Foto: White House Os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado, avançando inclusive sobre antigos redutos republicanos.
Ainda havia disputas sem definição na manhã desta quarta-feira, mas a mudança de comando do Congresso já estava prevista. A nova composição assume-se em janeiro de 2027.
Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News! Na minha avaliação, essa derrota foi sendo construída.
Trump transformou o confronto em método de governo e apostou que a demonstração permanente de força sustentaria seu poder. O problema apareceu quando o eleitor começou a comparar suas promessas com a vida que estava levando.
Há uma leitura que precisa ser feita também sobre a América Latina. Vitórias recentes da direita foram apresentadas como se representassem uma adesão definitiva dos povos a um projeto ideológico.
Essa interpretação deixa de lado uma parte decisiva do comportamento eleitoral. Quem teme sair de casa, perdeu poder de compra ou não encontra trabalho procura uma saída.
A ideologia influencia o voto, evidentemente. Mas a insatisfação abre espaço para quem promete romper com uma situação que se tornou insuportável.
Trump apoiou aliados e procurou transformar esses resultados em demonstração de sua influência. Na Argentina, chegou a associar o apoio financeiro americano ao desempenho eleitoral do grupo de Javier Milei.
Na Colômbia, apoiou Abelardo de la Espriella. O apoio externo, porém, não paga a conta das expectativas internas.
Na Argentina, pesquisa da Zentrix referente a outubro apontou 55,5% de desaprovação a Milei, embora sua aprovação tenha se recuperado nos últimos meses. No Chile, a Cadem registrou aprovação de apenas 26% a José Antonio Kast na divulgação de 1º de novembro.
Na Colômbia, o quadro é diferente: levantamento AtlasIntel/Bloomberg mostrou recuo da aprovação de De la Espriella, de 51,8% para 48,7%, ainda acima da desaprovação. É um sinal inicial de desgaste, não uma rejeição da mesma dimensão.
Cada país tem suas particularidades. Mas esses casos sustentam uma reflexão: vencer prometendo mudança não assegura tolerância permanente.
O eleitor que substitui um governo pode voltar a mudar quando a vida não melhora. A guerra foi parar no supermercado
Nos Estados Unidos, a política externa deixou de ser um assunto distante quando suas consequências chegaram ao orçamento das famílias. A guerra com o Irã pressionou o mercado de energia.
Em 23 de setembro, o diesel americano custava 73% mais do que antes do conflito, segundo dados da AAA divulgados pela imprensa. O combustível movimenta caminhões, máquinas agrícolas e cadeias de distribuição.
Quando sobe, a conta percorre a economia. Aparece no abastecimento, no frete e, depois, nas compras do supermercado.
Não se pode atribuir toda a inflação americana a Trump. Mas um presidente precisa responder pelo efeito de suas decisões.
O discurso de força perde apelo quando o cidadão sente que ficou mais caro viver. O campo conhece bem essa transmissão.
Reportagem da Reuters mostrou a amônia no Meio-Oeste passando de cerca de US$ 600 por tonelada curta, no fim de junho, para aproximadamente US$ 875. Problemas de oferta e restrições internacionais agravaram a pressão sobre o produtor.
Outra apuração apontou endividamento agrícola recorde e a possibilidade de empréstimos subestimados nas estatísticas. O agricultor pode ser republicano há gerações.
Ainda assim, precisa pagar fornecedores e financiar a próxima safra. Quando os custos sobem e as vendas decepcionam, a identidade política passa a conviver com uma cobrança concreta por resultados.
A intimidação também tem custo O Brasil foi um exemplo da mistura entre comércio e preferência política.
Na carta de julho de 2025 em que anunciou tarifas de 50%, Trump vinculou sua posição ao tratamento dado a Jair Bolsonaro e atacou as instituições brasileiras. A justificativa comercial tinha uma contradição: os Estados Unidos vendiam ao Brasil mais mercadorias do que compravam.
O déficit estava do lado brasileiro. A pressão atingia nossa economia, mas também criava custos e incertezas para empresas e consumidores americanos.
