O fluxo de capital para investimentos em inteligência artificial (IA) tem deixado mais difícil a vida de quem atua no mercado imobiliário e de infraestrutura e precisa atrair investidores, afirmou Axel Christensen, estrategista-chefe da gestora BlackRock para a América Latina. Ele participou de evento do GRI Institute, um “think thank” do setor imobiliário, na semana passada, em São Paulo.
Há alguns anos havia uma relativa abundância de capital para esses setores, em nível global, mas hoje, “vemos empresas de tecnologia, que eram grandes geradoras de capital, absorvendo-o para seus investimentos”, o que faz economias emergentes e setores não relacionados à IA competirem pelo que sobra de recursos.
“Isso significa que os investidores estão sendo muito mais seletivos”, afirmou. E a concorrência por investimentos não vem só das empresas de tecnologia, mas também dos próprios governos, que estão emitindo mais dívida para atrair capital.
É uma onda de investimento que não vem sem risco, porém. Perguntado por Gustavo Favaron, CEO do GRI Institute, sobre o que tira seu sono à noite, Christensen citou a chance de que as “enormes quantidades de dinheiro” investidas em IA não se transformem nos lucros esperados.
“A história da tecnologia nos mostra que investir demais pode ser um risco grande e que as empresas podem acabar não recebendo de volta tudo o que aportaram.” O estrategista da BlackRock destacou que o cenário atual é de muito mais volatilidade e incerteza ao redor do mundo.
Ainda que o setor de tecnologia seja um concorrente por investimentos, ele vê oportunidades para o Brasil na intersecção entre o setor imobiliário e as empresas de tecnologia, como na construção de data centers e de infraestrutura elétrica. “Há países na América do Sul, incluindo o Brasil, que oferecem fontes de energia confiáveis e acessíveis, que são lugares muito interessantes para oportunidades relacionadas à IA”, disse, lembrando que, no caso do Brasil, também há a oferta de terras raras, essenciais para a fabricação do hardware que sustenta essas tecnologias.
“Nós temos tudo o que o mundo precisa, temos energia limpa, muito espaço e consumo local [de IA]”, afirmou Marcos Peigo, CEO da Scala Data Centers, também no evento. Peigo contou ter ligado para seus investidores na segunda-feira após as eleições para assegurá-los de que o negócio “não está no lado que será negativamente impactado” pelo resultado.
O setor imobiliário ficou, em geral, desapontado com a reeleição de Lula (PT). Uma enquete realizada durante o evento apontou que 66% dos cerca de 350 participantes estão com uma visão pessimista sobre o resultado e acham que “a tendência é piorar”.
Só 3% afirmaram estar otimistas. Ao Valor, o CEO do GRI Institute, Gustavo Favaron, afirma que, embora não seja consenso entre os empresários brasileiros, a vitória de Lula é vista de forma mais positiva por investidores estrangeiros.
“No que diz respeito à aceitação internacional do Brasil, como destino de investimento, o nome do Lula, por mais que tenha uma série de problemas, como também existem problemas do outro lado, traz um pouco mais de aceitação do que o Flávio ou do Jair [Bolsonaro]”, diz. Tem sido mais difícil atrair investidores estrangeiros para o setor imobiliário brasileiro, segundo Favaron, mas a eleição “não é o problema”.
O que afasta investidores, na sua percepção, são questões estruturais, como a taxa de juros e a própria competição com destinos considerados mais seguros e familiares, diante de um “ambiente tão turbulento” internacionalmente. “[O investidor] conhece mais Londres do que São Paulo, e também não toma o risco cambial, são elementos-chave no processo de tomar uma decisão sobre risco”, afirma.
A boa notícia, segundo Favaron, é que o mercado doméstico se desenvolveu nas últimas duas décadas, como por meio da indústria de fundos de investimento imobiliário (FIIs), e tem conseguido manter o setor imobiliário “saudável”. “A questão é que você não tem novos entrantes que talvez proporcionariam uma expansão [do mercado]”, afirma.
Para Christensen, o que falta para o Brasil atrair mais investidores estrangeiros é ter condições para o corte dos juros, que virão por meio de ajustes fiscais — “nenhuma novidade”, acrescentou.
Valor