Entenda a perda de US$ 1 trilhão em valor de mercado no setor de IA

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – A corrida das grandes empresas de tecnologia pelo desenvolvimento da inteligência artificial (IA) entrou no centro das preocupações dos investidores e provocou uma onda de vendas que eliminou mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado das sete maiores companhias do setor em apenas um pregão.

Na quinta-feira (5), o Nasdaq desabou 5,52%, enquanto o S&P 500 recuou 4,36% e o Dow Jones perdeu 3,44%. O movimento refletiu as dúvidas sobre a capacidade das gigantes de transformar os investimentos bilionários em infraestrutura de IA em receitas e lucros, além das incertezas sobre futuras regras para a construção de centros de processamento de dados.

O relato foi divulgado no G1.  A queda nas ações foi registrada após a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos.

Investidores têm receio de que o resultado tenha como consequência regras mais restritivas ao setor e dificulte a expansão dos centros de processamento de dados no país. Na área econômica, os republicanos geralmente priorizam a redução de impostos, a flexibilização das normas e o estímulo à atuação do setor privado.

Já o Partido Democrata tende defender uma participação mais ampla do Estado na economia, com maior volume de investimentos públicos e políticas voltadas à proteção dos trabalhadores.  Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, as empresas integrantes do S&P 500 perderam US$ 3,317 trilhões em valor de mercado durante a sessão, montante quase quatro vezes superior à avaliação conjunta de todas as companhias listadas na bolsa brasileira, a B3.

O Nasdaq registrou sua sexta maior queda diária desde janeiro de 2020, em um movimento que também atingiu fabricantes de semicondutores e empresas diretamente envolvidas na expansão da inteligência artificial. A pressão atravessou o mercado internacional e chegou à Ásia na sexta-feira (6).

Bolsas do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan registraram perdas expressivas, enquanto o mercado sul-coreano chegou a interromper temporariamente as negociações após uma queda acentuada do principal índice local. O episódio expôs uma mudança na avaliação dos investidores.

Até então, a expansão da inteligência artificial sustentava expectativas de crescimento e valorização das empresas. Agora, o mercado cobra demonstrações concretas de retorno financeiro para justificar os recursos destinados à construção de data centers, aquisição de chips e desenvolvimento de novos sistemas.

Nvidia perde US$ 446 bilhões em valor de mercado As sete empresas conhecidas como Magnificent Seven — Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla — perderam juntas US$ 1,036 trilhão em valor de mercado na quinta-feira, de acordo com a Elos Ayta.

O montante supera os US$ 857 bilhões que representam o valor de mercado de todas as companhias negociadas na B3. Em outras palavras, as sete gigantes americanas perderam, em um único dia, o equivalente a 1,21 vez o tamanho do mercado acionário brasileiro.

A Nvidia concentrou a maior perda individual, com redução de US$ 446 bilhões em seu valor de mercado. A cifra corresponde a quase quatro vezes a avaliação da Petrobras, estimada em US$ 116,3 bilhões.

Entre outras empresas atingidas, a Tesla perdeu US$ 164 bilhões, enquanto Broadcom e Micron Technology recuaram US$ 162 bilhões e US$ 157 bilhões, respectivamente. A Microsoft registrou uma redução de US$ 147 bilhões, e a AMD perdeu US$ 139 bilhões.

O setor de semicondutores esteve entre os mais pressionados. O índice da Filadélfia, que acompanha fabricantes de chips, caiu 12,2%.

A Nvidia recuou 9,3%, enquanto a AMD registrou desvalorização de 17,3%. As perdas refletem a exposição dessas companhias aos investimentos em inteligência artificial.

Os chips e processadores que fabricam são componentes essenciais para treinar e operar sistemas avançados, além de equipar os centros de processamento de dados. Bolsas asiáticas aprofundam perdas e Coreia do Sul aciona circuit breaker

A onda de vendas iniciada nos Estados Unidos alcançou os mercados asiáticos na sexta-feira. O Nikkei, principal índice da bolsa japonesa, encerrou o pregão com baixa de 5,96%, aos 57.434,77 pontos.

Na Coreia do Sul, o Kospi terminou o dia em queda de 6,02%, aos 5.059,69 pontos. Durante as negociações, o índice chegou a recuar 8,55% e ficou abaixo dos 5 mil pontos, levando a bolsa a acionar o mecanismo de segurança conhecido como circuit breaker.

