Eleições nos EUA: Homens jovens se afastam de Trump, mas isso não é necessariamente uma boa notícia para os democratas

Eleições nos EUA: Homens jovens se afastam de Trump, mas isso não é necessariamente uma boa notícia para os democratas - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Pouco mais da metade dos homens jovens votou no presidente Donald Trump na eleição presidencial americana de 2024, provocando um debate político sobre o que impulsionou essa guinada à direita. Agora, sete em cada dez homens com idades entre 18 e 29 anos desaprovam o desempenho de Trump no cargo, de acordo com uma análise das três últimas pesquisas nacionais realizadas pelo New York Times em parceria com a Universidade de Siena.

Há dois anos, antes e depois da eleição, a equipe do jornal entrevistou vários jovens que apoiavam Trump. Para descobrir o que mudou, voltamos a entrar em contato com alguns deles.

Todos tinham críticas ao governo Trump, especialmente em relação aos preços e à guerra contra o Irã. Mas, embora alguns tenham dito que gostariam de poder voltar atrás no voto, isso não significa necessariamente que pretendam apoiar os democratas nas eleições de meio de mandato.

Vários afirmaram que apoiariam os candidatos republicanos de seus estados — não responsabilizam esses políticos pelas decisões de Trump e não foram convencidos pelas propostas dos democratas. Outros não pretendem votar ou ainda não pensaram muito sobre o assunto.

Matthew Michels, de 26 anos, engenheiro de Grand Rapids, no Michigan, não pretende votar, em protesto contra o governo Trump e porque, segundo ele, “não vi resistência suficiente de parte dos republicanos tradicionais a algumas das coisas que Trump vem fazendo”. Ele reconhece que a política de endurecimento contra a imigração abriu mais oportunidades de emprego em sua área.

Mas está incomodado com a “postura arrogante e irresponsável” com que, segundo ele, Trump conduz a política externa. Michels está “profundamente decepcionado” com a guerra no Irã e preocupado com a alta dos preços da gasolina.

— Se pudesse voltar atrás, não votaria nele novamente — afirma. Ranger Irwin, de 22 anos, que trabalha em uma loja de pneus em North Las Vegas, Nevada, disse que sente que Trump não cumpriu suas promessas.

— Ele realmente disse que seria contra guerras, e agora estamos novamente em uma guerra no Oriente Médio — afirma Irwin. — O preço de tudo subiu; a gasolina está ficando absurda de novo.

Ainda assim, ele disse que votaria da mesma maneira se pudesse voltar atrás e que pretende apoiar os candidatos republicanos ao Congresso e ao governo de Nevada. Um número maior de jovens homens, no entanto, também estendeu sua desaprovação a Trump ao próprio Partido Republicano.

Eles preferem o candidato democrata à Câmara dos Representantes em seus respectivos distritos por uma margem de 13 pontos percentuais, segundo as pesquisas Times/Siena. Quarenta e oito por cento se identificam como democratas ou demonstram inclinação pelo partido, em comparação com 42% que se identificam com os republicanos ou se aproximam deles.

A análise, que incluiu quase 500 homens entre 18 e 29 anos, é amplamente consistente com outras pesquisas que mostram jovens homens se afastando de Trump. Ainda assim, isso não significa que eles comparecerão às urnas, afirmou Charlie Sabgir, diretor do Young Men Research Project, organização de pesquisa com orientação progressista.

— Nas eleições de meio de mandato, os eleitores com maior propensão a votar acabam tendo mais influência, e os homens jovens são justamente o oposto disso — analisa. Muito se discutiu sobre a possibilidade de que o apoio dos homens jovens à campanha de Trump, marcada por uma imagem de masculinidade e força, representasse uma mudança cultural: uma geração de homens sob a influência da chamada manosfera, rejeitando a ampliação dos papéis de gênero na sociedade.

Mas diversas pesquisas demonstraram que votar em Trump não significava necessariamente abraçar a ideia de domínio masculino ou desejar reverter os direitos conquistados pelas mulheres. Na verdade, esse era um grupo que se sentia desvalorizado e sem rumo.

Homens jovens vêm dizendo a nós e a pesquisadores que o caminho para a vida adulta com o qual contavam — conseguir um bom emprego, comprar uma casa e sustentar uma família — já não estava mais ao seu alcance. Trump prometeu ajudá-los.

— Acho que muitas pessoas interpretaram mal os resultados de 2024, entendendo que os homens jovens estavam se tornando repentinamente mais conservadores e que estavam cansados da política identitária progressista — afirmou Melissa Deckman, cientista política e diretora-executiva do Public Religion Research Institute, organização apartidária de pesquisa.

