Tem caído tanta chuva este ano no Rio de Janeiro que a floresta transbordou para a cidade. Uma inundação de cantos e vozes do mato se espalhou de Norte a Sul.
Está por toda parte, sejam escadarias do Centro, meios-fios do Méier ou canteiros de Tijuca, Laranjeiras e Copacabana. Esperanças, grilos e pequeninas rãs cantam.
E espantam males, como mosquitos, moscas e baratas. Veja os detalhes: Nova subida da Serra de Petrópolis terá túneis novos, menos curvas e tempo de viagem reduzido
Inea investiga: Mar invade lagoa em Cabo Frio após rompimento de barreira de areia — Eles nos encantam.
É um privilégio ouvir a canção das florestas no coração da cidade — salienta o professor de zoologia Elidiomar Ribeiro da Silva, coordenador do Laboratório de Entomologia Urbana e Cultural da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Chuva que inspira
Biólogos explicam que o tempo excepcionalmente chuvoso do Rio favoreceu a multiplicação de espécies inofensivas e benéficas de insetos e anfíbios. E tanta cantoria tem um só motivo: amor, em sua versão animal.
Rafael Mascarenhas: Ator João Velho, filho de Cissa Guimarães, aciona a polícia contra perfil que exaltou condenado pela morte de seu irmão No caso dos insetos, só os machos cantam, e o fazem para atrair as fêmeas, já que a chuva dá condições favoráveis para que possam criar filhotes, como mais comida e abrigo.
Os cantores devoram larvas de mosquitos e moscas. Rãs e sapinhos incluem barata no menu.
— Eles estão à toda e por toda parte, após anos de períodos mais secos. A umidade elevada proporciona mais lugares para fêmeas colocarem ovos, há mais alimento, como larvas de outros insetos.
O resultado é uma orquestra de grilos, esperanças e sapinhos. É uma cantoria boa — reforça Pedro Souza Dias, coordenador do Laboratório de Polyneoptera do Departamento de Entomologia do Museu Nacional/UFRJ.
'Ela estava perdendo muito sangue, podia morrer': PM que socorreu idosa baleada quebrou protocolo e levou vítima para hospital Ao contrário do que se previa, 2026 teve muita chuva nos meses mais secos do ano.
Fenômenos ligados à Antártica e as condições do Atlântico botaram, literalmente, por água abaixo previsões iniciais sobre os impactos do El Niño para este segundo semestre no Rio. Em setembro, o acumulado de chuva passou de 163,2 mm.
Este volume médio é cerca de três vezes o normalmente esperado para o mês, entre 50 mm e 60 mm. Em alguns bairros, choveu ainda mais.
Laranjeiras, Jardim Botânico e Barra passaram de 230 mm. A Rocinha marcou 317 mm.
E outubro chega ao fim na mesma toada. Ouça o canto de grilos e esperanças que se multiplicam no Rio
Como as chuvas foram elevadas no inverno, diferente do típico da estação, a época da reprodução começou mais cedo. Normalmente, explica Dias, ela inicia em setembro e se estende pelo verão.
Mas este ano em agosto já tinha muito bicho cantando. Agora, tem ainda mais.
Como a temperatura tem oscilado, mas de forma geral está quente, os bichos ficam confusos e cantam até fora de hora. Zona Oeste do Rio: Loja com roupas falsificadas é interditada em Campo Grande
O resultado foi que canteiros, como os das ruas General Glicério ou Conde de Bonfim, e até pontos de ônibus da 28 de Setembro, em Vila Isabel, ficaram com trilha sonora de cidade do interior. O céu deu de presente a água.
Mas os bichos não brotaram por milagre. Alguns já estavam pela cidade, em pequeno número.
Até mesmo incógnitos, dentro de lojas, casas e apartamentos. Outros vieram das matas que cobrem os morros, sobretudo da Floresta da Tijuca.
Um único canteiro pode reunir multidões, com centenas de insetos ocultos no solo e na folhagem. Violência: Dois homens morrem e outro fica ferido em ataque a tiros na Taquara
— O Rio tem esses privilégios. Esses bichinhos também são parte da fauna urbana.
