados ao peso do serviço da dívida pública sobre o orçamento federal. Segundo Jabbour, o Brasil apresenta um dos menores déficits primários do mundo, mas enfrenta um custo extraordinariamente elevado com o pagamento de juros.
Para ele, essa combinação demonstra que o principal problema das contas públicas brasileiras não está necessariamente nas despesas primárias, mas na estrutura financeira que determina o custo da dívida. “Não seria o maior esquema de corrupção legalizada do mundo? Vocês tirem suas próprias conclusões”, escreveu.
Jabbour acusa Banco Central de favorecer interesses financeiros Na avaliação do economista, a política monetária brasileira não pode ser compreendida apenas como um instrumento técnico de controle da inflação.
Ela também expressaria uma disputa política e distributiva em torno da apropriação dos recursos públicos. Jabbour sustenta que, em uma economia marcada pela fragilidade de sua estrutura produtiva, setores das classes dominantes passaram a depender fortemente da remuneração financeira proporcionada pelo Estado.
“O objetivo é político e claro: em um país onde as classes dominantes não produzem um único parafuso, a base material que dialoga diretamente de seu poder vem diretamente do orçamento público”, afirmou. A crítica aponta para o papel dos juros elevados na transferência de recursos públicos aos detentores de títulos da dívida, em um contexto no qual o financiamento da produção e do investimento enfrenta custos elevados.
Para Jabbour, essa estrutura reforça o poder econômico e político do sistema financeiro, ao mesmo tempo em que limita a capacidade do Estado de investir em infraestrutura, industrialização e desenvolvimento. “O Banco Central é uma instituição de Estado capturada pelo sistema financeiro”, declarou.
A afirmação constitui uma avaliação política do economista sobre a atuação da autoridade monetária. Economista critica uso dos juros para combater diferentes tipos de inflação
Outro ponto central da manifestação de Jabbour é a crítica ao uso da taxa Selic como principal instrumento de enfrentamento da inflação, independentemente de suas causas. O economista argumenta que pressões inflacionárias decorrentes de fenômenos climáticos, conflitos internacionais e encarecimento de commodities não podem ser tratadas da mesma maneira que aumentos de preços provocados por excesso de demanda.
Ao comentar a comunicação do Copom, Jabbour comparou a postura da autoridade monetária à de uma pessoa que encontra justificativas para repetir um comportamento compulsivo. “Ao ler a ata do Copom, um corte e cola do Boletim Focus, ficamos com a mesma impressão de uma pessoa com algum vício e que encontra qualquer motivo para colocar em exercício sua adicção”, escreveu.
Ele citou os efeitos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola e o impacto de conflitos externos nos preços do petróleo e de outras commodities como exemplos de fatores que não decorrem diretamente do aquecimento da demanda doméstica. Na interpretação de Jabbour, elevar ou manter os juros em patamares muito altos diante desses choques pode comprometer a atividade econômica sem solucionar os problemas estruturais responsáveis pela alta dos preços.
O economista também criticou a referência do Copom aos estímulos à demanda agregada que poderiam ultrapassar a capacidade produtiva da economia. Para ele, essa preocupação representa um recado político dirigido ao governo federal sobre os limites impostos à expansão da atividade econômica.
“O Corinthians ganha, vou beber comemorando” Jabbour recorreu a uma comparação com o futebol para ilustrar sua crítica à atuação do Banco Central.
“O Corinthians ganha, vou beber comemorando. O Corinthians perde, vou beber para afogar as mágoas…”, escreveu.
A analogia procura demonstrar sua percepção de que a autoridade monetária encontra justificativas para manter os juros elevados em diferentes circunstâncias econômicas. Se a economia apresenta sinais de aquecimento, o argumento seria a necessidade de conter a demanda.
Se a atividade desacelera, outros fatores, como câmbio, expectativas inflacionárias ou choques externos, seriam utilizados para justificar a continuidade do aperto monetário. Jabbour também destacou que a decisão de manter a Selic em 13,75% foi unânime.
“Foi uma decisão unânime, daí a explicitude da decisão política”, afirmou. Inflação brasileira teria raízes estruturais
Na avaliação do economista, uma parte importante da inflação brasileira está relacionada a deficiências estruturais da economia, que não podem ser resolvidas exclusivamente por meio da política monetária. Jabbour menciona a insuficiência de investimentos em infraestrutura logística, a ausência de uma rede mais ampla de ferrovias de alta velocidade, as limitações da produção industrial em escala e a falta de estoques reguladores como fatores que contribuem para o encarecimento dos produtos.
Ele também aponta a atuação de monopsonistas e oligopsonistas, estruturas de mercado nas quais poucos compradores concentram poder sobre os produtores, como uma das causas de distorções na formação dos preços agrícolas. Segundo essa interpretação, o enfrentamento duradouro da inflação exigiria investimentos produtivos, ampliação da capacidade de oferta, modernização da infraestrutura e políticas públicas voltadas à redução dos custos estruturais da economia.
A crítica se insere em um debate mais amplo sobre os limites da política monetária convencional em países que apresentam gargalos logísticos, concentração econômica e dependência de insumos e commodities sujeitos a oscilações internacionais. Juros e dívida pública entram no centro da disputa econômica
Jabbour também questiona a interpretação de que os desequilíbrios fiscais brasileiros decorrem principalmente do excesso de despesas primárias. O economista insiste na diferença entre o resultado primário, que considera receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros, e o resultado nominal, que incorpora os encargos financeiros da dívida pública.
Na publicação, ele afirma que o Brasil possui um dos menores déficits primários do mundo, ao mesmo tempo em que registra uma das maiores despesas com o serviço da dívida. Essas comparações internacionais são apresentadas por Jabbour em sua manifestação, sem detalhamento das séries estatísticas utilizadas.
A partir dessa avaliação, o economista sustenta que o custo dos juros precisa ocupar posição central no debate sobre a sustentabilidade das contas públicas. “Sempre é bom lembrar que o Brasil tem um dos menores déficits primários do mundo enquanto o nosso serviço com a dívida pública é o maior do mundo”, afirmou.
A manifestação termina com uma pergunta que sintetiza sua crítica à orientação da política econômica brasileira: “Qual a real causa do déficit público?”
Para Jabbour, a resposta exige discutir não apenas a trajetória dos gastos governamentais, mas também o funcionamento do sistema financeiro, a política de juros e os mecanismos de remuneração da dívida pública. Sua manifestação ocorre em um momento de intensificação do debate sobre a política monetária, após a decisão do Copom de manter a Selic em 13,75%, apesar dos sinais de desaceleração da atividade econômica.
O posicionamento do deputado eleito evidencia a existência de uma corrente crítica à política de juros elevados, que defende maior atenção às causas estruturais da inflação e ao impacto da remuneração da dívida sobre a capacidade de investimento e desenvolvimento do Estado brasileiro.
Brasil 247