A reação negativa do mercado financeiro à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesta segunda-feira, 26 de outubro, reflete as preocupações dos investidores com o futuro da economia brasileira, especialmente em relação à dívida pública, à inflação e à trajetória dos juros.
A avaliação é de Roberta Almeida, planejadora financeira certificada e cofundadora da XP Investimentos, que defende o acompanhamento dos indicadores econômicos e a adoção de estratégias de investimento alinhadas aos objetivos de cada família. Segundo Roberta, o comportamento dos ativos financeiros no primeiro pregão após o resultado eleitoral demonstrou baixo otimismo em relação às perspectivas econômicas do país.
Ela cita a alta do dólar, a queda acentuada da Bolsa de Valores e a elevação dos juros futuros como sinais de preocupação dos investidores. “O meu posicionamento vai ser 100% baseado em dados.
Não é o que é melhor ou o que é pior. O mercado hoje, dia 26 de outubro de 2026, reagiu de maneira muito negativa, com baixíssimo otimismo com o Brasil”, afirma.
Na avaliação da especialista, os movimentos do mercado refletem expectativas sobre a condução da economia nos próximos anos. Entre os principais pontos de atenção estão a sustentabilidade das contas públicas, o aumento das despesas governamentais e os possíveis efeitos dessas condições sobre o custo do crédito e o poder de compra da população.
Juros elevados podem dificultar acesso ao crédito Um dos principais efeitos de um cenário de juros elevados, segundo Roberta, é o encarecimento do dinheiro.
Com financiamentos mais caros, famílias e empresas tendem a enfrentar mais dificuldades para contratar crédito, o que pode reduzir o consumo e desacelerar a atividade econômica. “Se eu tenho um juro tão alto, o custo do dinheiro fica muito caro, ou seja, o acesso a crédito cada vez mais difícil, o aumento do custo de financiamento.
Famílias vão estar automaticamente mais endividadas”, afirma. A especialista chama a atenção para o impacto desse quadro sobre as famílias de baixa renda e a classe média, que dependem do crédito para financiar bens, organizar despesas e lidar com imprevistos.
Na avaliação dela, a combinação de endividamento elevado e custos financeiros maiores pode ampliar as dificuldades enfrentadas por esses grupos. Roberta também aponta a inflação como um dos principais riscos para a economia.
Segundo ela, a pressão sobre os preços precisa ser acompanhada em conjunto com a política fiscal, o nível de consumo e as decisões do governo sobre despesas e benefícios. Na avaliação da planejadora financeira, políticas de expansão dos gastos públicos, quando não acompanhadas de medidas consistentes de financiamento e controle fiscal, podem aumentar as preocupações com a inflação e a trajetória da dívida.
Dívida pública é principal preocupação Para Roberta, a situação fiscal brasileira deve permanecer no centro das atenções durante o novo mandato presidencial.
Ela considera que a evolução da dívida pública é determinante para as expectativas sobre juros, inflação e confiança dos investidores. “O nosso principal alvo hoje é controlar, acompanhar a dívida pública”, afirma.
A especialista avalia que a ausência de uma estratégia convincente para estabilizar o endividamento pode ampliar as incertezas sobre a economia. Na visão dela, a expansão de benefícios e as isenções tributárias, quando não compensadas por receitas ou redução de outras despesas, podem aumentar a pressão sobre as contas públicas.
Roberta também menciona projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a evolução da dívida brasileira até 2030. A trajetória, segundo ela, reforça a necessidade de acompanhar os indicadores fiscais e as medidas adotadas pelo governo para conter o crescimento do endividamento.
A dívida pública, entretanto, não representa apenas um problema contábil. Seu comportamento influencia as expectativas sobre a capacidade de financiamento do governo e pode afetar as condições de crédito de toda a economia.
