Inspirado nos quadrinhos da Laerte, Overman leva aos cinemas um herói que reproduz o típico estereótipo do homem cisgênero heterossexual que é autoconfiante, vaidoso e convencido da própria importância. Apesar de dar nome ao filme e ocupar o centro da narrativa, o personagem interpretado por Caco Ciocler divide a cena com mulheres que desafiam sua masculinidade e conquistam seu próprio espaço na história.
É o caso de Pâmela, a Mulher-Cachorro, vivida por Karina Ramil, e Poline Pilsen, a maior influenciadora das Américas, interpretada por Maria Lucas. Em entrevista a VEJA, as atrizes falam sobre a construção de personagens que vão na contramão de estereótipos e reivindicam autonomia em uma história protagonizada por um super-herói.
Para Karina, a relação entre Pâmela e o herói reflete a disputa por reconhecimento em ambientes nos quais homens costumam receber mais destaque, dinâmica muito conhecida fora das telas. A atriz ressalta que Pâmela não vê Overman como um concorrente.
Seu objetivo é trabalhar, demonstrar competência e conquistar espaço, enquanto o protagonista masculino parece transformar a convivência profissional em uma disputa. Continua após a publicidade
“A maior rival dela é ela mesma, porque ela quer sucesso, ela quer fazer bem o trabalho. Então, eu acho que é muito mais recalque desse homem hétero e forte, esse Overman do que a própria Pâmela rivalizando, sabe? Acho que é um reflexo óbvio da nossa sociedade.”, conta.
Já a personagem de Maria Lucas permite explorar outra dimensão da representatividade. No audiovisual, atrizes trans frequentemente são associadas a histórias centradas em identidade de gênero e transição.
Em Overman, Poline não tem sua identidade como questão central da trama e a atriz encontra no humor e no deboche possibilidades de construção que vão além dessas narrativas. Continua após a publicidade
Para Maria, interpretar uma personagem que não foi concebida especificamente para uma mulher trans representa a possibilidade de ampliar os papéis oferecidos a esses profissionais. “Eu escolho ser atriz.
Então, uma atriz pode fazer uma gama imensa de personagens e não estar necessariamente com foco no que ela é na vida.”, defende. A atriz também destaca a dimensão histórica de revisitar, em uma produção contemporânea, uma obra criada pela Laerte, artista trans de outra geração.
A experiência permite questionar convenções sobre quem ocupa o centro de uma história e como as mulheres são retratadas no cinema. Continua após a publicidade
“A gente poder também ter um protagonismo dessas personagens, uma revisitação histórica, estética, política do que é ser essa mocinha de um filme é um grande privilégio interpretar essa personagem.”, afirma. Continua após a publicidade
A discussão sobre representatividade também passa pela maneira como o longa constrói seu protagonista. Maria chama a atenção para a tradição de um humor que recorre a personagens trans como alvo de piadas e coloca homens cisgêneros, brancos e heterossexuais na posição de heróis e objetos de desejo.
Em Overman, Poline pode até ser apaixonada pelo protagonista, mas isso não significa que precise aceitar suas características ou organizar a própria vida em função dele. Continua após a publicidade
Para Maria, o deboche usado pela sua personagem permite questionar essas estruturas sem transformar pessoas trans em alvo da piada. A proposta é compartilhar o humor com o público, e não fazer rir às custas de quem historicamente foi excluído dessas representações e da sociedade.
“A gente convoca aqui outras mulheres a rirem com a gente, eu convoco outras pessoas trans a rirem comigo e eu convoco outras pessoas cis a rirem junto comigo, a não rirem de mim.”, defende. Publicidade
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