Governo de Péter Magyar abre bases de dados com até 60 mil colaboradores do regime e reacende o debate sobre responsabilidade individual O governo da Hungria colocou na internet os nomes de informantes da polícia secreta do período comunista.
A decisão é do primeiro-ministro Péter Magyar e encerra mais de três décadas de impasse sobre o acesso a esses documentos, reivindicado desde a queda do Muro de Berlim, em 1989. As bases reúnem os “arquivos dos agentes” e trazem os nomes e dados básicos de quem forneceu informações ao serviço de segurança do Estado.
Parte dos citados colaborou por escolha própria. Outros transmitiram dados sem saber que alimentavam o aparelho de vigilância.
A data coincide com o aniversário da invasão soviética de 1956, quando tropas e tanques esmagaram a revolta anticomunista no país. Depois dela, a polícia secreta sustentou a ditadura por décadas.
Ativistas de direitos civis e partidos pequenos defendem a abertura dos arquivos desde o início dos anos 1990. O primeiro premiê pós-comunista, o conservador Jozsef Antall, rejeitou a proposta.
O Fidesz, partido de Viktor Orbán, também se opôs. Segundo a plataforma húngara Telex, a legenda barrou tentativas de abertura e votou mais de 30 vezes contra propostas do tipo desde 2010.
Orbán permaneceu no poder por 16 anos. Uma abertura parcial ocorreu em 1994, com a chamada “lei dos agentes”.
A norma obrigou integrantes do governo, parlamentares e certos servidores públicos a passar por verificação, para saber se tinham trabalhado para os antigos órgãos de segurança. Desde 1997, os húngaros podem consultar os próprios arquivos.
O acesso foi ampliado em 2003. Em nenhum dos casos era possível saber quem havia delatado.
A lei também permitia que órgãos como o Ministério do Interior impedissem a transferência de documentos ao Arquivo Histórico da Segurança do Estado Húngaro (ABTL) sob alegação de risco à segurança nacional. Esse modelo de divulgação seletiva abriu espaço para o uso político dos papéis.
Em 2002, o jornal Magyar Nemzet, alinhado ao Fidesz, revelou que o então primeiro-ministro Peter Medgyessy havia atuado como agente secreto na era comunista. A partir de 4 de novembro, as bases com os nomes de todos os informantes e as informações essenciais sobre eles estão disponíveis on-line.
Outras bases serão abertas, entre elas uma das maiores coleções de dados sobre pessoas recrutadas pela agência. As cláusulas de sigilo da antiga lei foram flexibilizadas, e um volume maior de documentos deve ser liberado nos próximos anos.
A divulgação iminente alcança até 60 mil dos cerca de 150 mil informantes da polícia secreta. O diretor do ABTL, Bendeguz Gergo Cseh, pediu cautela diante do material.
“Não se pode acreditar em tudo o que os órgãos de segurança do Estado e seus arquivos afirmam”, disse. Segundo ele, muitos documentos são incompletos e pouco confiáveis, e vários arquivos foram destruídos.
Segundo o DW, o historiador Janos M. Rainer, especialista na ditadura húngara, avalia que a publicação teria mais sentido logo após o fim do regime.
Para ele, feita agora, a divulgação tem caráter simbólico. Krisztian Ungvary, que pesquisou os arquivos da segurança do Estado, vê peso maior na medida.
Em entrevista à DW, afirmou que ela permitirá novas pesquisas e a participação da sociedade em debates renovados. Ungvary relacionou o tema ao cenário político do país.
“As mentiras coletivas inevitavelmente levam a uma relação conturbada com a política, e o preço que pagamos por isso foram 16 anos de governo do Fidesz”, declarou. Magyar e seu partido, o Tisza, haviam prometido a divulgação caso chegassem ao poder.
O premiê trata o acerto de contas com o passado, em especial com os anos de Orbán, como uma de suas bandeiras. Em meados de setembro de 2026, quando o Parlamento alterou a lei dos arquivos, Magyar escreveu no Facebook: “Após um atraso de 36 anos, o Parlamento húngaro decidiu hoje, por iniciativa do Tisza, tornar públicos os ‘arquivos dos agentes’.
O Fidesz não apoiou a proposta. Pergunto-me por quê”.
A mensagem aludia ao fato de que figuras de destaque do Fidesz e do círculo próximo a Orbán integraram o Partido Comunista húngaro ou a polícia secreta. O caso mais conhecido é o de Jozsef Horvath, ex-funcionário em tempo integral do departamento de segurança do Estado responsável por reprimir a oposição interna.
Sob Orbán, ele atuou como agente de inteligência e assessor de segurança. Em 2024, Horvath assumiu a direção de pesquisas do Escritório para a Proteção da Soberania, órgão criado pelo então premiê.
A agência ficou conhecida por expor supostos inimigos do governo, classificados como “agentes estrangeiros”.
O Antogonista