Uma fauna praticamente invisível, que não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário.
Além da cantoria que nos faz sentir na roça, no mato, e acolhe, também são aliados contra pragas — enfatiza Silva. Polyneoptera é a denominação científica para os insetos polineópteros, grupo que inclui os cantores desta primavera: os grilos e as esperanças.
Na verdade, eles não cantam. Sua “voz” é o som do esfregar das asas.
E têm uma estrutura que amplifica essa toada. Os cientistas conseguem identificá-los pelos sons.
Mas saber quantos são e quais as espécies é outra história. — Não se sabe exatamente quantas espécies vivem na cidade, são muitas.
Mas há espécies para serem descritas. Na verdade, esses animais são tão pequenos e, quase sempre, discretos, que podemos conviver com espécies novas sem nos dar conta — frisa Dias.
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Silva acrescenta que há pelo menos mil espécies de insetos no ambiente urbano, mas esse número deve ser muito maior. Ele sublinha que a fauna de insetos do Rio é tão misteriosa que espécies desconhecidas no estado já foram encontradas em outras ocasiões em canteiros de Marechal Hermes, boiando numa piscina de cobertura no Cachambi e até num lustre de um apartamento em Todos os Santos.
— Nossas espécies nativas predam insetos “importados”, como baratas e aedes. Se tivéssemos mais da nossa fauna, teríamos menos pragas — destaca Silva.
Obra de R$ 38 milhões: Niterói inicia recuperação de túnel na Região Oceânica para ampliar fluxo de água do mar na Lagoa de Piratininga Os grilos são diminutos e pouco coloridos.
Muitos têm apenas 3 cm ou menos, do tamanho de uma moeda de R$ 1. Eles fazem tocas no chão e em arbustos de canteiros.
Mas Dias já os encontrou em profusão em bueiros e escadarias de prédios do Centro, como as das torres do Ventura, edifício comercial na Avenida República do Chile. Seu repertório vai bem além do característico cri-cri.
E cada “cri” é um abrir e fechar de asas. A cor da esperança
Já as esperanças são verdes — uma possibilidade é que esta seja a origem do nome popular — e podem alcançar 7 cm, dimensão de uma caixinha de fósforos. Elas são mais exigentes e tradicionais: preferem arbustos e árvores.
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Tão dedicadas à musicalidade quanto grilos e esperanças são as rãs cariocas. E elas nem precisam de uma poça para chamar de sua para se sentirem em casa.
O herpetologista Sergio Potsch, referência no estudo dos anfíbios de Mata Atlântica e um dos autores do livro “Anfíbios do município do Rio de Janeiro”, confirma que rãs, sapos e pererecas estão também por toda parte. — É que se escondem tão bem que não os vemos.
Só ouvimos. Mas habitam garagens, praças, canteiros, vãos de escada — explica Potsch.
A despeito do medo ou repulsa que causam em algumas pessoas, esses cariocas são ótimos vizinhos. Não transmitem doenças, não atacam e ainda controlam pragas, sobretudo moscas e mosquitos.
E podem matar baratas. Com a chuva, rãs chamadas de piadeiras encontram umidade suficiente para criar seu berço.
Elas fazem ninhos de espuma onde os girinos se desenvolvem. Um buraquinho de canteiro já constitui um lar.
Como no caso dos insetos, o mundo dos anfíbios urbanos segue à espera de exploração. Há 69 espécies deles na área urbana do município, mas o número real, diz Potsch, deve ser muito maior.
Ouvir é uma coisa. Ver é bem mais difícil.
Toda a cantoria dos enamorados atrai predadores, como aves de dia e morcegos à noite. Por isso, essa minifauna musical prefere a proteção do escurecer e, ainda assim, interrompe o show caso perceba qualquer ameaça.
— A noite do Rio é bem mais selvagem do que se costuma imaginar — acrescenta Dias.
O Globo