Provavelmente você conhece alguém que toma vacina e não sente nada e alguém que sente dor de cabeça e não consegue levantar o braço por dias. Pode parecer paradoxal, mas a verdade é que esses dois extremos são perfeitamente possíveis e agora um novo estudo publicado na revista científica Science Translational Medicine parece ter descoberto fatores no sistema imunológico humano que tornam a ocorrência desses efeitos colaterais mais provável. Entenda: Mulher tem ausência quase total de gordura aparente causada por doença rara Novo levantamento: Cai o diagnóstico de ansiedade e depressão entre os médicos no Brasil De acordo com informações do site especializado IFL Science, já haviam sido observados alguns padrões em relação a quem apresenta esses sintomas; por exemplo, idosos tendem a sofrer menos com esses efeitos temporários. Há também pesquisas sugerindo que o efeito nocebo — o oposto do efeito placebo, em que a crença de que algo causará efeitos negativos faz com que esses efeitos sejam mais intensos ou mais prováveis de ocorrer — pode explicar alguns efeitos colaterais das vacinas. Mas, pelo menos em alguns casos, há definitivamente algo de natureza biológica acontecendo. "Embora saibamos que pessoas mais velhas tendem a apresentar menos reações à vacinação devido ao declínio da função imunológica associado à idade, e que a dose da vacina pode influenciar a gravidade dos efeitos colaterais, os mecanismos biológicos subjacentes a essas diferenças individuais nos sintomas ainda não são bem compreendidos", afirma o autor sênior Arnaud Didierlaurent, professor associado da Universidade de Genebra, em comunicado.
Como o potencial de uma reação é uma das razões pelas quais algumas pessoas podem hesitar em tomar a vacina, os pesquisadores tentaram entender melhor os mecanismos biológicos subjacentes a essas diferenças individuais. A equipe iniciou a pesquisa em 2021, concentrando-se nas vacinas de mRNA contra a Covid-19 e estudando 51 pessoas, anteriormente saudáveis, que receberam a Spikevax (da Moderna) ou a Comirnaty (da Pfizer-BioNTech). Os participantes foram monitorados por sete dias para identificar quaisquer reações à vacina que apresentassem. Essas reações incluíam dor no local da injeção, febre, dores musculares e fadiga. Os resultados mostraram que esses efeitos tendiam a ser mais frequentes após a segunda dose da vacina, como já havia sido observado anteriormente. Exames de sangue também revelaram uma ligação entre as reações à vacina e um sistema de defesa antiviral do sistema imunológico inato chamado interferon. Os interferons são substâncias produzidas naturalmente pelo organismo em resposta a doenças, influenciando a resposta do sistema imunológico. Existem três tipos principais: alfa, beta e gama. Eles fazem parte de uma família maior de proteínas chamadas citocinas. Níveis mais elevados de interferons já foram associados à Covid longa e a outras condições autoimunes, pois contribuem para um ambiente geralmente inflamatório no corpo. Quando se tenta combater um vírus, isso é exatamente o que se deseja, mas o excesso de algo bom pode ser prejudicial. "Esse sistema de defesa imunológica inata nos ajuda, em particular, a combater infecções virais. Quanto mais ativa for a resposta natural de interferon de uma pessoa — mesmo antes da vacinação —, mais pronunciadas tendem a ser as suas reações à vacina", afirma a autora principal, Natacha Madelon. "Por razões que ainda não compreendemos totalmente — mas que podem estar ligadas a fatores genéticos, a um microbioma específico ou a um episódio inflamatório anterior —, alguns indivíduos apresentam uma assinatura imunológica relacionada ao interferon mais forte antes de receberem a vacina", acrescenta Didierlaurent. "Isso parece influenciar a intensidade da reação à vacinação." Outro mecanismo interessante surgiu de experimentos separados com camundongos. O objetivo principal de uma vacina é estimular o sistema imunológico a montar uma defesa específica contra um vírus.
Para isso, a maioria das vacinas contém um ingrediente fundamental chamado antígeno, o qual alerta o sistema imunológico para ficar atento ao vírus real. No caso das vacinas de mRNA, o processo é um pouco mais complexo pois, em vez de conterem um antígeno, essas vacinas trazem um "projeto" que permite às suas células produzirem o seu próprio antígeno. Assim, o processo é um pouco diferente, mas o resultado final é o mesmo. No entanto, segundo as descobertas da equipe, o próprio fato de as vacinas promoverem essa resposta imune adaptativa significa que uma reação mais intensa — e efeitos colaterais mais fortes — é mais provável após a segunda dose. Em seu modelo com camundongos, os pesquisadores observaram que glóbulos brancos chamados monócitos eram ativados e recrutados com mais força para o local da vacinação após a segunda dose, provocando uma inflamação que poderia se manifestar por meio de sintomas como vermelhidão e dor. A equipe ressaltou que esse mecanismo precisará ser validado em estudos com humanos antes que se saiba com certeza se ele é um fator relevante. Vale destacar também que, para algumas vacinas, múltiplas doses são essenciais para desenvolver imunidade suficiente para realmente proteger contra a doença. Os pesquisadores ressaltam que a ausência de efeitos adversos não significa que a vacina não funcionou.
"De qualquer forma, uma reação leve, ou mesmo a ausência de sintomas após a vacinação, não significa de forma alguma que a vacina seja ineficaz", afirmou ele. "Portanto, a intensidade dos efeitos colaterais não é, por si só, um indicador da eficácia da vacina", ressalta Didierlaurent.
O Globo