Segundo as pesquisas, uma coisa já está definida na eleição de hoje: o Partido Democrata vai ganhar a maioria na Câmara dos Representantes, como os americanos chamam os deputados. E com essa vitória se abrirá o caminho para o deputado Hakeem Jeffries se tornar o primeiro negro a presidir a Casa, uma trajetória que inevitavelmente o colocará em colisão com Donald Trump.
Não faltam atritos vindos dos dois lados. Jeffries foi o “gerente” do primeiro impeachment de Trump, uma atribuição que o colocou em coordenação com os advogados mobilizados para a acusação fraca, de abuso de poder por ter supostamente exigido do presidente ucraniano detonar Joe Biden para ajuda em sua campanha – fracassada – pela reeleição.
O processo de impeachment não deu certo porque os republicanos tinham a maioria no Senado – uma situação que pode mudar hoje, mas não altera a exigência de maioria de dois terços para afastar um presidente eleito. Mesmo assim, Jeffries adquiriu uma ampla experiência em investigar o presidente, o que pode replicar em comissões de inquérito que infernizarão a vida de Trump.
O presidente já usou um insulto habitual contra Jeffries, dizendo que tem “QI baixo”. Num meme mais divertido, colocou Jeffries e Chuck Schumer, o atual líder da minoria democrata no Senado, de chapelão e bigodão, ao som de uma banda mexicana – uma maneira de dizer que os dois apoiavam a imigração vinda do sul da fronteira.
Em vez de deixar passar a piada, Jeffries reclamou em múltiplas entrevistas. “Não se responde a essas coisas”, aconselhou a “meu amigo Hakeem” o presidente da Câmara, Mike Johnson.
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Jeffries não seguiu o conselho. Como ele pode se tornar o substituto de Johnson, ganhará um espaço tremendo para devolver as provocações de Trump.
Todo mundo chamará de histórica sua ascensão a “speaker”, ou presidente da Câmara, o que não deixa de ser verdade. Mas interessa mesmo como ele coordenará um partido hoje cheio de facções a um passo da dissidência e encarnará o antagonista de Trump de forma convincente, além das declarações dramáticas, mas sem efeitos práticos.
Jeffries tem antepassados africanos que foram escravizados e um bisavô, Manuel Gomes, que emigrou de Cabo Verde, tendo sido enterrado com uma lápide escrita em português. De algum lugar desse passado vieram os olhos esverdeados do deputado.
Apesar do nome árabe, o nova-iorquino do Brooklyn é fiel da Igreja Batista. Politicamente, poderia ser qualificado de centro-esquerda.
Tem um estilo mais cerebral, embora com bom conhecimento dos meandros da política. “Pensa como um jogador de xadrez, sempre quatro ou cinco jogadas adiante”, definiu o ex-governador de Nova York David Paterson.
Continua após a publicidade Todos os democratas passaram a campanha concentrados disciplinadamente no maior ponto fraco do governo: o custo de vida, uma reclamação unânime.
Sobre isso, há pouco para a Câmara fazer. Tem mais espaço em outras áreas, assim explicitadas: “Temos que acabar com as tarifas de Trump, que custam milhares de dólares por ano aos americanos comuns, e temos que dar fim a essa cara e irresponsável guerra opcional”.
É um bocado de trabalho, mas Hakeem Jeffries, aos 56 anos, está numa posição em que ganhará enorme projeção para fazer exatamente isso: oposição cerrada ao presidente. Nos Estados Unidos, não existe o sistema pelo qual um partido oposicionista ganha a eleição legislativa e imediatamente começa a negociar ministérios com o governo.
Vamos ver uma briga boa. Publicidade
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