A interrupção começou às 9h03 no horário local e durou 20 minutos. O dispositivo suspende temporariamente as operações quando o mercado registra movimentos muito intensos, permitindo uma pausa nas negociações.

A desvalorização também atingiu fabricantes asiáticas de componentes eletrônicos. As ações da SK Hynix recuaram 10,4%, enquanto a Samsung Electronics perdeu 6,4%.

No Japão, a SoftBank caiu aproximadamente 11%, e a taiwanesa TSMC encerrou a sessão com baixa de 4,7%. O desempenho das bolsas refletiu a preocupação com possíveis mudanças no ritmo de expansão da infraestrutura de inteligência artificial.

Japão, Coreia do Sul e Taiwan concentram empresas fundamentais para o fornecimento mundial de semicondutores e equipamentos utilizados nos centros de dados. Entre os principais resultados do pregão asiático, o Taiex, de Taiwan, caiu 4,51%; o Straits Times, de Cingapura, recuou 2,17%; e o Hang Seng, de Hong Kong, perdeu 1,27%.

Na China continental, o índice de Xangai baixou 1,10%, enquanto o CSI 300 caiu 1,44%. Na Austrália, o S&P/ASX 200 recuou 0,49%.

Vitória democrata nos EUA aumenta incertezas sobre data centers Outro elemento que entrou no radar dos investidores foi o resultado das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3).

A vitória dos democratas ampliou as preocupações sobre a possibilidade de novas restrições à construção de centros de processamento de dados no país. Essas instalações concentram servidores e equipamentos responsáveis pelo armazenamento e processamento de grandes volumes de informações.

Elas representam uma parte fundamental da infraestrutura necessária para o funcionamento de ferramentas de inteligência artificial. A expansão dos data centers também provoca debates sobre o consumo de eletricidade e água, além dos impactos ambientais e territoriais.

Comunidades de diferentes regiões americanas questionam a instalação de empreendimentos que demandam grandes volumes desses recursos. O receio do mercado é que mudanças legislativas, restrições ao licenciamento e dificuldades para obter energia atrasem projetos e comprometam os planos de expansão das empresas de tecnologia.

Até o momento, as preocupações representam incertezas sobre decisões futuras, e não a confirmação de cancelamentos de projetos ou de novas restrições já aprovadas. Para Celso Camilo, doutor em inteligência artificial e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), o resultado eleitoral não provocou diretamente a desvalorização das ações, mas acrescentou um fator de risco a um setor que já enfrentava questionamentos.

“A eleição americana não é a causa da queda. Ela foi o gatilho.

O mercado de IA já vinha frágil”, afirma. O pesquisador aponta que uma eventual mudança nas regras para licenciamento, concessão de incentivos fiscais e construção de novas instalações pode afetar os planos das companhias.

Segundo Camilo, decisões importantes sobre esses empreendimentos também dependem dos governos estaduais, responsáveis por questões como licenciamento ambiental, fornecimento de energia e possíveis restrições locais. O professor considera que a reação mais intensa pode perder força, embora a revisão das expectativas de valorização das empresas ligadas à inteligência artificial ainda possa continuar.

Big techs elevam investimentos em IA para centenas de bilhões de dólares A dimensão dos recursos destinados à inteligência artificial ajuda a explicar a apreensão dos investidores.

Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet ampliaram conjuntamente seus investimentos em infraestrutura de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões em um ano, segundo dados da Reuters. A agência também aponta que as quatro companhias projetam outros US$ 232 bilhões em investimentos no trimestre seguinte.

Para 2026, os gastos de capital do grupo podem alcançar US$ 740 bilhões. Os recursos financiam principalmente a construção de centros de processamento de dados, a aquisição de semicondutores e a ampliação da capacidade computacional necessária para treinar e operar modelos de inteligência artificial.

No terceiro trimestre, a Amazon investiu aproximadamente US$ 75,9 bilhões, acima dos US$ 58,7 bilhões projetados pelo mercado. A Alphabet destinou mais de US$ 50 bilhões à expansão de sua infraestrutura, enquanto a Microsoft registrou investimentos de US$ 45,2 bilhões e a Meta, de US$ 35 bilhões.

A velocidade de expansão dos gastos aumentou a pressão por resultados. Os investidores querem saber quando a infraestrutura construída pelas companhias começará a gerar receitas suficientes para compensar os desembolsos.

