A Rússia bloqueou na sexta-feira (30) um projeto de resolução dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU que visava renovar e alterar o mandato da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO). A proposta de Washington sugeria a retirada da palavra “referendo” do nome da missão, buscando consolidar o plano de autonomia sob soberania do Marrocos como o principal foco das negociações.
A Rússia justificou o veto afirmando que o texto era desequilibrado e comprometia a imparcialidade do processo, temendo que a opção de independência do povo saarauí fosse escanteada. Em resposta ao desfecho no Conselho de Segurança, a Frente POLISARIO emitiu um comunicado oficial no sábado (31).
A organização destacou que “o impasse durante os trabalhos do Conselho de Segurança decorreu, primordialmente, da minuta de resolução apresentada pelos Estados Unidos, a qual reproduzia integralmente a posição nacional do governo norte-americano, bem como a do Marrocos, o Estado ocupante”.
A Frente POLISARIO manifestou satisfação com a rejeição do texto, alertando que a adoção da proposta “teria comprometido gravemente os fundamentos do processo de paz da ONU no Saara Ocidental e criado um precedente perigoso, com implicações desestabilizadoras para a paz e a segurança regionais e internacionais de forma mais ampla”.
A liderança saarauí também fez questão de registrar sua “profunda gratidão pela postura baseada em princípios adotada pela Federação da Rússia ao se opor ao projeto de resolução” e reconheceu as abstenções da China, do Paquistão e da Somália. O comunicado reforça que a MINURSO foi estabelecida pela resolução 690 de 1991, a partir de um acordo mútuo entre a Frente POLISARIO e o Marrocos.
A tentativa de alterar esse mandato de forma unilateral para alinhá-lo aos interesses marroquinos foi classificada como “absolutamente inaceitável”. A Frente POLISARIO criticou o que chamou de “apresentação distorcida feita pelo Marrocos” sobre as deliberações e responsabilizou o país por eventuais repercussões na segurança regional.
Por fim, reafirmou seu compromisso com a descolonização do Saara Ocidental, destacando a apresentação de uma proposta ampliada ao Secretário-Geral da ONU em 20 de outubro de 2025 como prova de sua disposição para a paz. O veto russo representa um significativo revés diplomático para os Estados Unidos, que buscavam implementar uma transformação política na atuação da ONU no Saara Ocidental.
A MINURSO foi criada em 1991, tendo como base histórica a realização de um referendo de autodeterminação. A tentativa americana de remover o termo “referendo” da missão e favorecer a proposta de autonomia marroquina gerou forte oposição tanto da Rússia quanto da Frente POLISARIO, que acusam a manobra de ferir a imparcialidade das Nações Unidas e favorecer o expansionismo.
Com o mandato da missão expirando em 31 de outubro de 2026 e o bloqueio estabelecido no Conselho de Segurança, os Estados Unidos precisarão formular uma nova alternativa para evitar a paralisação das atividades da ONU na região. A disputa evidencia as tensões diplomáticas em torno daquele que a Frente POLISARIO classifica como “a última colônia na África”.
Brasil 247