Bolsonaristas usam imagem de Lula como alvo em clube de tiro de São Paulo (vídeo)

Bolsonaristas usam imagem de Lula como alvo em clube de tiro de São Paulo (vídeo) - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Dois homens armados utilizaram uma imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como alvo durante uma sessão de tiros em um clube localizado na zona leste de São Paulo. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, a dupla aparece fazendo disparos contra o rosto do petista, enquanto ri e profere frases de provocação política, incluindo uma referência à possibilidade de o presidente não disputar a próxima eleição.

O episódio foi revelado pela Agência Pública, que identificou o local da gravação como o Clube e Escola de Tiro 556. As imagens mostram perfurações de bala concentradas na parte superior do rosto de Lula. Durante a gravação, um dos participantes afirma: “Esse não vai participar da próxima eleição.” Outro diz: “Faz o L.”

Em determinado momento, a câmera se aproxima do alvo atingido, enquanto um dos homens comenta: “Olha a carinha dele. Só na testa.” A publicação também trazia a legenda “Toma essa picanha”, em referência a uma das promessas associadas à campanha eleitoral do presidente.

A utilização da imagem de Lula como alvo de disparos levantou questionamentos sobre possíveis ameaças e incitação à violência política, especialmente diante de episódios anteriores de ataques contra o petista e de investigações sobre planos de assassinato de autoridades brasileiras.

Empresário publicou vídeo e apagou gravação após ser procurado

Segundo a reportagem, o responsável por publicar o vídeo em seu status do WhatsApp foi identificado como Maurício Archangelo, empresário que possui negócios na zona leste da capital paulista.

Procurado pela reportagem em 21 de outubro, Archangelo afirmou inicialmente não se lembrar da gravação. Após ser informado de que o conteúdo estava disponível naquele momento em seu perfil, disse que verificaria a publicação e encerrou a ligação.

Pouco depois, o vídeo foi retirado do ar.

Em um segundo contato, o empresário declarou desconhecer o assunto, voltou a desligar e bloqueou o número utilizado pela reportagem. A Agência Pública tentou novamente obter esclarecimentos por outro telefone, mas Archangelo não respondeu às perguntas. Ele apenas questionou como os jornalistas haviam conseguido acessar seu status do WhatsApp.

O perfil público do empresário no Instagram também apresenta registros relacionados a armas de fogo. Entre as publicações identificadas pela reportagem estão uma fotografia de Archangelo em um clube de tiro e uma imagem de um bebê com uma arma posicionada na parte de trás da fralda.

Especialista aponta possibilidade de crime de ameaça

A conduta registrada no vídeo pode ter consequências criminais, segundo avaliação de Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz.

O especialista considera que disparar contra a representação de uma pessoa, acompanhado de manifestações que sugerem sua eliminação, pode configurar crime de ameaça, previsto no Código Penal brasileiro.

A legislação estabelece a possibilidade de responsabilização de quem ameaça outra pessoa, por palavras, gestos ou meios simbólicos, de provocar um mal injusto e grave. O eventual enquadramento depende, entretanto, da análise das circunstâncias e dos elementos reunidos em uma investigação.

Langeani destacou a gravidade do episódio diante do histórico de violência política envolvendo Lula.

“Vindo de pessoas que têm acesso a arma de fogo e se tratando de políticos como Lula, que já tiveram a caravana em 2018 atingida por tiros e que na época da tentativa de golpe, em 2023, foi demonstrado que havia um plano para matá-lo também a tiros, isso é algo bastante grave e que deve ter providências sérias das autoridades”, afirmou à Agência Pública.

Na avaliação do consultor, uma eventual apuração não deveria se limitar à identificação e à conduta dos participantes da gravação. Também seria necessário examinar a responsabilidade do estabelecimento que permitiu a utilização do alvo.

A preocupação ganha relevância diante de episódios anteriores de violência contra Lula. Em 2018, ônibus de sua caravana foram atingidos por disparos durante uma viagem pelo Sul do país. Posteriormente, investigações sobre a trama golpista de 2022 e 2023 revelaram a existência de um plano para assassinar Lula, o então vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Dono do clube afirma que desconhecia o episódio

O proprietário do Clube e Escola de Tiro 556, Vinicius Monteiro Pires Inácio, conhecido nas redes sociais como Magnata, afirmou à Agência Pública que estava viajando e não tinha conhecimento da gravação.

Segundo ele, o estabelecimento permite que frequentadores levem seus próprios alvos, desde que sejam caricaturas e não fotografias de pessoas reais.

Inácio declarou que o clube não incentiva nem compactua com manifestações de ódio. De acordo com o empresário, é comum que clientes utilizem desenhos de personagens fictícios, como o Coringa, ou representações de demônios, mas os funcionários não autorizam fotografias de familiares, celebridades ou outras pessoas.

Após ser procurado pela reportagem, o estabelecimento publicou um comunicado no Instagram afirmando que é “expressamente proibida a impressão e utilização de imagens de pessoas reais como alvos em nossas instalações.”

Na manifestação, o clube citou dispositivos do Código Civil e do Código Penal e informou que o descumprimento da regra “poderá resultar em medidas administrativas e, conforme o caso, responsabilização civil e criminal”.

O proprietário também sustentou que os frequentadores precisam apresentar as autorizações exigidas para utilizar o espaço, mas reconheceu limitações na fiscalização das atividades individuais. Segundo ele, “não é possível observar o que os clientes fazem o tempo todo”.

Proprietário tem atuação política nas redes sociais

Vinicius Inácio é conhecido por sua atuação nas redes sociais e por manifestações alinhadas à direita.

Na semana anterior ao primeiro turno das eleições, ele publicou um vídeo mostrando pessoas vestidas com camisetas de Jair Bolsonaro durante uma sessão de tiros. A gravação trazia a legenda “Domingo vai ser assim de novo”.

O clube também promoveu um evento para acompanhar a apuração eleitoral, com cerveja e petiscos.

Apesar das manifestações políticas, o empresário afirmou que suas posições pessoais não interferem na administração do estabelecimento e rejeitou qualquer associação com a utilização da imagem de Lula como alvo.

“A minha opinião política e partidária nunca teve sigilo. Tanto que eu perdi uma conta com mais de 800 mil seguidores no Instagram por expor o que eu penso. Mas uma coisa é o Vinícius, pessoa física. Outra coisa é o Magnata, proprietário do clube de tiro 556. Eu não deixo que opiniões políticas interfiram na minha empresa. Todo mundo é bem vindo lá”, declarou.

Clube já teve 38 armas apreendidas em operação policial

O Clube e Escola de Tiro 556 já havia sido alvo de uma operação policial em 2023, quando foram apreendidas 38 armas de fogo no estabelecimento.

De acordo com reportagem do SBT News citada pela Agência Pública, o local era investigado por suspeitas de promover rifas de armamentos, com números comercializados a partir de R$ 1.

A reportagem também apontou suspeitas de que pessoas sem treinamento adequado tinham acesso a diferentes tipos de armas no estabelecimento.

A Portaria nº 20.749, de setembro de 2020, estabelece restrições à distribuição de armamentos e munições como prêmios em determinadas operações de sorteio e arrecadação. O texto inclui entre os itens proibidos “armas e munições, explosivos, fogos de artifício ou de estampido”.

A norma também prevê a necessidade de autorização prévia para determinadas modalidades de distribuição de prêmios promovidas por organizações da sociedade civil com a finalidade de arrecadar recursos.

Uso de imagens de Lula como alvo tem antecedentes

A utilização de representações de Lula em exercícios de tiro não é inédita.

Em 2021, um vereador de Fortaleza foi condenado a pagar indenização por danos morais depois de realizar disparos contra uma fotografia do petista.

No ano seguinte, após a vitória de Lula na eleição presidencial de 2022, o Partido dos Trabalhadores denunciou a utilização de imagens do presidente eleito como alvos em clubes de tiro e recorreu à Justiça.

Os episódios integram um histórico de manifestações de hostilidade política que, em determinadas circunstâncias, podem ultrapassar os limites da liberdade de expressão e resultar em responsabilização judicial.

Um cientista político da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ouvido pela Agência Pública, relacionou o episódio à normalização da violência em setores do bolsonarismo.

“Passa a ser normal tratar adversários como inimigos a quem se deve eliminar”, afirmou.

A avaliação chama a atenção para o significado político de práticas que representam adversários como alvos físicos, especialmente quando envolvem pessoas com acesso a armas de fogo.

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