Outro levantamento divulgado pela Reuters mostra o impacto desses investimentos sobre o caixa das empresas. Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle desembolsaram juntas US$ 556,9 bilhões nos primeiros nove meses de 2026.

No mesmo intervalo, as cinco companhias geraram US$ 542,9 bilhões com suas operações. A diferença levou o fluxo de caixa livre conjunto para um resultado negativo de US$ 14 bilhões, após um saldo positivo de US$ 143,5 bilhões nos primeiros nove meses de 2025.

O fluxo de caixa livre representa os recursos que permanecem disponíveis depois que a empresa paga suas despesas operacionais e investimentos. Quando o indicador fica negativo, significa que a geração de caixa das atividades não cobriu todos os desembolsos realizados no período.

A diferença entre o volume de recursos investidos e a capacidade de gerar dinheiro reforçou a cobrança por resultados. Os investidores querem identificar quais projetos poderão ampliar as receitas e os lucros, em vez de considerar apenas o crescimento da infraestrutura.

“O mercado continua confiante na demanda por inteligência artificial, como mostram os resultados crescentes da área de computação em nuvem. Mas os investidores passaram a cobrar mais das empresas: não basta anunciar grandes investimentos em IA, é preciso mostrar que eles estão se transformando em receita e, principalmente, em geração de caixa”, afirma Nickolas Lobo, especialista de investimentos da Nomad.

Camilo também chama a atenção para o intervalo entre os desembolsos e a obtenção de resultados financeiros. “São bilhões de dólares destinados a centros de dados, chips e infraestrutura, enquanto a capacidade de transformar tudo isso em receita ainda está sendo construída”, diz o professor.

Empresas recorrem ao mercado de dívida para financiar expansão O aumento das despesas com inteligência artificial também levou grandes companhias a buscar fontes adicionais de financiamento.

Além dos recursos gerados pelas próprias operações, empresas passaram a recorrer com maior frequência à emissão de títulos de dívida e à captação de recursos no mercado acionário. A Microsoft, por exemplo, levantou US$ 25 bilhões por meio de uma emissão de títulos.

A companhia informou que poderá utilizar os recursos em diferentes necessidades corporativas, entre elas os investimentos de capital. A ampliação do endividamento ocorre em um cenário de atenção às perspectivas para os juros.

Taxas mais elevadas aumentam o custo dos empréstimos e podem encarecer projetos que exigem grandes volumes de financiamento. A emissão de novas ações representa outra possibilidade para levantar dinheiro.

Nesse modelo, a entrada de novos investidores pode reduzir proporcionalmente a participação dos acionistas atuais que não acompanharem a operação. O movimento amplia a preocupação do mercado com a capacidade das empresas de sustentar o ritmo de expansão sem comprometer seus indicadores financeiros.

Queda das ações reacende debate sobre possível bolha da IA A desvalorização das gigantes de tecnologia também trouxe de volta a discussão sobre uma possível bolha financeira em torno da inteligência artificial.

A preocupação não está necessariamente na utilidade da tecnologia, mas nas expectativas de valorização das empresas e nos preços que os investidores aceitam pagar por lucros futuros. Para Celso Camilo, a inteligência artificial já apresenta aplicações concretas e tem capacidade de modificar diferentes atividades econômicas.

O risco, segundo ele, está na distância entre o potencial tecnológico e as avaliações financeiras de algumas companhias. “A tecnologia é real, já está sendo utilizada e tem capacidade de transformar diversos setores da economia.

O que considero exagerado são algumas expectativas de valorização”, afirma. A avaliação também considera que o crescimento do setor não garante que todas as empresas conseguirão transformar seus investimentos em resultados na mesma proporção.

Nickolas Lobo avalia que a discussão deve considerar a capacidade de geração de retorno, e não apenas o volume de recursos aplicados pelas companhias. “O vencedor da próxima etapa não será necessariamente quem investe mais, mas quem gera retorno sobre o capital investido”, afirma.

A queda nas bolsas expõe, assim, uma nova etapa da corrida pela inteligência artificial. Depois de uma fase marcada pela expansão acelerada dos investimentos, as gigantes de tecnologia enfrentam uma cobrança crescente para demonstrar que os bilhões destinados à infraestrutura podem sustentar receitas, geração de caixa e rentabilidade.

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