Marca Ambiental transforma 485 mil toneladas de resíduos por ano em matéria-prima e soluções sustentáveis

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Fonte da notícia: A Gazeta A Gazeta

O que antes era considerado lixo pode voltar à cadeia produtiva como matéria-prima, insumo industrial, combustível renovável ou fonte de energia. Essa é uma das propostas da economia circular, modelo que busca aproveitar os materiais pelo maior tempo possível e reduzir a necessidade de extração de novos recursos naturais e que, no Espírito Santo, é aplicado no Parque de Ecoindústrias da Marca Ambiental.

Lá, são realizadas operações voltadas à valorização de diferentes tipos de resíduos e, em 2025, o Parque valorizou 485 mil toneladas de resíduos, volume equivalente a cerca de 1.300 toneladas por dia. Em 2024, foram mais de 346 mil toneladas valorizadas e, ao todo, 14 empresas estão instaladas no local.

Para Gabriela Bortoletto, gerente comercial da Marca Ambiental, a economia circular propõe uma mudança na forma de produzir e consumir, começando antes mesmo de um produto se tornar resíduo. “O modelo tradicional de produção e consumo segue uma lógica linear que é extrair recursos naturais, transformá-los em produtos, consumi-los e descartá-los.

Esse modelo parte da premissa de que os recursos são ilimitados e trata os resíduos como o fim do processo produtivo”, explica. Ela acrescenta que a economia circular busca preservar o valor dos materiais e reduzir a necessidade de novas matérias-primas: “Mais do que reciclar, a economia circular busca transformar a forma como produzimos e consumimos, convertendo resíduos em valor econômico, ambiental e social”.

Diferentemente do modelo linear, baseado na extração de recursos naturais, na fabricação de produtos, no consumo e no descarte, a economia circular busca manter materiais em uso e preservar seu valor, incentivando a reutilização e ampliação da reciclagem. No Parque de Ecoindústrias, diferentes processos permitem direcionar os resíduos para novas aplicações.

Materiais provenientes da construção civil e da demolição, por exemplo, podem ser beneficiados e transformados em agregados reciclados utilizados em obras de infraestrutura e pavimentação. Já os resíduos orgânicos podem passar por compostagem e dar origem a composto utilizado na recuperação de solos e em atividades agrícolas.

Há também operações voltadas ao processamento de plásticos, vidro, pneus inservíveis, resíduos siderúrgicos, eletrônicos e óleo de fritura pós-consumo. Dependendo das características do material e do processo empregado, esses resíduos podem ser transformados em insumos para outras atividades industriais ou comerciais.

Gabriela afirma que a integração entre diferentes soluções é um dos pontos centrais desse modelo: “O diferencial do parque está nessa conexão entre atividades. Um resíduo não precisa representar o fim de um processo e, dependendo de suas características, pode se tornar matéria-prima, insumo ou fonte de energia para outro negócio”, completa.

Nesse cenário, Gabriela defende que um dos desafios para ampliar esse modelo é mudar a forma como as organizações enxergam os resíduos, visto que a escolha da destinação baseada apenas no custo imediato pode deixar de considerar o potencial de reaproveitamento dos materiais. “Muitas empresas ainda escolhem a destinação com base no menor custo imediato, sem considerar o valor que o resíduo pode gerar quando é reinserido na cadeia produtiva.

Para avançar, o resíduo precisa deixar de ser tratado apenas como um passivo operacional e passar a integrar a estratégia do negócio”, pontua. A separação correta na origem também é importante, já que a mistura ou a contaminação de resíduos pode reduzir seu valor e inviabilizar algumas alternativas de recuperação.

Uma gestão eficiente exige inventário dos resíduos gerados, classificação, armazenamento adequado e separação na fonte e, quanto melhor for essa etapa, maiores serão as possibilidades de valorização dos resíduos. Também há desafios relacionados à existência de mercado para os materiais recuperados.

Para que os produtos reciclados ganhem escala, é necessário haver demanda contínua, padrões de qualidade, normas técnicas e confiança dos compradores. A questão tributária também pode influenciar a competitividade, já que, em determinadas situações, produtos reciclados disputam mercado em desvantagem em relação às matérias-primas virgens.

A gestora ainda destaca que a economia capixaba tem forte presença em setores como siderurgia, mineração, rochas ornamentais, agronegócio e logística, que geram grandes volumes de resíduos com potencial de recuperação - o que representa uma boa oportunidade. “A integração entre essas cadeias pode criar novas oportunidades de simbiose industrial, nas quais o resíduo de uma atividade se torna matéria-prima ou insumo para outra.

Portanto, ampliar a economia circular exige uma combinação de mudança cultural nas empresas, qualificação técnica, desenvolvimento de mercados, segurança regulatória e políticas públicas capazes de estimular investimentos”, complementa.  Para as empresas, a valorização de resíduos pode reduzir custos com a compra de insumos e a destinação de materiais, além de diminuir riscos ambientais e jurídicos.

A prática também pode fortalecer indicadores ESG, cada vez mais considerados no acesso a crédito, na atração de investidores e na seleção de fornecedores. Gabriela também afirma que a economia circular abre espaço para novos mercados e modelos de negócio, com soluções que movimentam uma cadeia de atividades que envolve tecnologia, infraestrutura, mão de obra especializada e novas relações comerciais entre empresas de diferentes setores.

Um exemplo é a produção de biometano, combustível renovável com potencial para substituir o gás natural de origem fóssil e o diesel em determinadas aplicações. A usina da Marca Ambiental será a primeira do tipo no Espírito Santo e prevê a injeção do combustível diretamente na rede da ES Gás, conectando o aproveitamento de resíduos à oferta de uma alternativa renovável aos combustíveis fósseis.

Outro campo de oportunidades é o mercado de carbono. A Marca Ambiental registrou, em 2004, o primeiro projeto de créditos de carbono do Espírito Santo e o terceiro do Brasil.

Atualmente, o Parque de Ecoindústrias conta com uma empresa especializada no segmento, que auxilia clientes na mensuração das emissões de gases de efeito estufa e na elaboração de estratégias de redução e compensação. “A economia circular, portanto, não é apenas uma agenda ambiental.

Ela é também uma estratégia de competitividade e desenvolvimento regional. Ao transformar resíduos em insumos, energia e novos serviços, cria empregos, fortalece cadeias produtivas, atrai inovação e amplia a capacidade das empresas responderem às exigências de um mercado cada vez mais orientado pela eficiência no uso de recursos e pela redução de emissões”, finaliza.

A economia circular também abre caminho para soluções que conectam o aproveitamento de resíduos à transição energética e à redução de emissões. No próximo conteúdo da série especial da Marca Ambiental, o foco será a ampliação da frota da empresa e a implantação de uma estrutura própria de abastecimento com GNV e biometano, iniciativa pioneira no Espírito Santo que pode servir de referência para outras operações de transporte no Estado. 

Publicação Original A Gazeta agazeta.com.br
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