Após analisar DNA de mais de 28 mil pessoas, cientistas da USP e Harvard descobrem mecanismo que pode ajudar a tratar doenças do sangue

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Um estudo internacional com participação de pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP) e de cientistas ligados à Universidade de Harvard identificou um mecanismo que pode abrir novas possibilidades de tratamento para a anemia falciforme. A pesquisa analisou dados genéticos de 28.279 pessoas e descobriu que reduzir a atividade de uma proteína chamada BACH2 aumenta a produção de hemoglobina fetal em células humanas cultivadas em laboratório.

Publicada em 30 de setembro de 2026 na revista científica Nature, a descoberta ajuda a explicar como o organismo controla uma forma de hemoglobina que predomina antes do nascimento, mas passa a ser produzida em quantidades muito menores durante o desenvolvimento. O mais interessante é que essa hemoglobina, embora normalmente reduzida nos adultos, pode ajudar a proteger pessoas com determinadas doenças hereditárias do sangue.

Agora, os cientistas identificaram uma nova maneira de estimular sua produção. Durante a gestação, o organismo humano produz principalmente a chamada hemoglobina fetal, conhecida pela sigla HbF.

Essa proteína transporta oxigênio pelo sangue do bebê e, pouco depois do nascimento, começa a ser substituída pela hemoglobina adulta. Trata-se de uma mudança natural, que ocorre em praticamente todas as pessoas.

Mas existe um detalhe importante: a hemoglobina fetal pode continuar sendo extremamente útil mesmo depois dessa fase da vida. Na anemia falciforme, uma alteração genética provoca a produção de uma hemoglobina anormal.

Em determinadas condições, os glóbulos vermelhos, que normalmente são arredondados e flexíveis, ficam rígidos e assumem um formato semelhante ao de uma foice. Essas células deformadas podem ter dificuldade para atravessar vasos sanguíneos estreitos, prejudicando a circulação e provocando crises intensas de dor, anemia e complicações em diferentes órgãos.

É justamente nesse ponto que a hemoglobina fetal ganha importância. Quando está presente em quantidades mais elevadas, ela dificulta o processo que faz os glóbulos vermelhos adquirirem o formato de foice, ajudando a reduzir as manifestações da doença.

O mesmo princípio desperta interesse no tratamento da beta-talassemia, condição hereditária em que o organismo não consegue produzir adequadamente uma das partes da hemoglobina adulta. Para compreender por que algumas pessoas mantêm níveis mais altos de hemoglobina fetal do que outras, os pesquisadores reuniram informações genéticas de 28.279 participantes de diferentes ancestralidades, incluindo populações europeias, africanas e asiáticas.

A análise encontrou 91 associações genéticas independentes em 12 regiões do genoma. Entre tantas informações, uma região ligada ao gene BACH2 chamou especialmente a atenção dos cientistas.

Pessoas que carregavam determinada variante genética nessa região apresentavam uma tendência a produzir menos BACH2 e, ao mesmo tempo, manter níveis mais elevados de hemoglobina fetal. A relação era uma pista importante, mas ainda faltava entender o que realmente acontecia dentro das células.

Foi então que a equipe passou aos experimentos de laboratório. Ao reduzir a atividade da BACH2 em células humanas envolvidas na formação do sangue, os pesquisadores observaram um aumento da produção de hemoglobina fetal.

O resultado ajudou a revelar a função dessa proteína: a BACH2 atua como uma espécie de freio natural, limitando a ativação dos genes responsáveis pela produção da hemoglobina fetal. Mas a descoberta não terminou aí.

Os cientistas identificaram que outra proteína, chamada NRF2, participa do mesmo processo, só que desempenhando uma função diferente. Quando a ação da BACH2 diminui, a NRF2 consegue atuar com mais intensidade nas regiões do DNA responsáveis por ativar os genes da hemoglobina fetal.

Em outras palavras, reduzir o freio permite que o mecanismo de produção dessa hemoglobina funcione com maior intensidade. A tentativa de aumentar a produção de hemoglobina fetal não é uma novidade na medicina.

Há anos, pesquisadores investigam maneiras de reativar essa proteção natural do organismo para reduzir os efeitos da anemia falciforme. Uma das estratégias mais conhecidas envolve a proteína BCL11A, que também participa do bloqueio da hemoglobina fetal depois do nascimento.

Esse conhecimento já contribuiu para o desenvolvimento de terapias gênicas, incluindo tratamentos autorizados nos Estados Unidos para determinados pacientes. O estudo com participação da USP e de Harvard trouxe uma informação diferente: o mecanismo envolvendo BACH2 e NRF2 funciona independentemente da BCL11A.

Isso significa que os cientistas identificaram outra via de controle da hemoglobina fetal, ampliando as possibilidades de investigação. Nos experimentos, reduzir simultaneamente a atividade de BACH2 e BCL11A produziu um aumento de hemoglobina fetal maior do que o observado quando cada proteína foi reduzida separadamente.

O resultado levanta a possibilidade de que futuras terapias possam atuar sobre os dois mecanismos, embora ainda seja necessário descobrir se essa combinação seria segura e realmente eficaz em pacientes. Apesar dos resultados promissores, existe uma diferença importante entre descobrir como uma proteína funciona e transformar esse conhecimento em um tratamento médico.

A BACH2 também participa de outros processos do organismo. Por isso, interferir em sua atividade exige cautela: uma mudança capaz de beneficiar a produção de hemoglobina fetal pode provocar efeitos indesejados em outras células.

Até agora, os resultados foram obtidos por meio de análises genéticas e experimentos celulares. A nova estratégia não foi testada como tratamento em pessoas com anemia falciforme.

A próxima etapa será investigar maneiras de interferir nesse mecanismo com segurança, compreender seus possíveis efeitos no organismo e avaliar se ele pode contribuir para o desenvolvimento de novas terapias. O estudo também ajuda a explicar por que indivíduos com características genéticas diferentes podem apresentar níveis distintos de hemoglobina fetal, informação importante para compreender a própria evolução dessas doenças.

Entre os autores da pesquisa estão Ester Cerdeira Sabino e Carla Luana Dinardo, da Faculdade de Medicina da USP, que participaram de uma colaboração internacional envolvendo pesquisadores ligados a Harvard e outras instituições. Por enquanto, o avanço está na identificação de um novo alvo molecular.

A descoberta amplia as possibilidades de pesquisa, mas ainda não altera os tratamentos disponíveis nem substitui o acompanhamento médico de quem convive com essas doenças.

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