247 – A liquidação do banco Ueno, uma das principais instituições financeiras do Paraguai, deixou milhares de clientes sem acesso ao próprio dinheiro e desencadeou uma crise que atingiu o governo, o Banco Central e o mercado financeiro do país. Com aproximadamente 3 milhões de clientes e cerca de US$ 850 milhões em depósitos de órgãos públicos, a instituição teve suas atividades encerradas após a identificação de graves problemas financeiros, incluindo operações de crédito com empresas ligadas ao próprio grupo controlador.
Segundo reportagem do g1, com informações da agência Reuters, a decisão de liquidar o Ueno foi anunciada pelo Banco Central do Paraguai na terça-feira (3), depois que uma análise dos registros contábeis revelou que a instituição não possuía recursos suficientes para cumprir suas obrigações.
O caso provocou a prisão de dirigentes, a renúncia do presidente da autoridade monetária e uma ofensiva da oposição contra o presidente Santiago Peña, que manteve participação acionária no grupo controlador do banco até março de 2025. Como começou a crise do banco Ueno
O Ueno passou por uma expansão acelerada nos últimos anos. Inicialmente voltado à oferta de serviços financeiros digitais, o negócio cresceu até se transformar em um banco de médio porte e no maior emissor de cartões de crédito do Paraguai.
A instituição era controlada majoritariamente pelo Grupo Vázquez, conglomerado empresarial que também está no centro das investigações sobre as operações financeiras que antecederam sua liquidação. Os problemas ganharam dimensão crítica quando a fiscalização identificou uma deterioração acentuada dos indicadores financeiros do banco.
O índice utilizado para medir sua capacidade de cumprir compromissos caiu para menos da metade do mínimo exigido pelas autoridades. Parte das dificuldades estava associada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à própria instituição.
Os órgãos reguladores também investigavam suspeitas de financiamento indireto de uma operação envolvendo a venda de ativos de uma companhia ligada ao Grupo Vázquez, transação cuja realização era negada pelo Ueno. Diante da insuficiência de recursos, o Banco Central determinou a liquidação da instituição, iniciando o processo de encerramento de suas atividades e de avaliação do patrimônio disponível para atender aos credores e depositantes.
Por que aposentadorias e recursos públicos foram afetados Um dos aspectos mais sensíveis da crise é a presença de dinheiro público entre os depósitos administrados pelo Ueno.
O banco mantinha aproximadamente US$ 850 milhões, equivalentes a R$ 4,63 bilhões, pertencentes a órgãos governamentais e fundos públicos paraguaios. Parte desses valores estava vinculada ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias e outros benefícios.
A interrupção das operações bancárias gerou preocupação sobre o acesso a esses recursos. Na terça-feira, clientes compareceram às agências e encontraram as portas fechadas.
Entre os prejudicados estavam aposentados que recebiam seus benefícios por meio da instituição. “Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, afirmou à Reuters Manuel Cáceres, morador de Ñemby, na região metropolitana de Assunção.
“Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim.” A presença de recursos previdenciários ampliou as consequências da crise, que deixou de afetar apenas correntistas e investidores privados para envolver diretamente a administração de fundos destinados à proteção social.
Investigação aponta operações suspeitas e leva dirigentes à prisão O colapso financeiro também desencadeou uma investigação criminal sobre a administração do Ueno.
O Ministério Público apresentou acusações formais contra 27 pessoas ligadas à instituição e a empresas relacionadas ao grupo controlador. Oito dirigentes foram detidos, incluindo o presidente-executivo Miguel Vázquez.
A Justiça também determinou o bloqueio de bens dos investigados. As apurações envolvem suspeitas de concessão irregular de empréstimos, operações entre empresas relacionadas e possíveis falhas nos mecanismos de controle financeiro.
As acusações ainda dependem de análise judicial. O episódio também provocou a renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central paraguaio, que havia comandado o Ueno até agosto de 2023.
Sua atuação à frente do órgão regulador passou a ser questionada diante das dificuldades financeiras identificadas no banco. Ao anunciar sua saída, Carvallo argumentou que a decisão permitiria à autoridade monetária conduzir os procedimentos relacionados à instituição sem a interferência das disputas políticas.
Como os clientes poderão recuperar o dinheiro Para reduzir os prejuízos imediatos, o governo paraguaio aprovou uma legislação destinada a acelerar o ressarcimento dos depositantes por meio do Fundo de Garantia de Depósitos.
A proteção bancária prevista na legislação do país cobre valores de até 75 salários mínimos, aproximadamente US$ 39 mil por depositante. A recuperação de quantias superiores dependerá da apuração dos ativos e das obrigações da instituição.
UOL Economia+1 Na quarta-feira (4), Peña promulgou uma lei para acelerar a liberação dos recursos protegidos.
A medida busca atender especialmente aos correntistas que ficaram impossibilitados de movimentar suas economias após a suspensão das operações. O presidente também prometeu medidas para garantir a recuperação do dinheiro público mantido no banco, incluindo depósitos relacionados à Previdência Social.
Por que a crise chegou ao presidente Santiago Peña O envolvimento político de Peña decorre principalmente de sua relação empresarial anterior com o Grupo Vázquez, controlador do Ueno.
O presidente foi acionista do conglomerado até março de 2025, quando já estava no comando do Paraguai havia aproximadamente um ano e meio. A oposição questiona possíveis conflitos de interesses, a fiscalização exercida pelo Banco Central e o destino dos recursos previdenciários depositados na instituição.
Na quarta-feira (4), 35 deputados apresentaram uma iniciativa de impeachment contra Peña. O avanço do processo depende de uma maioria qualificada na Câmara dos Deputados, onde são necessários pelo menos 53 votos entre os 80 parlamentares.
A eventual destituição também depende de votação no Senado. KELO-AM+1
Peña não respondeu diretamente às acusações relacionadas ao impeachment, mas defendeu a responsabilização judicial dos envolvidos nas irregularidades. “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou o presidente.
Crise bancária ameaça confiança no sistema financeiro A repercussão do caso ultrapassou os clientes do Ueno.
Na quarta-feira, usuários de outras instituições relataram dificuldades de acesso a aplicativos bancários, em um cenário de aumento das transferências e preocupação com a segurança dos depósitos. A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que as instituições trabalhavam para absorver a demanda extraordinária e afirmou que o sistema continuava “operando normalmente”.
O Banco Central também sustentou que os problemas do Ueno eram específicos da instituição e não indicavam uma crise generalizada. Peña procurou reforçar essa avaliação, afirmando que “este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”.
A instabilidade atingiu ainda o mercado de títulos, pressionando papéis de dívida emitidos pelo Ueno e títulos soberanos paraguaios. O principal desafio das autoridades agora é assegurar a recuperação dos depósitos, esclarecer a responsabilidade pelas operações investigadas e demonstrar que os mecanismos de fiscalização são capazes de impedir novos episódios semelhantes.
Enquanto isso, a crise continua produzindo consequências econômicas e políticas, com milhares de pessoas aguardando a normalização do acesso ao dinheiro e o governo enfrentando questionamentos sobre sua relação com o grupo controlador do banco.
Brasil 247