Darth Vader. Odete Roitman.
Cara de Cavalo. Freddy Krueger.
Zé Pequeno. Carminha.
Fernandinho Beira-Mar. Para alguns desavisados, é só uma lista de bandidos e vilões, mas para o eleitor fluminense são possíveis políticos.
Então, merecem voto. Tivemos vários deles presos, cassados, processados.
Mesmo assim, o eleitor fluminense continua fiel a seu otimismo delirante: quem sabe se a gente continuar votando nos mesmos eles não mudam? Já vi gente trocar de ideia, de sexo, de religião, até de time, mas não conheço nenhum ex-malfeitor ou ex-trapaceiro. Vai ver que sou um eleitor sem noção.
Vai ver a maioria dos eleitores fluminenses sabe algo que eu não sei. Um mistério.
Enquanto isso, a milícia e o tráfico continuam a se espalhar pelo Rio de Janeiro. Vão tomando conta das ruas, dividindo territórios e poder.
O eleitor fluminense, um ingênuo crônico, não vê nenhuma relação entre os políticos que elege e o avanço do crime. “A violência deve ser culpa do El Niño”, imagina.
Na semana passada, o fenômeno se repetiu pela milésima vez. Não param de chegar políticos investigados, acusados e envolvidos com todo tipo de malfeito.
A política fluminense convive com vários personagens que não fariam feio em filmes de super-heróis, ainda que no papel de malvados. Não entendo por que a DC e a Marvel não recrutam seu elenco por aqui.
Seria um sucesso mundial. Quem sabe um miliciano famoso no lugar do Lex Luthor ou do Coringa? Ou um traficante célebre no lugar do Thanos?
Acho que encontrei a solução do mistério: o eleitor fluminense é, na verdade, um gênio, um visionário, um profeta. Ele descobriu a verdadeira vocação do Rio de Janeiro: nada de petróleo, turismo ou audiovisual.
Nosso destino é outro. Na Califórnia tem o Vale do Silício, que é uma referência mundial em tecnologia e inovação digital.
Pois o Rio de Janeiro não vai ficar atrás: empurrado pelos seus fiéis eleitores, inspirados em memes e posts da internet, nasce aqui o Vale do Milício, um polo de startups especializadas em serviços e produtos que ninguém pode recusar. As máfias não têm a ginga, os paramilitares não possuem a malemolência.
Só a milícia do Rio junta toda a malandragem necessária para dominar o Brasil — já está quase lá — e o mundo. Vai ter gatonet em Paris, vai ter bujão superfaturado em Nova York, vai ter taxa de segurança em Pequim.
Devo acrescentar que a milícia local é, na verdade, um combo, que inclui o tráfico como brinde. No começo eles se estranhavam, mas depois se deram conta de que trabalhando juntos conseguiam chegar mais longe.
É a tal da sinergia. O eleitor que foi às urnas no ultimo dia 4 percebeu que o Vale do Milício é a salvação do Rio e fez a sua escolha, sem medo de ser feliz — ou de levar um tiro.
Só espero que a lista do início desta coluna tenha paciência e saiba esperar a sua vez. Darth Vader e Odete já estão em Rio das Pedras se enturmando.
O Globo