— Mas uma questão fundamental era a economia. Nas pesquisas Times/Siena, 90% dos homens jovens disseram que a situação da economia era ruim ou, no máximo, razoável.

Em uma nova pesquisa realizada pela Third Way e pelo American Institute for Boys and Men, a maioria dos homens entre 18 e 29 anos afirmou que objetivos econômicos de longo prazo estavam fora de seu alcance. Entre eles estavam conseguir um emprego bem remunerado, sustentar uma família, pagar despesas médicas, quitar dívidas, comprar uma casa e economizar para a aposentadoria.

Logan Fischer, de 23 anos, conseguiu um novo emprego como técnico de engenharia em Kansas City, no Missouri, desde nossa última conversa. Ele atribuiu ao governo Trump a melhoria das oportunidades de trabalho.

Mesmo assim, continua achando que seu “objetivo de vida”, comprar uma casa para criar uma família, está fora de alcance. — Muitas pessoas mais velhas dizem: "Faça faculdade, consiga um diploma e depois você poderá encontrar uma esposa, construir ou comprar uma casa e viver feliz para sempre” — conta Fischer.

— É como se eu estivesse ganhando um bom dinheiro agora, mas não o suficiente para construir uma casa. Dez anos atrás, esse mesmo salário seria suficiente.

Malachi Bohlmann, de 25 anos, professor do ensino médio em Phoenix, votou em Trump, em parte, pela força que acreditava que ele demonstraria no controle das fronteiras e na política externa. Mas está insatisfeito com as táticas do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE) e com a guerra contra o Irã.

— Quando eu estava no serviço militar, conversávamos sobre a capacidade de estar preparados para atacar a qualquer momento, a fim de defender nosso povo a qualquer custo — diz Bohlmann, veterano da Força Aérea. — Não gosto que os Estados Unidos ataquem primeiro.

Ele disse que votaria na terça-feira, mas ainda não havia tomado uma decisão definitiva sobre os candidatos. Mesmo com o afastamento de alguns homens jovens de Trump, isso não significa necessariamente que eles enxerguem um lugar para si no Partido Democrata.

Embora os jovens em geral estejam se deslocando para a esquerda nesta eleição, as mulheres jovens continuam muito mais alinhadas aos democratas do que os homens jovens. Três quartos delas se identificam como democratas ou demonstram inclinação pelo partido, segundo as três pesquisas Times/Siena — uma diferença de 27 pontos percentuais em relação aos homens jovens.

Embora os jovens homens “possam se sentir atraídos por uma agenda econômica mais alinhada aos democratas, eles têm dúvidas sobre se seriam bem recebidos e desejados dentro da coalizão democrata”, afirmou Daniel Cox, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, um centro de estudos de orientação conservadora, e autor do livro "Generation Uncoupled: America’s New Gender Divide and the Crisis of Human Connection" (Geração Desconectada: a Nova Divisão de Gênero nos Estados Unidos e a Crise da Conexão Humana, em tradução livre).

— Acho que ainda existe uma hesitação persistente na esquerda em defender de maneira enfática os interesses dos jovens homens — explica. Fischer, o técnico de engenharia de Kansas City, expressou uma opinião semelhante.

— Tenho a impressão de que um dos principais temas dos democratas em todas as eleições é a defesa das minorias e dos imigrantes — afirma. — Sinto que a estratégia deles é atingir esse grupo específico e conquistar todos os seus votos.

Embora esteja irritado com a guerra no Irã, ele ainda acredita que votar em Trump foi a decisão certa, em parte porque a alternativa era Kamala Harris e “toda vez que eu a via, ela estava falando sobre aborto”. Ele afirmou que provavelmente não votará nesta semana.

Enquanto os dois partidos se preparam para 2028, a guinada dos homens jovens tanto à direita quanto à esquerda não deve ser interpretada como um desejo por um candidato de centro, afirmou Sabgir, do Young Men Research Project. Segundo ele, o que realmente repercute entre muitos desses jovens é a desconfiança em relação às instituições e aos políticos profissionais, além da crença de que o sistema precisa ser derrubado e reconstruído.

Nas entrevistas com jovens homens que votaram em Trump, muitos disseram que gostariam de um candidato como Bernie Sanders — que também responsabiliza as elites políticas e econômicas por colocar as pessoas comuns em desvantagem. — É algo mais próximo da abordagem de Joe Rogan: ser bastante populista na economia e considerar a assistência médica gratuita algo positivo — explica Sabgir.

— Mas também ter aversão aos excessos da cultura progressista identitária, que os jovens homens frequentemente associam ao Partido Democrata.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →