O Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta, conhecido como Oversight Board, afirmou nesta terça (20) que a empresa falhou em manter padrões de transparência capazes de afastar suspeitas de interferência eleitoral na disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Formado por especialistas externos e independentes de diferentes países, o conselho avalia as decisões da empresa de Mark Zuckerberg em relação à permanência ou remoção de conteúdos em serviços como Facebook, Instagram e WhatsApp.
No texto publicado nesta terça, o conselho afirma que os problemas que impactaram a produção e divulgação de conteúdos de contas relacionadas a Lula representam uma falha que deveria ter sido encaminhada a uma equipe interna de revisores especializados. O conselho deixa claro que falta transparência nos processos da empresa.
"Em resposta às falhas durante as eleições presidenciais de outubro de 2022 no Brasil, o Conselho pediu a Meta para criar uma estrutura mensurável para avaliar seus esforços em prol da integridade eleitoral, incluindo o compartilhamento de métricas relevantes. Embora a Meta cite frequentemente métricas gerais de atividade, como o número de anúncios armazenados ou de contas removidas, ela ainda não estabeleceu métricas públicas que avaliem de forma transparente a eficácia — ou as lacunas críticas — de suas medidas de fiscalização. Isso precisa mudar", diz o documento.
O conselho explica que durante eleições e períodos de tensão política acirrada, as falhas na moderação de conteúdo da Meta costumam se manifestar de duas maneiras: aplicação excessiva das regras, que suprime a liberdade de expressão política, e aplicação insuficiente, que compromete a integridade eleitoral. O Brasil estaria enquadrado no primeiro caso.
O posicionamento aponta também para o caso de remoções de posts do movimento “No Kings”, que começa a ganhar força nos EUA com a proximidade das eleições de meio de mandato. No final de semana, o movimento mobilizou eleitores para voto antecipado contra Donald Trump — participantes e organizadores reclamaram da remoção de material pela Meta.
“A Meta se comprometeu, em 2025, a permitir maior liberdade de expressão e reduzir o número de erros em torno das eleições e do debate político. Como demonstram os eventos recentes, a empresa ainda tem muito a fazer para cumprir essa promessa", afirmou o Oversight Board.
Na segunda (19), manifestantes e apoiadores do candidato à reeleição Lula se reuniram em frente à sede da Meta em São Paulo, para protestar contra supostas interferências da empresa no processo eleitoral. A mobilização aconteceu no dia em que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deu 24 horas para que a dona do WhatsApp, Facebook e Instagram comprove que cumpriu a decisão da Corte sobre isonomia na distribuição de conteúdos políticos e na veiculação de anúncios eleitorais durante o segundo turno das eleições.
Na semana passada, o TSE atendeu a um pedido da campanha à reeleição do presidente Lula, que acusou a plataforma de restringir seletivamente a distribuição de publicações ligadas ao seu campo político e de descumprir obrigações previstas na legislação eleitoral. A coligação também questiona limitações no impulsionamento de anúncios de campanha e possíveis diferenças no tratamento dado às candidaturas. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) também entrou no circuito e deu cinco dias úteis para que a Meta esclareça as denúncias de possíveis violações aos direitos dos usuários na suspensão de contas, na remoção de publicações e na restrição do alcance de conteúdos.
Alvo de uma ação na Justiça Eleitoral por suposto favorecimento à campanha de Flávio Bolsonaro, a Meta reconheceu na sexta-feira (16) falhas que impactaram a produção e divulgação de conteúdos relacionados ao presidente Lula nas redes sociais. A empresa negou favorecimento político e pediu o arquivamento da representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para encerrar o caso, a gigante americana sustenta que a falha de métricas foi global e que a distribuição dos conteúdos de Lula ficou acima de seu padrão naquele dia. “Tratou-se de um evento técnico, e não de uma ação direcionada a uma campanha política específica”, afirmou a empresa.
Uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) analisou oito incidentes envolvendo plataformas digitais na eleição presidencial — bloqueios de contas, remoções de conteúdo, falhas em métricas e respostas de inteligência artificial — e concluiu que seis tiveram efeitos identificáveis em prejuízo à campanha de Lula ou a conteúdos críticos a Flávio Bolsonaro. Os outros dois episódios envolveram uma falha global na contagem de visualizações e anúncios irregulares contra ambos os candidatos. Os pesquisadores ressaltam, porém, que os dados públicos não permitem afirmar que houve interferência deliberada das empresas na disputa.
“O quadro sustentado pelas evidências é o de uma eleição em que as plataformas erraram, restringiram conteúdos e foram acionadas na Justiça, e em que os incidentes de plataforma com direção identificável se concentram contra a campanha de Lula”, afirma o relatório. O levantamento do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade (Labiia Lab), coordenado por Rafael Cardoso Sampaio, examinou notícias dos primeiros 60 dias de campanha. Foram identificadas 856 matérias de 291 veículos, publicadas entre 16 de agosto e 14 de outubro. Desse conjunto, a equipe selecionou 101 reportagens sobre 16 casos, incluindo denúncias não verificadas, ações de usuários e disputas judiciais.
Os oito incidentes destacados são episódios documentados ou observados em testes comparativos. A concentração de efeitos contra um dos lados justifica a investigação, segundo os autores, mas não comprova uma decisão das empresas de favorecer Flávio. Um dos casos analisados foi a remoção do perfil “Revelando Brasil”, que publicou um vídeo do humorista Fábio Porchat sobre as relações de Flávio com o Banco Master. A Meta admitiu o erro, pediu desculpas e restaurou a conta em poucas horas. Já o site Pragmatismo Político teve publicações removidas e alcance limitado. Dois testes jornalísticos com ferramentas de inteligência artificial também observaram tratamento desigual. Segundo reportagem do g1 citada no estudo, a Meta AI no WhatsApp se recusou a criar uma imagem com “Lula 13”, mas aceitou “Flávio 22”. Quando o pedido incluiu o sobrenome — “Flávio Bolsonaro 22” —, também houve recusa.
20/10/2026 18:31:22
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