Apesar das divergências políticas e ideológicas entre o presidente argentino, Javier Milei, e o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, as relações econômicas entre Brasil e Argentina vão continuar normalmente ao longo do quarto mandato do petista, dizem especialistas. Mas a fragilidade das relações entre os governantes pode trazer impactos para o Mercosul.
Entre janeiro e setembro deste ano, as exportações brasileiras para a Argentina somaram US$ 11,5 bilhões, queda de 18% na comparado com o mesmo período do ano passado, quando totalizaram US$ 14,2 bilhões, de acordo com dados do ComexStat. As exportações brasileiras para a Argentina cresceram 31,4% em 2025 após queda em 2024, chegando a US$ 18,1 bilhões.
As importações tiveram aumento de 4,4% nesse período, chegando a US$ 9,95 bilhões. Na comparação anual, houve uma queda de 4,7%.
Fabio Giambiagi, pesquisador associado do FGV Ibre, afirma que, mesmo diante das tensões diplomáticas entre Lula e Milei, as trocas comerciais continuaram normalmente durante o terceiro mandato de Lula. A tendência é que a situação se mantenha no quarto mandato.
Os atritos constantes e a relação conturbada entre os dois presidentes podem ser explicados, segundo a professora de relações internacionais da ESPM Tamya Rebelo, por projetos e premissas políticas, econômicas e sociais muito distintos. “Há divergências sobre o papel do Estado na economia, a importância da integração regional e o relacionamento com os Estados Unidos.
São diferenças que dificultam a construção de uma agenda política comum”, diz Rebelo. Em agosto, Milei chamou Lula de “corrupto” e “ladrão” em entrevista concedida ao canal argentino LN+.
Naquele mês, o presidente argentino republicou em suas redes sociais uma foto com o título “Socialismo empobrecedor do século XXI”. Na imagem é possível ver diversos governantes de esquerda da América Latina dos últimos anos, entre eles, Lula.
Lula também tem feito críticas ao argentino. Em julho, referiu-se a Milei como “aquela coisa” em uma convenção do PSB.
Ao longo da campanha eleitoral, fez menções à “motoserra” do político, fazendo referência ao corte de gastos na Argentina. Na semana passada, após a vitória de Lula em 25 de outubro, o distanciamento e a tensão entre os presidentes voltaram à tona quando Milei disse que não iria parabenizar o brasileiro pelo resultado.
Rebelo afirma que, com a reeleição de Lula, os atritos devem continuar. A despeito disso, parcerias comerciais e investimentos entre os países seguirão normalmente, uma vez que a Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil, tendo importância estratégica para indústria nacional e para as cadeias produtivas, de acordo com a professora de economia da FEA-USP Natalie Verndi.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), em 2025, a Argentina ocupou o terceiro lugar entre os destinos das exportações brasileiros, ficando atrás de China e Estados Unidos e respondendo por 5,2% da pauta exportadora do Brasil. José Alfredo Graça Lima, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), afirma que é justamente o comércio que fortalece a relação entre os países, independentemente das questões diplomáticas e políticas.
“A situação é passageira. Os governos passam, mas os Estados permanecem e o que realmente interessa para as sociedades e as nações, em geral, é a troca”, diz.
Giambiagi aponta que existe uma variável na relação entre Brasil e Argentina: o Mercosul. Para ele, as relações estremecidas entre os governantes podem comprometer avanços significativos em políticas ou novos acordos do bloco.
Ele explica que pode existir um certo desconforto nas reuniões entre os países-membros em um contexto em que as relações entre os dirigentes não vão bem. Milei se ausentou de duas reuniões presenciais do bloco.
Em uma delas, sediada no Paraguai em 2024, o presidente argentino estava com Jair Bolsonaro participando da Conferência Anual de Política Conservadora (CPAC) em Santa Catarina. A outra ocorreu em julho, também no Paraguai.
Na ocasião, Milei foi o único chefe de Estado que não compareceu. Um dia antes da reunião ele publicou foto ao lado do então candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, em Buenos Aires.
Nos encontros em que participou, o líder ultradireitista teceu críticas à conduta do bloco e fez propostas para garantir maior flexibilização e maior autonomia comercial de seus membros para negociar com parceiros externos. “ Com o Lula é diferente.
Ele atribui ao Mercosul uma função política, de fortalecimento da região e de ampliação da capacidade de negociação internacional”, afirma Rebelo. Segundo ela, essa dificuldade de entendimento entre os dois países prejudica o andamento de um bloco cujas decisões dependem de um consenso.
Valor