Depois do Brasil, eles querem que a Diáspora.Black acelere o afroturismo na Europa

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Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

Quando desembarcou em Lisboa, em 2024, o empreendedor brasileiro Carlos Humberto se hospedou em uma rua que despertou sua curiosidade: a Rua do Poço dos Negros, no Bairro Alto. Intrigado com o nome, começou a perguntar aos moradores sobre a história daquele endereço.

Para sua surpresa, quase ninguém sabia explicá-la. Encontrou apenas duas pessoas capazes de contar o passado da região.

A experiência lhe pareceu familiar. No Brasil, lugares como o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, e a Capela dos Aflitos, em São Paulo, também carregam histórias fundamentais para a memória da população negra, nem sempre conhecidas pelos turistas.

Se havia tanto a contar sobre essas trajetórias em Portugal, por que não transformá-las em experiências turísticas? Foi essa provocação que Carlos levou ao palco do Web Summit Lisboa, durante uma apresentação da Diáspora.Black, startup brasileira que fundou em 2016 com Antonio Pita e André Ribeiro para conectar viajantes a hospedagens e experiências ligadas à cultura negra.

Ao terminar sua fala, foi surpreendido pelo interesse de jornalistas portugueses. "Quando encerrei o pitch, a imprensa inteira veio em cima de mim.

Fiquei impressionado, não entendia o que estava acontecendo", diz. Dois anos depois, aquela curiosidade se transformou em uma nova frente de negócios.

Ao completar uma década de existência, a Diáspora.Black prepara sua expansão na Europa, com uma empresa sediada nos Açores e uma operação em Lisboa. A ambição é levar ao continente o modelo desenvolvido no Brasil, conectando turistas, empreendedores e experiências que valorizam a história e a cultura afrodescendente.

A internacionalização marca um novo capítulo para a startup, que já reúne mais de 800 fornecedores em 145 cidades e tem atuação em 18 países. A meta é participar da movimentação de pelo menos € 2 milhões em negócios no mercado europeu até o fim de 2027.

Uma oportunidade escondida nas ruas A chegada a Portugal aconteceu por meio do EmbraturLAB, programa de aceleração de negócios turísticos que utilizam tecnologia.

A Diáspora.Black foi uma das empresas selecionadas para participar do Web Summit Lisboa em 2024. Até então, os Estados Unidos estavam entre os principais mercados considerados pela startup para sua expansão internacional.

Portugal não aparecia como prioridade. A recepção à apresentação de Carlos, no entanto, fez o empreendedor reconsiderar os planos.

Em uma viagem posterior, outra descoberta reforçou essa percepção. Próximo à Avenida da Liberdade, conhecida por concentrar lojas de luxo na capital portuguesa, ele encontrou a Rua das Pretas.

Mais uma vez, decidiu investigar a origem do nome. Segundo Carlos, as histórias que encontrou sobre a região revelavam a participação de mulheres negras na atividade econômica e na construção de imóveis históricos de Lisboa.

Boa parte desse conhecimento, afirma, permanecia restrita a pesquisadores, universidades e pessoas ligadas à preservação da memória afrodescendente. O empreendedor passou então a conversar com lideranças sociais, profissionais do turismo e representantes de instituições portuguesas para entender se existia espaço para desenvolver roteiros e experiências em torno dessas histórias.

Uma das primeiras iniciativas foi organizar um encontro sobre afroturismo em Portugal, em parceria com a Embratur e a ApexBrasil. A expectativa inicial era reunir cerca de 25 pessoas.

Mais de 100 compareceram. A participação ajudou a confirmar, na avaliação de Carlos, que havia interesse por um segmento ainda pouco explorado pela indústria turística local.

A oportunidade também ganhou respaldo institucional. A Diáspora.Black foi selecionada entre as cinco finalistas do BoostX – ScaleUp Tourism, programa internacional de inovação em Portugal, e conquistou um período de seis meses de incubação no país.

Nesse intervalo, a empresa aprofundou sua análise sobre o mercado europeu, as possibilidades de criação de produtos e os desafios enfrentados pelos profissionais que trabalham com turismo ligado à cultura negra. Para avançar na internacionalização, a Diáspora.Black optou por estabelecer uma estrutura empresarial própria em Portugal.

A localização também faz parte da estratégia, dado que o país pode funcionar como uma porta de entrada para outros destinos europeus, além de facilitar conexões com países africanos de língua portuguesa e turistas norte-americanos que visitam a Europa. O próximo desafio será adaptar a tecnologia da plataforma às particularidades desses mercados.

Isso inclui desenvolver uma experiência de navegação adequada ao público internacional, incorporar diferentes moedas e ampliar a oferta de produtos turísticos. Carlos Humberto, CEO da Diáspora.Black

Divulgação Para Carlos, o avanço das ferramentas de inteligência artificial também abre possibilidades para desenvolver soluções mais personalizadas a custos menores do que os enfrentados pela empresa em seus primeiros anos.

A estratégia prevê atuar tanto na comercialização de experiências quanto no desenvolvimento do próprio setor, estimulando a criação de novos roteiros e parcerias com profissionais e instituições locais. O empreendedor afirma que a plataforma brasileira já recebe visitantes de países como Estados Unidos, França e Alemanha, além de observar um interesse crescente por Portugal.

Uma década construindo o afroturismo A expansão internacional acontece dez anos depois de uma experiência pessoal que deu origem à Diáspora.Black.

Em 2016, Carlos Humberto trabalhava como anfitrião no Rio de Janeiro quando viveu uma situação de racismo. A experiência o levou a pensar em uma rede na qual pessoas negras pudessem encontrar hospedagens mais seguras e acolhedoras.

A ideia inicial cresceu. A startup passou a reunir experiências culturais, roteiros turísticos e serviços oferecidos por empreendedores ligados à valorização da história e da cultura negra.

Ao longo dos anos, também começou a desenvolver projetos de capacitação e fortalecimento de negócios locais. Um exemplo é o Viva Pequena África, iniciativa voltada a empreendedores de uma região do Rio de Janeiro marcada pela memória da população negra.

Para Carlos, um dos principais resultados dessa trajetória foi contribuir para que o afroturismo ganhasse espaço como atividade econômica, além de sua importância cultural. "Quando começamos, havia muitas pessoas preservando histórias, conduzindo experiências e movimentando seus territórios, mas esse trabalho ainda tinha pouca visibilidade dentro da indústria do turismo", afirma.

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