247 – Índia e Bangladesh enfrentam um momento decisivo para o futuro da gestão das águas do rio Ganges. O tratado bilateral firmado em 1996, que estabeleceu regras para o compartilhamento dos recursos hídricos durante a estação seca, expira em 12 de dezembro de 2026, após três décadas de vigência.
Sua renovação abre uma oportunidade para construir um modelo mais abrangente de cooperação, capaz de incorporar os impactos das mudanças climáticas, a preservação ambiental e as necessidades econômicas de milhões de pessoas. A avaliação é do pesquisador Nilanjan Ghosh, vice-presidente de Estudos de Desenvolvimento da Observer Research Foundation (ORF), um dos principais centros de pesquisa da Índia.
Em artigo publicado pela instituição, Ghosh argumenta que a negociação entre Nova Déli e Daca não deve se limitar à distribuição de volumes de água, mas considerar o funcionamento de todo o sistema fluvial e do delta compartilhado. O tratado de 1996 estabeleceu regras para dividir as vazões do Ganges na Barragem de Farakka, em território indiano, entre janeiro e maio.
O mecanismo prevê diferentes proporções de compartilhamento conforme a disponibilidade de água, além de consultas entre os governos em períodos de escassez extrema. Segundo Ghosh, o acordo ajudou a reduzir tensões diplomáticas e criou instrumentos de previsibilidade e monitoramento.
Entretanto, sua principal limitação é tratar a água essencialmente como um recurso a ser dividido, sem contemplar adequadamente a dinâmica ecológica da bacia. Mudanças climáticas tornam negociação mais complexa
A renovação ocorre em um contexto de incertezas ambientais e tensões políticas entre os dois países. Bangladesh defende garantias mais robustas de abastecimento durante a estação seca, enquanto a Índia precisa conciliar compromissos internacionais com as necessidades de seus estados, especialmente Bihar e Bengala Ocidental.
O cenário diplomático também foi alterado pelas mudanças políticas em Bangladesh após a saída de Sheikh Hasina, em 2024, e a chegada ao poder de um governo liderado pelo Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), sob Tarique Rahman. Questões relacionadas à segurança de fronteiras, à presença de Hasina na Índia e à aproximação de Bangladesh com a China acrescentam complexidade às negociações.
Apesar dessas divergências, Ghosh ressalta que a geografia impõe uma realidade incontornável: os dois países dependem do mesmo sistema hídrico e precisam cooperar para garantir sua sustentabilidade. Um dos principais pontos de controvérsia é a proposta de Bangladesh de estabelecer garantias mínimas de fornecimento de água, semelhantes às previstas em um acordo anterior, de 1977.
O pesquisador argumenta que compromissos rígidos, desvinculados da disponibilidade efetiva de água, podem distribuir de maneira desigual os riscos de escassez, especialmente diante das alterações nos regimes de chuvas, do degelo das geleiras e do aumento das retiradas de água a montante.
Como alternativa, propõe mecanismos de consulta mais eficientes, apoiados em dados científicos e capazes de responder às mudanças nas condições hidrológicas. Preservação do delta exige nova abordagem
Outro aspecto central da análise é a necessidade de incorporar o transporte de sedimentos e a saúde ecológica do delta do Ganges-Brahmaputra-Meghna. Esse sistema, um dos maiores complexos fluviais do planeta, depende não apenas da quantidade de água disponível, mas também da circulação de sedimentos, das marés e das interações entre rios e ambiente costeiro.
Nos Sundarbans, região de manguezais compartilhada por Índia e Bangladesh, a elevação do nível do mar, a erosão costeira e a intrusão de água salgada ameaçam comunidades, atividades agrícolas, pesca e biodiversidade. Segundo Ghosh, a Barragem de Farakka precisa ser analisada também por seus efeitos sobre o transporte de sedimentos e a formação de solos a jusante.
O pesquisador ressalta, entretanto, que a degradação ambiental do delta resulta de múltiplos fatores e não pode ser atribuída exclusivamente à barragem sem estudos científicos abrangentes. Cooperação pode fortalecer segurança ambiental e econômica
Para o pesquisador da ORF, a expiração do tratado representa uma oportunidade de modernizar a cooperação hídrica entre Índia e Bangladesh. Em vez de simplesmente renovar regras de distribuição de água, os governos poderiam estabelecer mecanismos de gestão integrada, incorporando mudanças climáticas, preservação dos ecossistemas, monitoramento de sedimentos e planejamento econômico.
A proposta também envolve instituições bilaterais mais robustas, capazes de compartilhar informações e responder a situações de escassez ou eventos climáticos extremos. A análise destaca que a segurança hídrica não depende apenas de garantias diplomáticas sobre volumes de água, mas da capacidade de preservar o funcionamento dos rios e dos ecossistemas associados.
Para Ghosh, o desafio é transformar um tratado de divisão de recursos em um modelo de governança compartilhada, capaz de proteger a segurança econômica e ambiental de milhões de pessoas e fortalecer a confiança entre Índia e Bangladesh.
Brasil 247