Uma tarifa não deixa de produzir consequências internas porque foi anunciada como punição a outro país. Na minha leitura, essa forma de agir também enfraquece a liderança que Trump pretendia reafirmar.
A influência internacional depende de confiança e previsibilidade, além de dinheiro e poder militar. Os Estados Unidos têm uma história marcada por contradições e intervenções.
Mesmo assim, construíram alianças e instrumentos de cooperação que ampliaram sua presença no mundo. O desmonte de programas da USAID e a nova retirada do Acordo de Paris reduziram instrumentos dessa atuação.
Ter governos ideologicamente próximos na região pode facilitar negociações. Não garante fidelidade das sociedades nem preserva, por si só, a influência americana.
Força anunciada, resultados cobrados A guerra na Ucrânia expôs outra distância entre promessa e capacidade de entrega.
Trump prometeu encerrá-la rapidamente. O conflito continuou.
Em outubro, a Reuters revelou uma tentativa americana de usar um acordo envolvendo exportações de diesel russo para atrair Moscou às negociações. A iniciativa provocou críticas por oferecer receitas à Rússia sem assegurar concessões equivalentes às de Vladimir Putin.
Negociar com adversários faz parte da diplomacia. O problema é anunciar capacidade de impor soluções e depois não conseguir transformar essa promessa em resultados.
A invasão russa da Ucrânia exige uma resposta que considere a soberania do país atacado. Em Gaza, a cobrança moral também permanece.
O ataque terrorista do Hamas contra civis, em outubro de 2023, foi uma atrocidade. Sua condenação não autoriza tratar a população palestina como inimiga coletiva.
Relatório da ONU de outubro, citando o Ministério da Saúde de Gaza, registrava mais de 74 mil palestinos mortos desde o início da guerra. O total atravessa diferentes governos americanos.
A responsabilidade de proteger civis deve orientar a cobrança sobre todos eles e sobre seu apoio ao governo israelense. Esses episódios ajudam a explicar o desgaste internacional.
Não significa que cada eleitor americano tenha votado pensando em todos esses conflitos. A evidência eleitoral aponta mais diretamente para a insatisfação com o custo de vida, a guerra com o Irã e a condução do governo.
A conta pública também aumentou A promessa de reorganização econômica encontrou outro obstáculo nas contas federais.
Segundo dados do Tesouro divulgados pela Reuters, o déficit americano passou de US$ 1,78 trilhão para US$ 1,99 trilhão no ano fiscal de 2026, encerrado em setembro. O custo do serviço da dívida também bateu recorde.
Isso não significa que toda a deterioração tenha começado com Trump. Existem despesas e compromissos acumulados ao longo de diferentes governos.
Mas a promessa de resolver o problema precisa ser confrontada com o resultado. Déficits elevados ampliam a necessidade de financiamento e podem pressionar os juros de mercado.
Energia cara e tarifas podem alimentar a inflação e dificultar a redução dos juros pelo banco central. Não é uma trajetória inevitável.
É um risco econômico que limita o discurso de prosperidade fácil e chega ao financiamento da casa, ao crédito das empresas e ao investimento no campo. O veto não apaga o voto
Trump acolheu o apelido “Mr. Veto” e sinalizou disposição para ampliar o uso de poderes executivos diante de um Congresso democrata.
O veto é constitucional. O Congresso pode derrubá-lo com dois terços dos votos em cada Casa.
E ordens executivas dependem de fundamento legal: não substituem livremente o Legislativo. Os democratas terão mais instrumentos para fiscalizar, investigar e impor limites.
Também serão cobrados por quem os elegeu. O eleitor quer uma resposta ao abuso de poder, mas espera melhora em sua própria vida.
Trump continuará poderoso. A derrota não encerra a hegemonia econômica ou militar americana.
Mostra, porém, o custo de confundir liderança com intimidação e de tratar a insatisfação social como um patrimônio político permanente. Foi esse erro que, na minha avaliação, ele foi construindo.
O desejo de mudança que ajuda um governante a chegar ao poder também pode se voltar contra ele. E essa é uma decisão que nenhum veto presidencial consegue anular.
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores.
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