Isabel Allende conta com humor como lida com o ofício da escrita há quatro décadas em 'A palavra mágica'

Isabel Allende conta com humor como lida com o ofício da escrita há quatro décadas em 'A palavra mágica' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Seja pelo estilo que às vezes beira o melodrama comercial, seja porque não tem medo de apelar para narrativas mais previsíveis, muita gente não gosta dela (e por aí dá para entender), mas também temos que aceitar que muita, muita gente simplesmente ama Isabel Allende. A verdade está nos números: em quase 45 anos de carreira (iniciada com a publicação de “A casa dos espíritos”, em 1982), ela vendeu mais de 80 milhões de exemplares, a maioria traduzida para 42 idiomas.

Sem falar em 60 prêmios literários mundo afora, como o recente Planeta, recebido no último dia 15 das mãos dos reis da Espanha, Felipe VI e Letícia Ortiz, e que lhe valeu um reforço de € 1 milhão na conta bancária — que já não era minguada. É certo que as cifras, por si, não dizem tudo, mas, no caso, deixam claro: Isabel Allende tem, sim, seu valor, apesar dos críticos de plantão.

Reuniões do A.A. todos os dias: Sóbrio há mais de uma década, Josh Brolin revela situação humilhante que o levou a se afastar da bebida

Polêmica: Virginia Fonseca é criticada por pedir Pix para babá após festa com bolo de R$ 250 mil para filha Pois é respaldada por essa numeralha que ela traz agora, ao Brasil, “A palavra mágica”, seu 33º título.

Mestra em trafegar por gêneros e temas diversos, a escritora chilena, que também tem nacionalidade americana, discorre desta vez sobre a arte da escrita. É o tipo de livro que pode indicar caminhos não só para outros escritores, como para qualquer pessoa empenhada em alguma área da criação — pintura, tapeçaria, bijuteria, camisetas, filhos...

Outros escribas ilustres já se dedicaram a essa tarefa de mostrar como a alma livre e a disciplina ajudam um sujeito qualquer a se aventurar por essa esquisitice chamada criação literária. Exemplos: Elena Ferrante (“Frantumaglia”, 2017); Stephen King (“Sobre a escrita”, 2015) ou Haruki Murakami (“Romancista como vocação”, 2017).

Cada qual na sua praia, a mensagem é: tenha coragem, dê o melhor de si e não desista no meio do caminho, que, todo mundo sabe, não vai ser molezinha. Abaixo, trechos de “A palavra mágica” resumem o pensamento de Allende, de 84 anos, a respeito de alguns pontos desse ofício que, como diz, no seu caso não é opção: é vício.

E levemos em conta que, mesmo eventualmente derrapando numa prosa um tanto kitsch (“a felicidade não tem forma nem alça, é como gelatina”), ela construiu aqui uma bem-humorada autobiografia farta de referências à própria obra, típica automassagem no ego que nenhum escritor honesto pode negar que adora fazer.

E quem quiser que conte outra. Capa do livro 'A palavra mágica', escrito por Isabel Allende, com tradução de Ivone Benedetti

Divulgação Universalidade

“Os temas fundamentais de amor e dor, sempre presentes na literatura, são comuns a todos nós. A literatura nos ajudar a entender que as semelhanças que nos unem são muito maiores do que as diferenças que nos separam.

Talvez, se lêssemos mais, houvesse menos desconfiança e viveríamos melhor neste mundo.” Truque I

“Recebo centenas de e-mails de leitores amáveis que tentam escrever um romance ‘para ajudar os outros’. Não faça isso, limite-se a contar a história.

Reserve a mensagem para a não ficção.” É preciso ter coragem

“Para os escritores, a autocrítica e o medo — que nos conduzem à autocensura — interferem na inspiração. Demorei muitos anos para encontrar o equilíbrio entre a voz crítica na minha cabeça, que semeia dúvidas e me segura, e o entusiasmo orgânico de escrever.

Nós nos censuramos e com frequência o mundo também quer nos silenciar.” Truque II

“Por favor, não obedeça à voz crítica de sua cabeça que enche de dúvida e esmaga a criatividade. É a forma mais comum e perigosa de autocensura.

Isso é especialmente verdade se você for mulher. Os outros podem duvidar do seu talento, mas você não.

É preciso ser atrevida, falar alto.” Conselhos úteis

“(Uma editora) recomendou-me que procurasse um agente literário. Eu achava que os agentes eram só para esportistas e estrelas de cinema.

