O diretor-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Antônio Britto, comparou o comportamento do setor de saúde suplementar a jogadores de rouba-montes. “Operadoras retêm valores devidos aos hospitais, os hospitais atrasam pagamentos aos fornecedores e as empresas compradoras reclamam dos custos dos planos”, disse ao JOTA. O fenômeno, avalia, fragiliza o setor, que já vive sob pressão. Na entrevista, concedida às vésperas do Congresso Anual da Anahp, realizando na última quarta-feira (14/10), Britto fala sobre a necessidade de se buscar um consenso. Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas Confira os principais trechos: Em uma das mesas do Congresso, vocês fazem referência a uma pressão extrema do sistema de saúde. A que vocês se referem? Nos últimos anos, o CONAHP destacou-se por trazer ideias novas para o setor. Várias dessas propostas obtêm apoio unânime, como a relevância da prevenção, o uso de dados, a interoperabilidade e a integração público-privada. Esses temas têm apoio de todos, mas não avançam. Isso decorre da fragilidade do setor privado. O que o senhor chama de fragilidade? A falta de capacidade de atuar como setor, que passou a atuar de forma pulverizada, por segmentos — hospitais, operadoras —, em vez de agir como um setor unificado. A gente não está discutindo o que tem a ser feito. E, aí, vem a resposta à pergunta. A pressão sobre o sistema decorre do envelhecimento da população, que ocorre com perda de qualidade de vida e elevado impacto de doenças crônicas. Vivemos uma crise fiscal na saúde, onde grande parte das pessoas já nem defende aumento de recursos, mas que não haja corte. Na saúde suplementar, há uma disputa interna, porque o sistema não consegue cobrar o suficiente para arcar com as demandas dos beneficiários, gerando judicialização. Na ausência de recursos suficientes, estabeleceu-se um “jogo de rouba-monte”, onde as operadoras retêm valores devidos aos hospitais, os hospitais atrasam pagamentos aos fornecedores e as empresas compradoras reclamam dos custos dos planos. Com relação ao “rouba-monte”: se houvesse uma regulamentação mais precisa, esse problema não seria resolvido? Consideramos um absurdo que o setor privado, por falta de entendimento interno, precise recorrer ao governo para intermediar essas questões. O caminho adequado é a reconstrução das relações de confiança entre operadoras e hospitais. Por que essa confiança foi abalada? Pela escassez de recursos — “onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Logo após a pandemia, as operadoras enfrentaram restrições financeiras severas e o setor hospitalar compreendeu o momento de crise. Mas o pão ainda falta? Com a recuperação dos recursos e a retomada da normalidade, surge o momento ideal para restabelecer esses laços de confiança e retomar o diálogo. O sistema permanece com o mesmo percentual de cobertura de 13 anos atrás, limitado a 25% da população (53 milhões de pessoas), enfrentando dificuldades na contratação de planos corporativos — que representam 70% do mercado — e sem soluções para o mercado individual. Este é o momento propício para discutir o avanço da cobertura para patamares de 27% a 30%, superando o ciclo de estagnação. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email Quem não quer diálogo e qual a justificativa? As relações internas foram tensionadas no período crítico, mas já se observa o movimento de alguns segmentos em busca de restabelecer pontes. A necessidade de atuação perante o novo Congresso exigirá que o setor faça seu dever de casa, evitando apresentar-se de forma fragmentada. Esse processo não pode prescindir da representação do governo e da presidência da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Contudo, a iniciativa precisa partir de uma repactuação interna. A Anahp tem convicção de que a reforma é indispensável, mas que não será viabilizada por meio do confronto. Tratando-se de uma matéria sensível, o avanço depende estritamente de negociação. Nesta eleição foram escolhidos parlamentares de direita. Uma eventual discussão da Lei de Planos de Saúde agora pode representar uma perda de direito para os clientes? É necessária cautela com a premissa de que um Congresso mais conservador deixará de atentar para as demandas populares. Tenho dúvidas se a nova composição parlamentar aprovará automaticamente medidas tidas como favoráveis unicamente ao setor de saúde suplementar, como a retirada de limites para reajustes. Os parlamentares dependem do voto e, no momento da votação, consideram a reação do eleitorado. A aprovação de uma reforma indispensável na saúde suplementar exige, obrigatoriamente, uma construção política realizada inicialmente dentro do próprio setor para, em seguida, ser apresentada ao Congresso, independentemente de quem ocupe a Presidência da República.
Diretor-executivo da Anahp: saúde suplementar perde ao atuar de forma pulverizada
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