Quando os investidores exigem taxas mais altas para financiar o Estado, o custo pode se refletir em outras modalidades de financiamento. Investidores com recursos disponíveis podem encontrar oportunidades
Apesar do pessimismo com o cenário macroeconômico, Roberta ressalta que a conjuntura também pode abrir oportunidades para quem dispõe de recursos e possui planejamento financeiro. Segundo ela, investidores com liquidez podem avaliar alternativas de renda fixa e carteiras diversificadas capazes de aproveitar os níveis elevados de remuneração dos ativos.
A escolha, no entanto, deve considerar o perfil de risco, o prazo dos investimentos e os objetivos de cada pessoa. “Para aquela pessoa que tem liquidez, que está planejada para uma carteira de investimento, a gente tem oportunidade de uma carteira diversificada entregando acima de 15%.
Ou seja, a cada cinco anos ela dobra o seu patrimônio”, afirma. A especialista também cita títulos públicos com remuneração vinculada à inflação, acrescida de uma taxa real que, segundo ela, pode alcançar entre 7% e 7,5% ao ano, dependendo do título e das condições de mercado.
Essas taxas, porém, não representam retornos garantidos para qualquer investidor. O resultado depende do título escolhido, do prazo e das condições de negociação.
Nos papéis vendidos antes do vencimento, por exemplo, as oscilações das taxas de juros podem provocar ganhos ou perdas no valor de mercado. Por isso, Roberta defende que decisões de investimento não sejam tomadas apenas em resposta à turbulência política ou a movimentos pontuais da Bolsa.
Para ela, o planejamento deve considerar diferentes cenários e manter o foco nos objetivos patrimoniais de longo prazo. Experiência em diferentes crises
Com 18 anos de atuação no mercado financeiro, Roberta afirma que já acompanhou diferentes períodos de instabilidade econômica, como a crise financeira internacional de 2008, as turbulências enfrentadas pelo Brasil em 2015, a pandemia de Covid-19, em 2020, e conflitos geopolíticos recentes.
A experiência, segundo ela, reforça a importância de avaliar os riscos sem tomar decisões precipitadas diante das oscilações do mercado. “Não tenho o compromisso de prever todos os acontecimentos, mas de estudar os cenários, avaliar as possibilidades e construir estratégias consistentes com seus objetivos”, afirma.
A especialista defende que a reação dos investidores seja orientada por dados, diversificação e análise de longo prazo. Em momentos de forte queda dos ativos, ela recomenda cautela para identificar oportunidades, em vez de tomar decisões motivadas exclusivamente pelo medo.
Ao abordar essa estratégia, Roberta recorre a uma máxima frequentemente associada ao investidor Warren Buffett: “Compre ao som dos canhões e venda ao som dos violinos”. A expressão resume a ideia de avaliar oportunidades durante períodos de pessimismo e considerar a realização de lucros quando os mercados apresentam euforia e preços elevados.
Isso não significa, contudo, que toda queda represente uma oportunidade de compra. A avaliação exige análise dos fundamentos dos ativos, da capacidade financeira do investidor e dos riscos envolvidos.
Geração de empregos e respeito às diferenças Além da análise econômica, Roberta defende que o país preserve o diálogo diante da polarização política após as eleições.
Para ela, independentemente do resultado das urnas, é necessário respeitar as diferentes opiniões e manter o compromisso com o desenvolvimento do Brasil. “Todo mundo conhece meu posicionamento: para mim, o melhor assistencialismo é a geração de empregos.
Ponto”, declara. A planejadora financeira afirma compreender que as escolhas eleitorais são motivadas por diferentes convicções e preocupações.
Ela também reforça o compromisso de continuar acompanhando os clientes durante o próximo mandato presidencial, com atenção aos objetivos individuais e às mudanças no cenário econômico. “Os cenários mudam, mas o compromisso com o patrimônio, os objetivos e o futuro das famílias permanecem”, afirma.
Na avaliação de Roberta, o desafio dos próximos anos será acompanhar a evolução das contas públicas, da inflação e dos juros, sem perder de vista as necessidades das famílias e as possibilidades de construção de patrimônio. A especialista conclui defendendo prudência nas decisões financeiras e disposição para buscar alternativas mesmo em períodos de incerteza.
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