Quando for dada a largada para o GP de São Paulo, às 14h, Gabriel Bortoleto e Rafael Câmara farão o Brasil voltar a ter dois pilotos no grid da Fórmula 1 pela primeira vez desde 2016, quando Felipe Massa e Felipe Nasr representaram o país. Em sua segunda temporada na categoria, o paulista da Audi ganhou a companhia do pernambucano, que teve a estreia antecipada para este fim de semana após a demissão do francês Esteban Ocon.
Dividir as pistas, porém, não é novidade para os dois pilotos brasileiros. Eles se tornaram amigos na infância ao competiram juntos no kart por muitos anos.
Quando Câmara foi anunciado pela Haas, em outubro, uma foto dos dois ainda pequenos almoçando juntos viralizou nas redes sociais. “Quer dizer que para entrar na F1 tem que comer minha comida?”, escreveu Alessandra Porto, ou Tia Lê, para Rafa e Gabriel.
O GLOBO foi atrás da história e conversou com a autora do post, que é mãe de outro piloto brasileiro, Gaetano di Mauro, hoje na Stock Car. O registro é de 2018.
Apesar de o cardápio do almoço ser brasileiríssimo — bife, feijão com arroz e ovo —, a imagem foi tirada bem longe do país, mais precisamente em Desenzano del Garda, uma pequena comuna na região da Lombardia, na Itália, que tem uma pista onde os dois treinavam para competições de kart.
Alessandra e o marido, Francesco, foram morar na região para apoiar a carreira de Gaetano e, posteriormente, receberam um pequeno kartista que sonhava um dia chegar à F1. Rafael Câmara e Gabriel Bortoleto em entrevista coletiva em Interlagos
MIGUEL SCHINCARIOL / AFP — O Gabriel morou com a gente lá na Itália, a pedido do pai (Lincoln Bortoleto, CEO da Stock Car).
O Francesco era coach dele e eu era a “mãezinha” dele lá. Já o Rafa não morava lá ainda, mas ia e voltava com frequência.
Quem mora fora para andar de kart fica muito unido, por causa das oportunidades. E eu achava importante o Gabriel ter amiguinhos porque ele já estava longe da família, o Gaetano era um pouco mais velho...
Quase todo dia tinha algum piloto lá em casa, o Rafinha, o (Felipe) Drugovich, os filhos do Rubinho (Dudu e Fefo), o Caio Collet, o (Gianluca) Petecof... Aquilo ali era um dia normal nosso! — conta.
Alessandra se diverte ao recordar a relação dos dois na época: — Eles eram amiguinhos.
Eu sempre buscava um para ficar com o outro, passeávamos juntos, fomos para a Disney de Paris... Eles brigavam também, coisa de pequeno.
O Gabriel era mais espevitado, o Rafinha era mais contraído. Em Interlagos, ao ser perguntado sobre a foto, Gabriel recordou o período com muito carinho:
— O que eu lembro? De comer a comida da Tia Lê. Ela fazia um arroz com feijão único.
E de muita risada. Eu e o Rafael éramos o terror naquela casa e deixávamos a Tia Lê maluca.
Foi a primeira casa em que eu morei na Itália. Foi muita alegria.
Era um momento puro. Era literalmente chegar à pista 20 minutos antes da sessão, se divertir, andar de kart.
Acabava o dia, andávamos de indoor, loucura, batíamos um no outro, e voltávamos no dia seguinte para correr. Rafael Câmara e Gabriel Bortoleto são os representantes do Brasil no grid da Fórmula 1
Nelson Almeida / AFP Frutos da mesma promissora geração de pilotos brasileiros, Bortoleto e Câmara têm uma pequena diferença de idade: o paulista tem 22 anos e é apenas seis meses mais velho que o pernambucano, de 21.
— Morávamos perto um do outro, então passamos bastante tempo juntos. Íamos para Sarno, que é um dos centros do kart na Europa, onde ficam as bases das equipes, treina-se bastante e tem campeonato.
Depois, na Fórmula, quando você sobe, realmente se distancia um pouco porque as corridas e o calendário são diferentes. Mas é bom estar competindo de novo na mesma categoria, principalmente sendo a Fórmula 1 — conta Bortoleto.
Gabriel Bortoleto no GP de São Paulo 2026 de Fórmula 1 em Interlagos Mauro Pimentel / AFP
Ascensões meteóricas até a F1 Contemporâneos no kart, os dois disputaram diversas competições juntos no Brasil e na Europa.
Bortoleto, porém, subiu mais cedo que Câmara para os monopostos. Ao ser campeão da Fórmula 3 e da Fórmula 2 nas temporadas de estreia (2023 e 2024), acabou impedindo que o amigo o alcançasse nas categorias de acesso à F1.
— Começamos, depois ele foi ficando uma categoria acima, sempre íamos subindo. O último ano dele era o meu primeiro...
— lembra Rafa. Rafael Câmara em treino no GP de São Paulo 2026 de Fórmula 1 em Interlagos
Nelson Almeida / AFP O pernambucano, porém, trilhou o mesmo caminho meteórico: foi campeão da F3 em 2025 e lidera a F2 este ano.
Assim, reencontrou o amigo de infância, agora no topo do automobilismo mundial.
O Globo