A profissão de influencer é uma das maiores aberrações do capitalismo tardio

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Fonte da notícia: Jornal Opção Jornal Opção

Poucas coisas expliquem tão bem as contradições do capitalismo contemporâneo quanto a profissão de influenciador digital. Em uma sociedade na qual professores, pesquisadores, enfermeiros, trabalhadores da construção civil e profissionais que desempenham funções essenciais precisam lutar por salários dignos, pessoas conseguem acumular fortunas simplesmente transformando a própria rotina em espetáculo.

Não precisam necessariamente produzir conhecimento, desenvolver um produto, prestar um serviço relevante ou contribuir para melhorar a vida de alguém. Basta conseguir atenção.

E, aparentemente, quanto mais banal o conteúdo, maior pode ser o retorno financeiro. É claro que existem influenciadores que trabalham seriamente, produzem conteúdo educativo, divulgam ciência, ajudam pequenos negócios, discutem política e prestam serviços relevantes.

A internet abriu espaço para profissionais que antes não tinham acesso aos grandes meios de comunicação. O problema não está na existência desse trabalho, mas no modelo de sucesso que se estabeleceu em torno dele.

Uma indústria que, muitas vezes, remunera muito mais a capacidade de provocar uma polêmica do que a de produzir alguma coisa efetivamente útil. O capitalismo sempre teve uma relação estreita com a capacidade de transformar qualquer coisa em mercadoria.

A novidade é que, agora, até a intimidade, os relacionamentos, as brigas, as traições e os acontecimentos mais corriqueiros da vida privada se tornaram produtos comercializáveis. O influenciador não precisa necessariamente ter alguma coisa a dizer.

Precisa apenas fazer com que as pessoas continuem olhando. É a economia da atenção em sua forma mais explícita.

Seguidores viram audiência, audiência vira publicidade e publicidade vira dinheiro. O valor econômico não está necessariamente naquilo que se produz, mas na quantidade de pessoas que se consegue manter diante de uma tela.

E isso ajuda a explicar por que determinados personagens da internet ganham mais em uma única campanha publicitária do que um trabalhador recebe em anos de dedicação profissional. A situação se torna ainda mais absurda quando parte desse mercado deixa de se limitar à publicidade convencional e passa a funcionar como uma grande vitrine de apostas e promessas de enriquecimento fácil.

O Jogo do Tigrinho é um exemplo. Influenciadores emprestam sua credibilidade, seu alcance e sua imagem de sucesso para divulgar plataformas de apostas, muitas vezes apresentadas como caminhos fáceis para ganhar dinheiro.

O roteiro costuma ser conhecido: vídeos de supostos ganhos, demonstrações de uma vida de luxo e links para que seguidores também experimentem a oportunidade. O que não aparece com a mesma frequência é o prejuízo de quem perde dinheiro.

Em julho deste ano, a Polícia Federal realizou a Operação Slots para investigar um grupo suspeito de utilizar influenciadores digitais na divulgação de plataformas ilegais de apostas. Segundo o Ministério da Fazenda, a investigação apontou que o esquema também envolvia suspeitas de lavagem de dinheiro relacionada ao tráfico de drogas.

A Justiça determinou o bloqueio de bens e valores que poderiam chegar a R$ 951,1 milhões. Não se trata, portanto, de uma preocupação abstrata com a qualidade do conteúdo publicado nas redes sociais, mas de um problema que pode alcançar a esfera criminal.

As rifas vendidas pela internet também merecem atenção. Em muitos perfis, a promessa de ganhar um carro, uma motocicleta ou uma quantia em dinheiro aparece acompanhada de números baratos, contagens regressivas e apelos para que os seguidores participem.

A aparência é de uma brincadeira inofensiva, mas há uma questão legal importante: o Ministério da Fazenda informou que as rifas, em regra, não são admitidas pela legislação brasileira e são enquadradas como loterias não autorizadas. Promoções comerciais e ações filantrópicas podem ocorrer em regimes específicos, desde que cumpram as exigências legais e obtenham as autorizações cabíveis.

Ou seja, não é simplesmente uma questão de gosto ou de achar o conteúdo ruim. Existe uma indústria que movimenta dinheiro a partir da confiança de milhões de pessoas e que, em determinadas situações, pode servir de porta de entrada para atividades irregulares.

O influenciador anuncia, o seguidor acredita, o dinheiro circula e, quando alguma coisa dá errado, nem sempre quem fez a propaganda está disponível para responder. Mas nem é preciso chegar aos casos policiais para perceber o tamanho da distorção.

Basta observar os assuntos que dominam as redes sociais e os portais de entretenimento. Nos últimos dias, por exemplo, a gravidez da influenciadora Soso Careca, de 19 anos, com o cantor MC Paiva, ganhou repercussão.

