Com frentes frias empurradas pelo El Niño, tempestades no Rio devem ser mais frequentes nesta primavera

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O tempo conspira para mais tempestades, como a que atingiu o Rio de Janeiro, na madrugada passada. Com o avançar da primavera, aumentam o calor e as chuvas típicas da época do ano.

Somadas a isso, as frentes frias continuam a chegar, associadas a um El Niño extremo que desordena a atmosfera. E a combinação de muito calor e umidade é a receita clássica de temporais.

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Só o que não avança é a previsão do tempo severo. A despeito do histórico de tempestades, falta ao Rio, como ao restante do Brasil, um sistema de previsão em tempo real, ou nowcasting.

É esse tipo de recurso que indica com antecedência de 30 minutos a uma hora os bairros que serão atingidos e o horário de um temporal. Prova da deficiência de nowcasting foi a tempestade da madrugada passada: o alerta da Defesa Civil só chegou quando já chovia copiosamente.

Havia previsão desde cedo para a possibilidade de tempestades, mas nada que alertasse a população sobre volumes de chuvas superiores a 70 mm, muito fortes, como os registrados em estações do Alerta Rio em bairros da Zona Sudoeste. A estação Barra/Riocentro, por exemplo, acumulou 73,6 mm em 24h.

Segundo o Climatempo, mais de 3.400 raios caíram na cidade. Referência no Brasil em tempestades severas, o meteorologista Ernani Nascimento, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), destaca que, num contexto de El Niño extremo, é preciso atenção especial.

Mas faltam elementos essenciais na estrutura de nowcasting. Faltam profissionais

E não à toa, o nowcasting é destaque do I Simpósio Sul-Americano de Tempestades Severas, que acontece de 9 a 12 deste mês no Inpe e reunirá os maiores especialistas em tempestades do continente, além de pessoas da linha de frente de previsão, desenvolvedores de ferramentas e estudantes.

— É possível prever uma tempestade com 24h de antecedência em nível de estado, de 3h a 4h antes para uma cidade. Já saber onde exatamente ela vai cair e o horário é possível com, no máximo, uma hora de antecedência.

E isso depende de um nowcasting eficiente, coisa que não temos — afirma Nascimento, que preside a comissão organizadora do simpósio. Ele salienta que o país tem conhecimento científico de ponta e, no caso dos estados do Sudeste e do Sul, radares meteorológicos suficientes.

Porém, as equipes de previsão são pequenas e faltam profissionais com treinamento específico em tempestades. Radar sozinho não sustenta previsão, diz Nascimento.

E não há redes de estações meteorológicas específicas para a previsão de tempestades. Em países como os Estados Unidos, elas funcionam organizadas nos estados.

A regra é que o espaçamento entre as estações não supere 30 quilômetros. Além disso, elas precisam enviar dados a cada dez, 15 minutos no máximo.

Mas as estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), diz Nascimento, enviam dados somente a cada hora. — A rede do Inmet consegue detectar, por exemplo, frentes frias, mas não pega tempestades isoladas — diz o cientista.

Outro elemento essencial é a radiossondagem com balões atmosféricos. São eles que fazem o perfil da massa de ar e permitem saber se uma tempestade terá muita chuva, formará granizo ou tornados.

O sistema do Galeão voltou a funcionar após um tempo parado. Mas Porto Alegre, por exemplo, segue sem o seu desde 2024.

Nascimento enfatiza que tão fundamentais quanto gente e equipamentos são a integração entre os órgãos de diferentes instâncias e a comunicação para a população. — Integração e comunicação são um gargalo crítico no país todo.

Se um previsor detecta um temporal com meia hora de antecedência, esse alerta precisa ser dado pela Defesa Civil em instantes ou será em vão. Mas atualmente se perde muito tempo do momento em que a informação sai do centro meteorológico, passa pela Defesa Civil e chega à população — adverte Nascimento.

Ele cita como exemplo o tornado de Chapecó (SC), na quarta-feira. A cidade tem estação meteorológica e o aeroporto, um radar; ainda assim, a torre de comando liberou um avião para taxiar enquanto a tempestade avançava em sua direção.

Impacto do El Niño O El Niño influenciou, mas não foi a causa direta da tempestade da madrugada no Rio, afirma o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

— O El Niño tem gerado mais frentes frias no Sul do país e estas têm encontrado condições favoráveis para avançar até o Rio. No caso específico do temporal da madrugada, ele foi provocado por uma instabilidade que se desprendeu da frente fria que ainda estava no Sul — explica.

A frente fria propriamente dita chegará ao Rio no fim de semana e deve trazer mais chuvas, mas não necessariamente tempestades, e fazer a temperatura cair. Seluchi diz que o tempo deve seguir chuvoso na primeira quinzena de novembro.

Mas a tendência é que o calor aumente: — O que acontece é que, já faz algumas décadas, as chuvas diminuíram por falta de umidade associada à mudança de uso do solo e ao desmatamento.

Este ano, temos tido mais chuvas, empurradas um pouco pelo El Niño e pela atuação das frentes frias mais ao norte do que o normal. Nos anos anteriores havia calor, mas não umidade.

Segundo Ernani Nascimento, cada El Niño tem sua própria personalidade. Neste, as frentes frias não estão ficando paradas no Sul, o que levaria a grandes inundações.

Têm ocorrido mais tornados e granizo: — Há muita umidade na atmosfera, mas não está concentrada.

Temos que ver como esse El Niño vai se comportar. Por ora, ele está diferente dos anteriores.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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