Ao mudar seu plano de voo e interromper os cortes da Selic, mantendo o juro básico em 13,75%, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deu peso à piora das expectativas de inflação observada no relatório Focus desta semana, avalia a economista-chefe da Canvas Capital, Camila Faria Lima.
“O Focus mostrou muito claramente um cenário de desancoragem adicional das expectativas, quase como se não importasse uma desaceleração mais acentuada da atividade. O fato é que a gente tem um cenário de inflação mais pressionada e contestação até para horizontes longos, tudo indo para perto de 4%.
Foi dado um recado que deixou muito difícil para o BC não reagir e seguir o plano de voo.” Faria Lima ressalta, ainda, que após a divulgação do Focus a Canvas Capital alterou sua própria projeção, que antes incluía mais um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de hoje.
“A avaliação de que poderia ter mais um corte não parava em pé” com a deterioração das expectativas, diz a economista. Para ela, embora o comitê não tenha dado qualquer sinalização sobre decisões futuras, a própria interrupção do ciclo de queda da Selic é um sinal de que o cenário se alterou.
Faria Lima, assim, vê uma comunicação mais “hawkish” (conservadora), ainda que com um atenuante por conta das menções à desaceleração mais acentuada da atividade econômica e moderação do mercado de trabalho. Ela chama atenção ainda para o fato de o Copom ter aumentado a sua projeção de inflação no horizonte relevante de 3,2% a 3,5%, mesmo com a rolagem do horizonte do primeiro trimestre para o segundo trimestre de 2028.
No fim das contas, Faria Lima concorda com a avaliação do Copom de que o quadro para a política monetária ficou mais desafiador com a piora do cenário inflacionário somada à desaceleração mais acentuada da economia. “No fundo, ele colocou coisas que se contrapõem, e por isso fala em cenário mais desafiador, vai ter de enfrentar essas duas forças”, ressalta.
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