Giulia Gam contou que ficou com ciúme de verdade de Natalia do Vale na novela que "Que rei sou eu?" de 1989. No folhetim, Giulia era Aline, uma jovem de ideias firmes, corajosa e ligada aos movimentos de resistência, que depois viveria um intenso romance com Jean-Pierre (personagem de Edson Celulari). Só que no meio do caminho tinha... a nobre Suzanne Webert, personagem de Natalia, que acaba se envolvendo com Jean Pierre. Em entrevista ao GLOBO, Giulia lembrou os bastidores da novela e também da minissérie "O primo Basílio", em que confundiu a dor de personagem que interpretava, Luisa, com a sua vida pessoal. Leia trecho: Giulia Gam Ana Branco Você viveu a Aline D'artagnan em "Que rei sou eu?", novela de 1989. Ela era apenas a namorada de Jean Pierre (papel de Edson Celulari), e só tinha duas falas: "Oi e tchau". Mas o seu carisma a transformou em tamanha protagonista que o nome da personagem foi recorde em batismos de bebês à época...
Sabe que, na época, fiquei com ciúmes de verdade, assim como a personagem. Porque Jean Pierre começava a namorar a Natália do Vale (Suzanne Webert) uma princesa da corte. E eu não gostei... Sobre o visual da Aline tem uma curiosidade... um dia, cheguei lá e vi uma peruca horrorosa de nylon jogada... tenho uma coisa com cabelo, porque não tenho cabelo, tenho sempre inventar pelo cabelo. Botei aquela peruca, escovaram ela, baguncei toda e usei... E tinha a coisa da espada, né? Você havia lutado esgrima na juventude, foi até federada. Serviu do seu aprendizado , então...
Peguei a espada e... acabou! Botei a Natália do Vale e a corte inteira no bolso (risos). Já vi você dizer que fazer 'O Primo Basílio', em 1988, foi puxadíssimo... Foi puxadíssimo. A adaptação do Gilberto (Braga) tinha 500 páginas e eu estava em 468. Ficava no centro daquela casa e aqueles atores chegavam e despejavam tudo na Luísa (personagem que interpretava). Quando você faz um personagem que é medíocre, não tem o sentimento do heroísmo... É mais fácil fazer Joana D'arc na fogueira, que aí o corpo já abre, do que você fazer uma personagem... O Eça (de Queiroz, autor) queria criticar o casamento e, de repente, as pessoas oprimindo... Luisa não tem um arrobo de heroísmo. Aí, o corpo fecha, e eu fechei. Tive um estresse absurdo quando acabou. Daniel (Filho) me dirigiu em cada respiração...
Deve ter te exigido muita concentração, um estado de presença completa. Chegou um momento em que comecei a ficar apática. Reflito as coisas no corpo, por isso, em termos de saúde, estou indo cada vez mais para essa linguagem. Quis fazer mímica quando jovem, né? Nem queria ser atriz, porque não gosto de falar. Bem, mas estava apática e lembro que o marido da Marília Pêra, na época, olhou para mim e falou: "Você está doente". Respondi: "Não". Mas es estava lenta, o pessoal estava percebendo que eu demorava para me trocar. Começo a engordar, vou inflando, a energia vai ficando parada. Eu tinha que estudar qual doença a Luisa teria, porque ela tem aquela dor de cabeça...
Estava num momento em que a personagem ia morrer, tem uma cena célebre em que ela raspa a cabeça. Estava nesse processo de adoecimento, que era somático. A preparadora de elenco me indicou um psiquiatra. E tinha tido meningite. E eu pensei que meningite poderia ser a doença de Luisa. Ele me explicou como tinha sido. Uma hora, falou: "Acho que não é só isso que quer conversar comigo. Pelo pouco que me explicou, acho que você está vivendo 24 o personagem". Porque tinha um motorista que ia me acordar, sabe? Esmurrava a porta e me arrancava da cama para me levar. Eu já não estava mais dando conta. E o psiquiatra: "Você está tão identificada com essa personagem, que ela vai morrer e você já está com medo. Você já está morrendo". Achei papo de papo maluco. E ele: "Vamos conversar com o diretor porque é preciso, minimamente, um tempo e um ritual para você". O Daniel (Filho, diretor) aceitou super bem. Então, eu ia para o consultório, fazia shiatsu, chegava no estúdio, fazia uma aula de balé, tomava um banho. Fazia a personagem, tomava outro banho, colocava as minhas roupas bem coloridas e diferentes da personagem e ia para casa de outro jeito. Criou-se um ritual e um mínimo de tempo para eu entrar e sair da personagem. Foi assim que consegui ver que quem ia morrer era ela e não eu.
O Globo