Os resultados das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos foram recebidos com satisfação em muitos países, como um sinal de que Donald Trump enfrentará limitações ao seu poder, sobretudo em relação ao Irã. Autoridades estrangeiras, porém, alertaram que o presidente americano, enfraquecido, ainda pode causar mais instabilidade nos dois últimos anos de seu mandato.
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“Nos assuntos internacionais, ele continua no comando”, disse o ministro das Finanças da França, Roland Lescure, à rádio RMC na quarta-feira, após a divulgação das projeções da imprensa americana sobre as eleições. “Vocês sabem como o presidente dos Estados Unidos pode ser imprevisível.”
O Partido Republicano de Trump perdeu o controle da Câmara dos Deputados e do Senado em uma eleição histórica de meio de mandato, dominada pelos mesmos preços exorbitantes da energia que estão estourando orçamentos e alimentando a agitação social ao redor do mundo. Trump aceitou a derrota e reconheceu, em entrevista à Fox News, que pelo menos “parte disso se deveu ao Irã”.
Em outra entrevista, ao Financial Times, afirmou que não tinha planos imediatos de intensificar o confronto com Teerã. Ainda assim, aliados dos EUA, que foram repetidamente pegos de surpresa por Trump na última década, alertaram que o presidente mantém a capacidade de surpreender em questões de política externa, nas quais o Congresso exerce influência limitada.
Há semanas, algumas autoridades europeias vêm manifestando, em conversas reservadas, preocupação com a possibilidade de Trump intensificar o conflito com o Irã após as eleições. “Ou ele decide se colocar acima das disputas e reconhece que as coisas precisam mudar”, acrescentou Lescure, “ou não.
Francamente, teremos de acompanhar isso de perto nos próximos dias.” Uma autoridade de alto escalão alertou seus colegas da União Europeia (UE) para que não presumam que o resultado levará a uma melhora significativa nas relações transatlânticas e afirmou que devem continuar os esforços para reduzir a dependência do bloco em relação a Washington.
Trump ainda tem dois meses até que o controle do Congresso mude oficialmente de mãos e os democratas passem a ter poder para aprovar leis, bloquear recursos e levar adiante resoluções que restrinjam sua capacidade de conduzir guerras. As ações de Trump em relação ao Irã nas próximas semanas poderão dar o sinal mais claro de como ele lidará com esse desafio.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, comemorou o resultado das eleições em uma publicação no X, afirmando que os americanos disseram “NÃO À GUERRA” por uma questão de “consciência ou de custo de vida”. O resultado também fortalecerá aqueles que defendem mais apoio à Ucrânia durante o que se prevê ser mais um inverno difícil sob os bombardeios da Rússia.
O presidente, contudo, continuará tendo amplo controle sobre a política externa americana. O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, disse à agência estatal de notícias RIA que o país não mudará sua postura em relação à Ucrânia, apesar da política dos democratas para Moscou, que ele classificou como “extremamente negativa”.
Embora o presidente mantenha ampla margem de manobra para impor tarifas, as derrotas republicanas nos Estados mais afetados pelas guerras comerciais podem limitar sua capacidade de intensificar os conflitos com o Canadá e a Europa. Por outro lado, Trump pode enfrentar restrições a qualquer nova abertura à China, já que há apoio dos dois partidos no Congresso para uma postura dura em relação a Pequim.
Ele também poderá se ver pressionado por investigações sobre integrantes de seu governo. “O restante do mandato do presidente Trump será marcado por processos de impeachment, vetos e certa paralisia”, disse o primeiro-ministro da República Tcheca, Andrej Babiš, a jornalistas.
“Por outro lado, é claro, Trump simplesmente fará o que quiser. Esperemos que ele retome sua promessa de acabar com a guerra na Ucrânia e ponha fim ao conflito no Estreito de Ormuz.”
Algumas autoridades europeias de esquerda disseram esperar que as eleições americanas de meio de mandato, realizadas após resultados semelhantes na Hungria, na Sérvia e no Brasil, levem a uma revisão das expectativas de avanço da extrema direita em países como a França no próximo ano.
Segundo autoridades britânicas, o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, acredita que o resultado pode sinalizar o começo do fim do movimento global de extrema direita. Ainda assim, essas autoridades alertaram que a relação dos EUA com seus aliados foi alterada de forma permanente pelas ações de Trump em seu segundo mandato, incluindo novos gestos de aproximação com o presidente russo, Vladimir Putin.
Trump sinalizou apoio a partidos de extrema direita na Europa, ameaçou tomar a Groenlândia da Dinamarca e pegou seus parceiros de surpresa com uma operação militar bem-sucedida para depor o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Bilahari Kausikan, ex-secretário permanente de Relações Exteriores de Singapura, minimizou o impacto das eleições sobre Trump, citando a reação do presidente à perda do controle da Câmara dos Deputados durante seu primeiro mandato.
Mesmo após os avanços de terça-feira, os democratas não terão os votos necessários para derrubar um veto presidencial, poder que Trump já sinalizou estar disposto a usar. “Espero disputas mais ruidosas do que o habitual em torno da aprovação do orçamento e dos limites da dívida, além de uma enxurrada de tentativas de impeachment por vingança contra diversas autoridades e integrantes do gabinete”, disse Kausikan, prevendo que não haverá “nenhuma grande mudança de orientação política” em relação à China, ao Irã ou às tarifas.
“Se eu fosse de apostar, diria que há 50% de chance de Trump se sentir ‘liberado’ e insistir com ainda mais força naquilo que quer fazer.” Trump reconheceu a derrota para os democratas a jornais americanos, mas sua postura futura ainda é vista como uma incógnita
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