O anúncio foi feito em 27 de outubro, com uma publicação nas redes sociais e fotografias do casal. A notícia passou a circular por diferentes veículos, acompanhada de comentários sobre a idade da jovem, o relacionamento e o histórico de polêmicas envolvendo os dois.

No dia 31 de outubro, outro episódio tomou conta das redes: o influenciador Wesley Alemão publicou um vídeo no qual admitiu ter mantido relações extraconjugais, apesar de ser casado. Com cerca de 10 milhões de seguidores no Instagram, ele falou abertamente sobre a situação, descreveu a traição como algo ligado ao próprio instinto e afirmou que pretendia permanecer com a esposa e a família.

É legítimo que cada pessoa tenha interesse pelo que acontece na vida de quem acompanha. Uma gravidez é uma notícia importante para o casal e sua família.

Problemas conjugais também fazem parte da realidade humana. A questão não é julgar a vida privada dessas pessoas, mas entender por que acontecimentos particulares, sem repercussão coletiva relevante, conseguem ocupar tanto espaço no debate público.

Por que milhões de pessoas precisam acompanhar cada capítulo de um relacionamento que não é delas? Por que a gravidez de uma influenciadora ou a traição de um personagem da internet se transformam em acontecimentos nacionais? O que existe de tão relevante em uma exposição pública da intimidade a ponto de mobilizar manchetes, comentários, vídeos de reação e horas de discussão?

A resposta passa pelo funcionamento das próprias plataformas. A polêmica produz comentários.

A discussão gera compartilhamentos. A curiosidade mantém as pessoas conectadas.

Quanto maior o envolvimento do público, maior a possibilidade de monetização. Não importa necessariamente se a reação é de admiração, indignação ou deboche.

Para o algoritmo, a atenção continua sendo atenção. O curioso é que a sociedade parece ter desenvolvido uma capacidade impressionante de acompanhar a vida de desconhecidos enquanto dedica cada vez menos tempo a assuntos que afetam diretamente sua própria realidade.

A trajetória de um pesquisador que desenvolve uma tecnologia capaz de melhorar a produção agrícola dificilmente terá o mesmo alcance de uma discussão entre dois influenciadores. Um professor que dedica décadas à educação não recebe a mesma mobilização de uma personalidade que anuncia o fim de um relacionamento.

Uma descoberta científica dificilmente compete com um vídeo de traição. É claro que entretenimento sempre existiu e que ninguém precisa passar o dia consumindo conteúdo intelectual.

O descanso também faz parte da vida. Mas existe uma diferença entre consumir entretenimento e transformar a banalidade em um dos principais produtos de uma indústria bilionária.

Talvez a maior contradição esteja na maneira como essa realidade convive com a desvalorização de profissões tradicionais. Um trabalhador precisa estudar, cumprir horários, enfrentar cobranças, pagar impostos e se submeter a uma série de exigências para receber um salário.

Enquanto isso, determinados influenciadores conseguem faturar quantias extraordinárias com publicidade, exposição pessoal e divulgação de produtos cuja qualidade ou legalidade nem sempre está devidamente esclarecida. O argumento de que influenciar também é trabalhar não encerra a discussão.

Evidentemente, produzir vídeos, administrar contratos, negociar campanhas e manter uma audiência exige tempo e estratégia. Mas reconhecer que existe trabalho não significa que toda atividade remunerada tenha a mesma relevância social.

O mercado paga por aquilo que consegue monetizar, não necessariamente por aquilo que melhora a sociedade. É justamente aí que está a aberração: o valor de uma pessoa passa a ser confundido com o número de seguidores que ela possui, enquanto o sucesso profissional se mede pela capacidade de transformar qualquer acontecimento em engajamento.

A popularidade vira currículo, a intimidade vira mercadoria e a polêmica vira modelo de negócio. No fim, os casos de Soso Careca e Wesley Alemão são apenas exemplos recentes de um fenômeno muito maior.

Não é a gravidez de uma jovem ou a crise conjugal de um influenciador que deveria provocar indignação. É uma estrutura econômica e cultural que transforma acontecimentos privados em mercadorias, premia a exposição permanente e, em suas manifestações mais problemáticas, remunera a divulgação de jogos e sorteios irregulares.

Talvez seja hora de questionar não apenas quem ganha dinheiro com isso, mas também o que estamos financiando com nossa atenção. Afinal, cada visualização, compartilhamento e clique ajuda a alimentar uma indústria que aprendeu a transformar absolutamente tudo em conteúdo.

O capitalismo encontrou uma maneira de vender até aquilo que, em outras circunstâncias, deveria permanecer na esfera privada. E descobriu que não precisa necessariamente produzir algo de valor para todos: basta encontrar milhões de pessoas dispostas a assistir.

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