Eleições em “Israel”: mudam os nomes mas não muda a colonização

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

A cada eleição em “Israel”, reaparece a expectativa de que a substituição do primeiro-ministro abrirá caminho para a liberdade palestina. A história exige outro critério: quais estruturas de dominação serão desmontadas?

Enquanto permanecerem a ocupação, os assentamentos, a limpeza étnica e a negação da autodeterminação, a alternância continuará reorganizando o comando do Estado sionista sem superar a questão colonial. Em junho de 2021, quando Naftali Bennett substituiu Benjamin Netanyahu, escrevi que o anunciado “governo da mudança” não oferecia fundamento para esperar uma ruptura com a colonização.

Bennett defendia os assentamentos e combatia a soberania palestina. A oposição a Netanyahu reunia uma coalizão heterogênea, mas não a transformava em instrumento de emancipação de um povo ocupado.

Esse precedente orienta a leitura da disputa entre Netanyahu e Gadi Eisenkot. Existem diferenças sobre instituições, recrutamento, alianças e condução militar.

Contudo, a questão ultrapassa quem ocupa o cargo de primeiro-ministro, porque envolve a natureza do Estado sionista, os interesses que organiza e o aparato de segurança que delimita as alternativas admitidas por seus dirigentes. Netanyahu aprofundou essa realidade, mas não a criou.

Governos trabalhistas, do Likud e de diferentes coalizões participaram da expropriação territorial e da manutenção da ocupação. Sua eventual saída pode encerrar uma carreira política sem eliminar as condições históricas que permitiram sua ascensão.

Personalizar a crise oferece aos demais responsáveis a possibilidade de apresentar a continuidade como renovação. Os fracassados Acordos de Oslo, assinados em 1993, alimentaram expectativas de solução negociada.

Entretanto, a experiência palestina foi marcada pela continuidade dos assentamentos e pela fragmentação territorial. Explicar o fracasso apenas pela perda israelense de confiança na paz apaga essa desigualdade, pois enquanto se negociava, o poder ocupante continuava alterando as condições materiais da negociação.

A Segunda Intifada, a retirada dos assentamentos de Gaza e os ciclos posteriores de violência precisam ser examinados dentro dessa relação colonial. A retirada de colonos não produziu soberania palestina.

A centralidade da dissuasão e da superioridade militar consolidou uma política de administração permanente do conflito, na qual a segurança israelense se sobrepõe à liberdade do povo submetido à ocupação. Nesse quadro, a ascensão de Eisenkot exige avaliação pelo conteúdo de seu projeto.

Recompor instituições e recuperar a legitimidade internacional de “Israel” não equivale a reconhecer direitos nacionais palestinos. Conter determinados ataques de colonos ou distinguir assentamentos autorizados de postos considerados ilegais pelo próprio Estado tampouco resolve a apropriação de território ocupado.

Também é necessário reconhecer o protagonismo dos cidadãos palestinos de “Israel”. Sua participação eleitoral expressa reivindicações contra discriminação, demolições, violência e abandono.

Afastar Ben-Gvir e Smotrich pode constituir uma prioridade concreta. Seus votos pertencem a sujeitos políticos com demandas próprias.

Não representam adesão automática ao projeto dos dirigentes sionistas que procuram seu apoio parlamentar. O paradoxo permanece, no qual representantes palestinos podem ser necessários para viabilizar uma alternativa e enfrentar resistência à participação nas decisões.

Recomendar um candidato para formar governo não significa integrar sua coalizão. A dimensão externa acrescenta outra dificuldade.

Em 3 de novembro, Donald Trump anunciou que encerraria, ao final de 2026, a assistência anual a “Israel”, prevista em US$ 3,8 bilhões. Contudo, não esclareceu como anteciparia o término do compromisso vigente até 2028.

A declaração deve ser tratada como anúncio político, cuja execução permanece incerta. Trump também afirmou que manteria as vendas de armas.

O anúncio interessa pelo que revela sobre o custo político dessa sustentação. Encerrar a assistência financeira, mantendo o comércio de armamentos, não significa abandonar a aliança.

O episódio indica que qualquer governo israelense terá de enfrentar as disputas crescentes em torno do apoio estadunidense. A transformação política da sociedade israelense merece atenção, sem tratá-la como homogênea.

Existem dissidências e organizações contrárias à ocupação. Entretanto, os partidos que colocam a segurança de “Israel” e os privilégios da população judaica acima dos direitos palestinos têm força para limitar os compromissos de qualquer coalizão de governo.

A libertação palestina exige protagonismo popular, unidade política e pressão internacional capaz de impor consequências à ocupação. A saída de Netanyahu pode alterar decisões e correlações de forças, mas não absolve os demais dirigentes nem desmonta a estrutura que o sustenta.

A medida da verdadeira mudança será a liberdade conquistada pelos palestinos. Sem ela, a ascensão de Eisenkot poderá representar apenas outra etapa da administração colonial e da Nakba contínua.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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