Extrema-direita, apoiada por Flávio Bolsonaro, fracassa no Chile em menos de um ano de governo – e desaprovação dispara a 65%

Extrema-direita, apoiada por Flávio Bolsonaro, fracassa no Chile em menos de um ano de governo – e desaprovação dispara a 65% - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O governo de extrema-direita de José Antonio Kast enfrenta uma rápida deterioração de sua popularidade no Chile, apenas sete meses depois de assumir o poder. Pesquisa Cadem divulgada em 18 de outubro revela que 65% dos chilenos desaprovam sua gestão, enquanto apenas 30% a aprovam, o pior resultado desde o início do mandato. O presidente chileno, politicamente alinhado à família Bolsonaro e apoiado por Flávio Bolsonaro (PL), enfrenta uma combinação de desemprego elevado, crescimento econômico próximo de zero e dificuldades para implementar sua agenda. As informações foram publicadas pelo jornal Valor, que ouviu especialistas sobre o desgaste do governo.

Eleito com promessas de recuperar o crescimento, combater a criminalidade e reduzir o tamanho do Estado, Kast enfrenta uma crescente insatisfação popular. O desgaste alcança inclusive setores da direita que contribuíram para sua vitória eleitoral, em um sinal de que as expectativas criadas durante a campanha não estão sendo atendidas.

Desemprego dispara e crescimento se aproxima de zero

Um dos principais fatores de desgaste do governo Kast é a situação do mercado de trabalho. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas do Chile, a taxa de desemprego chegou a 9,6% no trimestre encerrado em agosto. O número de pessoas sem ocupação cresceu 13% em relação ao mesmo período do ano anterior, aproximando-se de um milhão de desempregados.

“As pessoas vivenciam [o desemprego] diretamente. […] A perda de empregos é sentida dentro de casa”, afirmou Kenneth Bunker, professor da Universidade San Sebastián, ao Valor.

As perspectivas para a economia também se deterioraram. A mediana das projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chileno para 2026, entre economistas consultados pelo Banco Central, recuou de 0,7% para apenas 0,2%.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) também reduziu drasticamente sua estimativa de expansão da economia chilena, de 2,4%, em abril, para 0,6%, em outubro.

A mineração, setor estratégico para a economia do país, registrou queda de 17,4% em agosto, na comparação anual, pressionada pela redução da produção de cobre.

O pessimismo econômico se reflete diretamente na percepção dos eleitores. Segundo a Cadem, 69% dos entrevistados consideram que o Chile está no caminho errado, enquanto 68% se dizem pessimistas em relação ao futuro do país.

Promessas de segurança também enfrentam desgaste

A segurança pública, uma das principais bandeiras eleitorais de Kast, também se transformou em fonte de pressão política.

Pesquisa Cadem divulgada em 8 de outubro mostrou que 70% dos entrevistados temiam ser vítimas de crimes e 53% acreditavam que a criminalidade havia aumentado nos dois meses anteriores.

O governo sofreu ainda um revés ao retirar do Congresso uma proposta de reforma constitucional destinada ao combate ao crime organizado e ao terrorismo.

O projeto previa oito alterações na Constituição, mas enfrentou críticas inclusive entre parlamentares governistas, preocupados com possíveis restrições às liberdades individuais e com a ampliação dos poderes presidenciais.

Para Juan Carlos Eichholz, professor da Universidade Adolfo Ibáñez e economista da CLA Consulting, o episódio expôs deficiências na articulação política do governo.

“Falta, desse ponto de vista, uma melhor articulação política, o que está se revelando uma deficiência ou um ponto fraco deste governo”, afirmou.

O sociólogo Tomás Undurraga, da Universidade Alberto Hurtado, foi ainda mais crítico ao avaliar as iniciativas de Kast na área de segurança.

“Suas ações sensacionalistas, como cavar valas na fronteira e colocar mais drones no ar, não têm efeito algum sobre a melhoria da segurança da população nem sobre sua percepção de segurança”, declarou.

Protestos voltam às ruas de Santiago

O desgaste do governo também se manifestou nas ruas. Milhares de pessoas se reuniram na Plaza Italia, em Santiago, para lembrar os sete anos da onda de manifestações sociais de 2019, conhecida como estallido social.

Os protestos, que originalmente denunciavam desigualdades sociais e dificuldades de acesso a serviços públicos, voltaram a servir de espaço para críticas às políticas econômicas do governo.

As manifestações terminaram em confrontos com a polícia e dezenas de detenções.

Pesquisa Criteria divulgada na mesma data mostrou que 68% dos chilenos consideram que as reivindicações que deram origem aos protestos de 2019 continuam sem solução.

Desaprovação começa a atingir a própria direita

O desgaste político de Kast não está restrito aos eleitores de oposição. Segundo a Cadem, sua aprovação entre os chilenos identificados com a direita caiu sete pontos percentuais em setembro, chegando a 72%.

O analista político Patricio Navia, professor da Universidade de Nova York, observou que Kast conquistou apenas 23% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial de 2025, embora os candidatos de direita, somados, tenham ultrapassado 70%.

“Os chilenos queriam um presidente de direita, mas a maioria dos que queriam um presidente de direita não queria Kast. Queria outro candidato de direita”, afirmou.

Para Navia, o presidente precisa ampliar sua base de sustentação para além de seu eleitorado original.

“Se Kast quiser ser um presidente apoiado pela maioria, precisa entender que deve representar todos os eleitores de direita, e não apenas aqueles que votaram nele no primeiro turno”, acrescentou.

Tomás Undurraga também apontou diferenças entre Kast e o ex-presidente conservador Sebastián Piñera.

“Piñera tinha outros problemas. A população suspeitava que ele colocava seus interesses privados acima do interesse público. Com Kast, o problema é que a população o percebe como alguém insensível”, afirmou.

Desgaste ocorre em meio a dificuldades de outros governos de direita na região

A queda de popularidade de Kast ocorre em um cenário de avaliações negativas de outros governos latino-americanos.

No Peru, Keiko Fujimori registrou queda de 14,5 pontos percentuais de apoio em um mês, chegando a 28,3%, enquanto a desaprovação atingiu 53,6%, segundo pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg News.

Na Argentina, levantamento da D’Alessio IROL/Berensztein apontou que 60% dos entrevistados desaprovavam a gestão de Javier Milei.

Na Colômbia, a aprovação de Abelardo de la Espriella recuou de 51,8% para 48,7%, enquanto a desaprovação avançou para 44%, conforme os dados apresentados.

No Chile, os números mostram a dimensão do desgaste enfrentado por Kast: apenas sete meses depois de assumir a Presidência, o governo registra aprovação minoritária, dificuldades econômicas e crescente resistência às suas propostas. A combinação coloca em questão sua capacidade de cumprir as promessas que marcaram a campanha eleitoral.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Brasil 247