Quatro dos maiores negociantes de petróleo do mundo pediram ao governo dos Estados Unidos licença para comprar ou alugar cerca de 50 navios que estão na lista de sanções americanas. A negociação reúne Trafigura, Vitol, Mercuria e a Abu Dhabi National Oil Co., a petroleira estatal dos Emirados Árabes Unidos.
O pedido foi revelado nesta sexta-feira, 6 de novembro. O motivo é o frete, que saiu do controle depois da guerra contra o Irã.
Afretar um superpetroleiro do Golfo do México até a China custou quase US$ 80 milhões em outubro, cerca de dez vezes o patamar anterior ao conflito. A conta chega ao barril.
A refinaria Valero estimou que levar petróleo do Golfo americano à Ásia passou a custar de US$ 30 a US$ 35 por barril, contra cerca de US$ 5 um ano antes. O transporte deixou de ser detalhe logístico e virou parte central do preço da energia.
Quem compra petróleo americano paga o navio antes de pagar a mercadoria. O efeito já aparece nas encomendas.
As compras asiáticas de petróleo dos Estados Unidos para entrega em novembro caíram pela metade em outubro e podem levar os embarques ao menor nível em sete anos. O encarecimento não para no Golfo.
Ele entra no preço do diesel, do querosene de aviação e do gás de cozinha que desembarcam nos portos brasileiros. Boa parte do gás liquefeito importado pelo Brasil sai do próprio Golfo do México americano.
O diesel segue caminho parecido, com parcelas importadas que chegam por navio e repassam o custo do transporte. O repasse ao consumidor depende do câmbio e da política de preços da Petrobras, mas o frete é o componente que ninguém controla a partir de Brasília.
Cada licença que Washington assina, ou deixa de assinar, mexe no preço do botijão na periferia e no custo de uma fábrica em Guangdong. O arsenal de sanções dos Estados Unidos alcançava 1.568 embarcações em 4 de novembro, entre elas 462 petroleiros de cru, segundo dados do Tesouro americano.
A maior parte da lista reúne navios acusados de transportar petróleo de países sob embargo americano, entre eles o Irã. O pedido dos comerciantes cobre perto de um em cada nove petroleiros de cru sancionados.
O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou no mês passado que Washington estudava arranjos para investidores comprarem e recuperarem navios da lista negra e os usarem em cargas legais. O Tesouro analisa cada caso em separado e não fechou nenhuma decisão.
A distância entre estudar e liberar é a distância entre um navio parado e um navio carregado. Nem toda autorização alivia o gargalo.
Reativar petroleiros ociosos acrescenta capacidade real, enquanto legalizar navios que já carregavam petróleo sancionado muda pouco o volume disponível. A maioria dos navios da lista negra é velha e precisa de reparo, vistoria e seguro antes de voltar ao mercado convencional.
Uma licença americana também não apaga as restrições impostas pela União Europeia e pelo Reino Unido. Voltar a operar exige mais do que um papel assinado.
O armador precisa de inspeção aceita pelas seguradoras e de portos dispostos a receber a embarcação. Do outro lado da conta está a demanda da Ásia.
A Índia precisa de gás de cozinha e a China, de combustível para a indústria, e nenhuma das duas vai cortar consumo por causa de uma autorização em Washington. Cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo atravessa o Estreito de Ormuz, onde a guerra contra o Irã alongou rotas e prendeu navios em transbordos lentos.
As seguradoras marítimas passaram a cobrar prêmio de guerra para cruzar a região, e parte das cargas migrou para embarcações menores. O resultado é uma fila de dias que se transforma em dinheiro.
A alavanca americana não está nos portos. Está no dólar e nos seguros que qualquer petroleiro precisa para zarpar, o que faz uma carga que nunca tocará solo americano depender de um carimbo do Tesouro.
A margem de manobra em Washington é estreita. Liberar navios sancionados desgasta o próprio instrumento de pressão, e manter a frota parada encarece o transporte de quem compra petróleo americano.
Para os produtores dos Estados Unidos, a queda nos pedidos asiáticos significa perder mercado depois de anos de expansão. A conta chega justamente quando o país tenta vender mais cru no exterior.
O petróleo do pré-sal embarcado para a Ásia também sente. O frete sai do preço pago ao produtor, então o encarecimento corta a receita de quem vende e não apenas o bolso de quem compra.
A decisão segue aberta no Tesouro, caso a caso, sem prazo público. Até que saia, o comércio mundial de energia depende de uma licença que ninguém em Washington assinou.
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