Nos dias em que a agenda no centro cirúrgico começa às 7h, Hiran Gasparini costuma concluir o treino antes de iniciar o expediente. Aos 37 anos, o médico otorrinolaringologista organiza a rotina entre consultas, cirurgias e uma preparação esportiva que ganhou novos objetivos na corrida de rua.
Em setembro de 2026, esse trabalho resultou em seu recorde pessoal na maratona: 3 horas e 16 minutos em Berlim. A marca representou uma redução de 15 minutos em relação às 3h31 registradas na Maratona de Buenos Aires, no ano anterior.
Em outubro, Hiran completou uma prova de 5 quilômetros em 19 minutos. Embora os resultados sejam recentes, a familiaridade com treinos, metas e competição começou na infância, quando entrou no judô, aos cinco anos.
Com passagem pela Seleção Brasileira da modalidade, o médico encontrou na corrida uma forma de dar continuidade à vida esportiva. A experiência dos tatames acompanha sua maneira de lidar com a preparação, mas agora divide espaço com as exigências da profissão e com os desafios específicos das provas de resistência.
Uma formação que começou nos tatames Antes de ingressar na medicina, Hiran construiu uma trajetória competitiva no judô.
Conquistou títulos paulista, sul-brasileiro, brasileiro, sul-americano e pan-americano, além do terceiro lugar na Copa Quebec Open, no Canadá. Durante os anos em que integrou a Seleção Brasileira, disputou competições internacionais e participou da seletiva pré-olímpica de Pequim.
A convivência com o esporte desde cedo trouxe experiências que ultrapassaram os resultados. Preparar-se para competir significava estabelecer objetivos, lidar com a pressão e manter a regularidade mesmo quando a evolução não aparecia de imediato.
Com o ingresso na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, a formação profissional passou a ocupar o espaço antes dedicado ao judô competitivo. Na mesma instituição, Hiran cursou residência em Otorrinolaringologia e fellowship em Rinoplastia.
O esporte permaneceu em sua vida. Na corrida de rua, encontrou a possibilidade de estabelecer novas metas e acompanhar a própria evolução, conciliando a prática com a rotina médica.
O que mudou entre Buenos Aires e Berlim Os 15 minutos de diferença entre as duas maratonas ajudam a dimensionar o avanço no desempenho.
Por trás do resultado, há uma rotina de pelo menos quatro treinos de corrida por semana, com diferentes estímulos e acompanhamento da assessoria Pace Fit. O planejamento é conduzido pelo treinador Emídio Peres, com quem Hiran mantém contato diário.
Essa troca permite avaliar a resposta às sessões, ajustar o trabalho e estabelecer objetivos compatíveis com o momento da preparação e com a agenda profissional. As provas integram um calendário de trabalho que se desenvolve ao longo de semanas e meses.
Nesse processo, o cronômetro oferece uma medida da evolução, enquanto o acompanhamento cotidiano orienta as decisões sobre os próximos passos. A musculação e a preparação física complementam os treinos de corrida.
Hiran também conta com orientação nutricional, com ajustes na alimentação e na suplementação conforme cada etapa, além de estratégias de hidratação e abastecimento para as competições. Os cuidados incluem ainda a escolha do vestuário.
Em Berlim, o médico utilizou peças personalizadas confeccionadas pela RUNIK, marca que o acompanha nos treinos e nas provas. Uma agenda que precisa incluir recuperação
Conciliar a preparação para uma maratona com o consultório e o centro cirúrgico exige organizar mais do que os horários de treino. Para conseguir correr cedo e preservar o descanso, Hiran procura dormir mais cedo e planejar os compromissos com antecedência.
A rotina, porém, está sujeita a imprevistos. Os ajustes fazem parte do processo e exigem alinhar as demandas profissionais, o treinamento e os períodos de recuperação.
A satisfação de cumprir uma sessão e perceber os avanços ajuda a manter a dedicação. As marcas alcançadas nas provas tornam visível um trabalho que acontece diariamente, muitas vezes nas primeiras horas da manhã, antes do expediente.
Outra modalidade, a mesma relação com o esporte A transição do judô para a corrida mudou o ambiente e a dinâmica das competições.
A preparação deixou de ter como destino o confronto no tatame e passou a se orientar também pelo ritmo, pela distância e pelo tempo. Permaneceram a disciplina, o autocontrole e a disposição para construir resultados de forma gradual.
Na trajetória de Hiran, a busca por melhores marcas convive com o prazer de treinar e com a importância de manter o esporte presente na vida adulta. A corrida oferece novos desafios a alguém que aprendeu ainda criança a organizar parte da rotina em torno de uma competição.
O recorde em Berlim ocupa um lugar nesse percurso, mas seu significado está ligado ao trabalho que o antecedeu. Na expressão usada por seu treinador, Emídio Peres, o dia da maratona é a "cereja do bolo": o momento de colocar à prova uma preparação construída muito antes da largada.
O Globo