O cinema brasileiro e a síndrome de vira-lata

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

Depois de um ano vendo um filme por dia, descobri que sabia muito pouco sobre o cinema do meu próprio país. Eu nunca tinha ouvido falar de Pixote: a lei do mais fraco.

Quando o filme terminou, fiquei dez minutos olhando para o teto, sem me mexer. Passei uma semana sem dormir direito, pensando na cena final.

Não vou contá-la aqui, e não sei se terei coragem de revê-lo. Dirigido por Hector Babenco, argentino naturalizado brasileiro, e lançado em 1981, o filme acompanha meninos que vivem entre a rua e a Febem, em São Paulo.

Se você acha Cidade de Deus um filme cru, saiba que Pixote chegou duas décadas antes. Sou atriz e escritora, e me educar culturalmente faz parte do ofício: não há tarefa melhor do que ler e ver filmes.

Não me considero cinéfila, mas amo cinema. O que aquele ano me ensinou foi o tamanho do buraco no meu repertório.

E o buraco tinha nome: o complexo de vira-lata. A expressão é de Nelson Rodrigues, que a lançou numa crônica de 31 de maio de 1958, na revista Manchete Esportiva, às vésperas da Copa da Suécia.

Para ele, o complexo de vira-latas era a inferioridade em que o brasileiro se coloca, por vontade própria, diante do resto do mundo. A ferida, dizia, vinha da derrota para o Uruguai em 1950, no Maracanã.

No cinema, o complexo aparece na ideia de que um filme só é bom depois que lá fora dizem que é. Comemoramos, com razão, o reconhecimento de grandes filmes nacionais: Cidade de Deus, Central do Brasil e, mais recentemente, Ainda Estou Aqui, que levou o Oscar de melhor filme internacional.

É bom ter o ego afagado por Hollywood de vez em quando. Mas por que a nossa alegria precisa de um carimbo de fora? O prêmio pode até ajudar a descobrir um filme.

O problema é quando ele passa a ser o critério para gostar dele. Ouço com frequência que “cinema nacional é ruim”.

Os números não respondem a essa acusação, mas explicam por que ela sobrevive. Em 2025, segundo o Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro, da Ancine, foram exibidos 367 longas brasileiros, mas eles reuniram 11,1 milhões dos 112,8 milhões de ingressos vendidos no país: uma fatia de 9,9%.

Há muito cinema brasileiro sendo feito e pouca gente vendo. Julgar nosso cinema por dois ou três títulos vistos por acaso é como julgar uma culinária inteira por um único prato.

Como atriz, é nas atuações que me apego em cada obra. Em O Auto da Compadecida, Matheus Nachtergaele (João Grilo) e Selton Mello (Chicó) formam uma dupla impecável: cada um parece não existir sem o outro.

Em Ainda Estou Aqui, Fernanda Montenegro, com quase nenhuma fala, nos desmonta nos minutos finais. Às vezes uma atriz só precisa de um olhar, e esse olhar não perde para o de nenhuma atriz estrangeira.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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