Líderes ou organizações ligadas aos governos do México, Uruguai e Cuba, todos de esquerda, manifestaram incômodo com a possibilidade de Flávio Bolsonaro (PL) vencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição brasileira, no próximo domingo (25). Com a onda de vitórias da direita nas eleições nos últimos anos, restam poucos governos de esquerda na América Latina, e estes temem que esse isolamento seja ainda mais acentuado com a vitória de Flávio.
No dia 5, um dia após ele ficar à frente de Lula no primeiro turno, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, foi perguntada sobre a eleição no Brasil e se temia que o país norte-americano fique isolado em caso de derrota do petista. A esquerdista respondeu que “é preciso aguardar o segundo turno” e desconversou sobre a falta de aliados no continente.
“Nosso principal aliado é o povo do México. Enquanto estivermos próximos do povo, representando o povo, e governando pelo povo e para o povo, não haverá problema algum — absolutamente nenhum — no México”, disse Sheinbaum, que em seguida, porém, adotou um tom mais panfletário.
Ao falar sobre a onda eleitoral com vitórias da direita na América Latina, a presidente mexicana disse que não podia opinar sobre outros países, mas afirmou que “a direita é um movimento político, uma ideologia que está contra o povo; ela não defende o povo” e que “a direita internacional quer, sim, intervir [no México] — algo que temos denunciado constantemente”.
Em setembro, Fernando Pereira, presidente da Frente Ampla, coalizão de esquerda do presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, participou de um debate com o secretário sindical nacional do PT, Ariovaldo de Camargo, e manifestou preocupação com a possibilidade de derrota de Lula. “Vocês enfrentam essa extrema direita que, ao chegar ao poder, aniquila direitos.
Já vimos isso no Brasil e estamos vendo na Colômbia, na Bolívia e no Chile. Não queremos ver isso no Brasil.
A luta de vocês é entre democracia e barbárie”, disse Pereira, segundo informações do jornal El País. Em Cuba, a Casa das Américas, órgão vinculado à ditadura castrista, divulgou este mês um comunicado sobre a eleição brasileira.
“É urgente uma ação mundial para deter o avanço do neofascismo. A trincheira imediata que temos diante de nós é o enfrentamento eleitoral no Brasil”, afirmou.
Em artigo publicado pelo site Cibercuba após o primeiro turno, o líder oposicionista José Daniel Ferrer García disse que o regime comunista cubano tem muito a perder com uma vitória de Flávio. “Para Havana, o prejuízo é tangível.
Durante anos, o Brasil foi o grande aliado sul-americano: créditos, alimentos, médicos, derivados de petróleo, votos em fóruns internacionais e uma narrativa de integração que o castrismo utilizava como prova de que não estava isolado. Se Flávio Bolsonaro vencer, esse apoio chegará ao fim”, escreveu Ferrer.
“Um governo Bolsonaro não manterá o discurso de ‘cooperação’, nem o silêncio cúmplice diante da repressão. Ele se alinhará a Washington e aos governos que já tratam a ditadura pelo que ela realmente é”, acrescentou.
Ricardo Caichiolo, doutor em ciências políticas e sociais e diretor do Ibmec Brasília, disse em entrevista à Gazeta do Povo que uma derrota de Lula, caso se concretize, “gerará um impacto significativo na coesão ideológica regional, visto que o Brasil detém o maior poder relativo da América Latina”.
“O resultado eliminará o principal contrapeso ao eixo conservador que avança na região. Nesse cenário, México, Cuba e Uruguai perderão um ator de peso alinhado aos seus interesses em foros multilaterais, o que aprofundará o isolacionismo desses países”, afirmou.
Outros governos de esquerda da região já estão mais distantes de Lula. O regime sandinista da Nicarágua é aliado histórico do PT, mas entrou em atrito com o presidente brasileiro nos últimos anos.
Em 2024, Brasília e Manágua expulsaram os embaixadores do outro lado depois que o embaixador do Brasil no país centro-americano, Breno de Souza Brasil Dias da Costa, não compareceu à cerimônia do 45º aniversário da Revolução Sandinista. Antes, o Brasil havia pedido para que o ditador Daniel Ortega libertasse o bispo Rolando Álvarez, que ficou mais de um ano preso na Nicarágua e foi expulso do país em janeiro daquele ano.
Este ano, o governo Lula manifestou “preocupação” a respeito do anúncio do líder sandinista de que “não voltará a haver eleições” no país centro-americano. Depois, o regime da Nicarágua voltou atrás e disse que ainda haverá eleições no país, mas que “golpistas” e “traidores da pátria” não poderão participar – na prática, vetando a participação de qualquer pessoa que não seja autorizada pela ditadura sandinista.
Por meio de uma nota oficial do Ministério das Relações Exteriores, a ditadura da Nicarágua respondeu ao Brasil que se trata de “nossa democracia, nossas eleições”. A Venezuela e a Guiana, outros dois países das Américas liderados pela esquerda, hoje estão mais próximas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do que de Lula.
A ditadora interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, atende a todas as demandas do republicano e sua gestão desde a captura de Nicolás Maduro vem sendo descrita como uma “tutelagem” do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Apesar de ter um presidente de esquerda (Irfaan Ali), a Guiana aderiu ao Escudo das Américas, um plano de segurança de Trump ao qual Lula se opõe, e abriu suas reservas de petróleo e gás para a exploração de empresas americanas, o que tem feito o país ostentar algumas das maiores taxas de crescimento econômico do mundo nos últimos anos.
Ricardo Caichiolo disse à Gazeta do Povo que, apesar de o governo Lula ter um baixo grau de interlocução com esses países, “a derrota do seu governo ampliaria ainda mais a influência geopolítica direta dos Estados Unidos na região”. “Além disso, a ausência do Brasil como canal de negociação isolaria ainda mais regimes autoritários como o venezuelano e o nicaraguense, reduzindo sua margem de manobra diplomática”, projetou.
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Gazeta do Povo (Mundo)