(...) — Qualquer pessoa pode escrever um primeiro bom romance, porque nele despeja tudo o que tem.

O escritor se prova no segundo e nos seguintes — avisou-me Carmen (Balcells, lendária agente catalã que representou nomes como Julio Cortázar e García Márquez, entre dezenas de outros mestres).” Truque III

“Continue escrevendo todos os dias para exercitar o músculo. Não importa se não for o livro que você originalmente tinha pensado.

Desenvolva a técnica e sua própria segurança. Mais tarde você poderá se dedicar ao seu grande projeto.

Escrever não é como a vida. Na escrita é possível recuar no tempo e corrigir os erros.”

Disciplina “Sem disciplina não há inspiração que resolva.

Ter um dia fixo para começar funciona para mim como uma varinha mágica. Preparo com antecedência meu calendário, minha vida e minha alma para essa manhã sagrada em que vou me sentar diante da tela em branco sem que nada o impeça, nem que eu esteja com febre ou sem energia elétrica, nem que Harrison Ford me ligue para marcar um encontro, o que nunca aconteceu.

À disciplina preciso acrescentar tradição. Comecei 30 livros em 8 de janeiro e nenhum se saiu mal, qualquer mudança dá azar.”

Escrita e maridos “Escrita é como esporte, é preciso estar sempre treinando par que os músculos não se atrofiem.

A ninguém interessa o esforço e o tempo investidos nesse treino, a única coisa que conta é o resultado final. Tenho um adesivo na porta da geladeira para me lembrar que não é preciso ser genial, que o bom é suficiente.

(...) Minha mãe dizia que, quando uma coisa não funciona, é preciso eliminá-la sem remorsos. Referia-se a certas peças de roupa e a amizades tóxicas.

Eu aplico isso à escrita e aos maridos.” Truque IV

“O escritor é alguém que presta atenção. Toma notas.

Coleciona recortes e jornais. Grava conversas.

Aprende a perguntar e a exigir respostas. (...) Se você quer escrever é porque tem várias ideias nas quais vem pensando há algum tempo.

Anote cada uma, separada, e desenvolva-as em algumas páginas. Uma saltará à vista: essa é seu próximo livro.”

Dá seu jeito “Eu estava decidida a demonstrar que podia me tornar escritora.

Criei um espaço só meu, e deixou de ser preciso escrever às escondidas na cozinha. Tirei a roupa de um armário, atravessei uma tábua de um lado ao outro e pendurei uma lâmpada ali.

Naquela minúscula escrivaninha improvisada, eu conseguia trabalhar tranquila e deixar meu manuscrito para que ninguém o tocasse. Fechava a porta do armário, e as personagens ficava trancadas à minha espera, sem serem incomodadas.

(...) Os amantes clandestinos dão um jeito de fazer amor a qualquer hora e em qualquer lugar. (Suponho que não sou a única que pecou de luxúria no banco de trás de um Volkswagen).

Quem deseja escrever de verdade dá um jeito de escrever, aconteça o que acontecer.” Truque V

“Estabeleça e mantenha uma rotina para escrever, mesmo que durante o dia você tenha um emprego. Defenda esse tempo sagrado.

Se você não respeitar a sua escrita, ninguém o fará. Você não precisa de um quarto só seu.

Escreva num armário, se for preciso. O quarto está em sua cabeça.”

Questão de sedução “Se um livro não me seduzir nas primeiras 30 páginas, eu o abandono sem remorsos; o criador não cumpriu a obrigação de captar meu interesse.

(...) Tenho uma pilha impressionante de livros para ler e uma longa lista dos que penso comprar, por que me torturar com uma chatice?” Truque VI

“Você tem que captar a atenção do leitor desde o início. É provável que não tenha uma frase perfeita para começar.

Não faz mal. Vá em frente.

Essa frase pode ser escolhida a qualquer momento durante o desenvolvimento do livro e colocada no início. Leia em voz alta para os amigos e veja a reação deles.”

Você “Uma vez ouvi uma professora de literatura dizer que o autor ou a autora é parte de cada personagem, o que significa que eu poderia torturar se surgisse a terrível circunstância em que fosse necessário fazê-lo.

Custa-me aceitar isso, porque sou incapaz de esmagar uma mosca, mas a verdade é que ainda não fui posta à prova.” Truque VII

“As personagens têm de ser humanas. Mesmo as personagens menores precisam ter vida.

(...) Certifique-se de que nem todas as personagens são como você.”

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →