A Nvidia está orientando seus parceiros de centros de dados a reduzir sua exposição a clientes chineses, em uma medida que restringe ainda mais a capacidade da China de acompanhar seus concorrentes americanos, em meio à intensificação da disputa entre as duas superpotências mundiais em inteligência artificial.
Nos últimos meses, a maior fabricante de chips do mundo informou a clientes de serviços de computação em nuvem que eles deverão destinar pelo menos 51% de seus serviços a empresas de fora da China, segundo cinco fontes a par do assunto. Até então, não havia restrições desse tipo.
As instruções foram transmitidas verbalmente e implementadas pelas equipes de vendas e pelos representantes regionais da Nvidia, em vez de serem formalizadas em documentos, segundo as fontes. A medida representa uma nova ameaça às ambições das empresas chinesas de tecnologia no campo da IA, num momento em que Washington tenta restringir ainda mais o acesso dessas empresas a chips americanos avançados por meio de contratos de serviços de computação em nuvem no exterior.
Muitos grupos chineses já recorreram a esse tipo de locação para realizar tarefas avançadas de IA, inclusive o treinamento de modelos. As novas regras de conformidade se aplicam aos clientes da Nvidia em todo o mundo, e não apenas aos centros de dados na Ásia, disseram duas das fontes.
As exigências, porém, afetam apenas novos contratos, não os acordos de locação já existentes. A Nvidia disse: “Os centros de dados e serviços de computação em nuvem construídos com chips americanos são a base de que os desenvolvedores americanos de modelos e aplicativos precisam para competir em escala global.
A política de longa data dos EUA incentiva todos os provedores de serviços em nuvem a utilizar infraestrutura americana e conquistar clientes onde quer que possam. Essa política sempre apoiou a expansão da infraestrutura americana em todo o mundo, trazendo prosperidade, influência e empregos de volta ao país”.
A Nvidia implementou a nova exigência no terceiro trimestre, em uma tentativa preventiva de reduzir as críticas que costuma receber de parlamentares americanos e de outros que não gostam de sua postura em relação à China, segundo disseram duas fontes. Os EUA estão tentando reprimir tanto os intermediários que ajudaram a criar um próspero mercado clandestino de chips da Nvidia na China, como o acesso de empresas chinesas a chips avançados no exterior, por meio de contratos de locação firmados fora do país.
Os provedores de serviços de computação em nuvem estão tendo dificuldades para cumprir as novas exigências porque “é difícil encontrar clientes não chineses em número suficiente fora dos EUA”, segundo disse um grupo sediado em Cingapura. “Se forem aplicadas rigorosamente, as regras certamente prejudicarão os negócios.”
As medidas restritivas adotadas pela Nvidia também vêm agravando a escassez de capacidade computacional avançada para as empresas chinesas de tecnologia. Um conjunto de chips B300 da Nvidia, que no mercado internacional é vendido a cerca de US$ 600 mil, foi negociado na China, no mês passado, a 18,5 milhões de yuans (US$ 2,8 milhões) devido à sua escassez, segundo diz uma fonte com conhecimento direto da transação.
O B300, cuja venda na China é proibida pelas restrições americanas à exportação, é um dos produtos mais avançados da Nvidia e é utilizado por importantes empresas americanas de inteligência artificial, como Anthropic e OpenAI. A Nvidia já reduziu em mais da metade o número de clientes asiáticos autorizados a comprar seus chips de IA, após estabelecer, este ano, uma “lista branca” de empresas que passaram por verificações mais rigorosas – medidas destinadas a impedir que os produtos cheguem à China.
Isso resultou em uma diminuição na entrada de chips avançados da Nvidia na China via contrabando, forçando grupos de tecnologia chineses a buscar contratos de locação com provedores de computação em nuvem sediados no exterior. Os EUA e a China são, de longe, as duas maiores fontes de demanda por poder computacional, enquanto os grupos chineses de tecnologia têm sido os maiores clientes de centros de dados em mercados como o do Sudeste Asiático.
A decisão da Nvidia também levou centros de dados de fora dos EUA a buscarem, com urgência, clientes que não sejam chineses. Caso não consigam, essas instalações poderão ser forçadas a reduzir a escala de suas operações.
As ações da Nvidia caíram mais de 13% no último mês, mas ainda acumulam uma valorização de 7% no ano. Com a queda recente da ação, o grupo liderado por Jensen Huang foi superado pela Apple, que assumiu o posto de companhia de capital aberta mais valiosa do mundo.(Tradução de Mario Zamarian)
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