Sob ataque constante e em meio à escassez de mísseis interceptadores, a Ucrânia tem usado aviões de combate fabricados nos Estados Unidos como primeira linha de defesa contra a nova arma letal preferida da Rússia, os drones. Recentemente, o presidente Volodymyr Zelensky descreveu os F-16 como “uma das ferramentas mais eficazes para derrubar” os veículos aéreos não tripulados que vêm ameaçando as cidades ucranianas.
Entretanto, manter esses caças multimilionários em patrulha permanente, para interceptar drones que custam à Rússia não mais que US$ 70 mil (cerca de R$ 350 mil) para serem produzidos, está cobrando seu preço. Ataque: Rússia bombardeia Kiev horas após encontro de Putin com enviado de Trump, e Zelensky ironiza: 'nenhuma mudança real'
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Para conseguir os F-16, Zelensky começou a fazer pedidos ainda em 2022, após a invasão em larga escala da Rússia. Estes aviões de combate são fabricados pela empresa americana de defesa Lockheed Martin, e dependem da autorização do governo dos Estados Unidos para serem vendidos ou transferidos a outros países.
Alguns aliados estavam dispostos a doar aeronaves mais antigas. No entanto, o governo do ex-presidente americano Joe Biden resistiu por mais de um ano.
A preocupação era de uma eventual escalada das tensões entre a Otan, a aliança militar ocidental, e a Rússia e com a capacidade da Ucrânia de manter os aviões em operação. O sinal verde de Washington veio em 2023, mas foram necessários alguns meses até que os pilotos ucranianos começassem o treinamento para pilotar os aviões.
Os primeiros F-16, doados por Dinamarca, Holanda e Noruega, só chegaram à Ucrânia mais de um ano depois. Uso contínuo
Atualmente, a pequena frota ucraniana de F-16, conta com aproximadamente 50 aeronaves, que voam com tanta frequência que correm o risco de sofrer desgaste acelerado e apresentar falhas mecânicas, segundo autoridades e especialistas. De acordo com o site de monitoramento militar Oryx, cinco dos F-16 já foram danificados ou destruídos em combate.
Um dos caças foi abatido, o que causou a morte de um piloto experiente, o tenente-coronel, Oleksiy Mes, após ser enviado para responder a um ataque aéreo russo apenas algumas semanas depois da chegada dos F-16 ao país. 'Essa é a impressão': Trump está pressionando a Ucrânia a se render à Rússia, diz Zelensky
No início do mês, o presidente ucraniano afirmou que cerca de metade dos F-16 da Ucrânia estava temporariamente fora de operação, passando por manutenção em outros países da Europa. Entretanto, apesar das perdas, os caças também acumularam resultados expressivos.
Segundo Ihnat, os F-16 derrubaram “uma parte significativa” dos 1.900 drones a jato interceptados pela Ucrânia no mês passado, de um total de 3.500 lançados pela Rússia. Ele acrescentou que um piloto de F-16 derrubou recentemente dez drones movidos a jato em um único voo.
Até o fim de setembro, os F-16 haviam interceptado também 666 mísseis de cruzeiro e cerca de 2.500 drones de diferentes tipos, de acordo com o tenente-general Anatolii Kryvonozhko, comandante da Força Aérea da Ucrânia. Em julho, um F-16 derrubou um caça russo Su-35, o que representou uma importante vitória para a força aérea ucraniana, que enfrenta um adversário numericamente superior.
Embora os F-16 tenham realizado missões de ataque, lançando mais de 650 bombardeios contra alvos terrestres russos, eles têm sido empregados principalmente em tarefas de defesa aérea. Segundo Deptula, proteger o país do bombardeio constante de mísseis de cruzeiro e drones é uma prioridade.
Mas há um custo: — Cada missão de F-16 dedicada a perseguir um drone é uma missão de F-16 que deixa de estar disponível para operações ofensivas de superioridade aérea — explicou.
Ajuda: Otan enviará 'recursos adicionais' ao Mar Negro após ataques recentes contra navios comerciais Os F-16 usados pela Ucrânia também não estão equipados para lançar os mísseis de longo alcance necessários para colocar Moscou na defensiva, seja atacando instalações militares russas atrás da linha de frente, seja obrigando os pilotos russos a recuar.
Por enquanto, essas missões têm sido executadas pelos caças Mirage, de fabricação francesa, e por aeronaves da era soviética que ainda compõem o restante da frota de combate ucraniana. A escassez de munição também é uma preocupação importante para o país, que ainda aguarda os caças que a Bélgica prometeu doar há mais de três anos.
Outra preocupação é o fato de que apenas algumas dezenas de pilotos ucranianos podem ser treinados simultaneamente para operar as aeronaves. David Deptula, tenente-general da reserva da Força Aérea dos Estados Unidos e atual diretor do Instituto Mitchell para Estudos Aeroespaciais, centro de pesquisa próximo a Washington, afirmou que a Ucrânia foi “forçada a usar uma frota relativamente pequena de caças dia após dia como substituta de um sistema de defesa aérea em camadas adequadamente equipado”.
Segundo ele, essa estratégia faz com que as forças ucranianas “consumam um recurso finito mais rapidamente do que deveriam”. A Ucrânia corre para desenvolver outros meios de interceptação.
Por enquanto, porém, os F-16 estão entre as poucas armas capazes de acompanhar os drones a jato e abatê-los sem gastar os caros mísseis Patriot. Segundo o coronel Yurii Ihnat, porta-voz da Força Aérea ucraniana, os caças chegaram a derrubar até 90% dos mísseis de cruzeiro lançados em alguns ataques.
Ampliação da frota A Ucrânia está comprando 20 novos caças Gripen da Suécia, que também doará outras 16 aeronaves usadas do mesmo modelo.
Segundo Zelensky, elas devem chegar “em breve”. A França, por sua vez, concordou em vender caças Rafale, embora a entrega não esteja prevista para antes de dois anos.
Tanto o Gripen quanto o Rafale podem lançar mísseis de ataque de longo alcance capazes de atingir alvos a centenas de quilômetros dentro do território russo. Além disso, a Ucrânia negocia com a Lockheed Martin a compra da versão mais recente do F-16, que poderia operar mísseis de maior alcance mediante aprovação do governo americano.
A Base Aérea de Fetesti, no sudeste da Romênia, é o único centro de treinamento fora dos Estados Unidos onde pilotos ucranianos voam o F-16. O programa é administrado pela Lockheed Martin e dura cerca de seis meses, após um período que frequentemente ultrapassa um ano de estudos de inglês e treinamento em aeronaves ocidentais menos avançadas.
As autoridades não revelam quantos pilotos ucranianos concluíram o treinamento em bases aéreas americanas. Mas, segundo Bill Thomas, coronel aposentado da Força Aérea dos EUA e responsável pelo programa em Fetesti, 19 pilotos se formaram no centro romeno desde setembro de 2024.
Thomas, que pilotou F-16 em combate durante a Guerra do Kosovo, em 1999, afirmou que hoje o treinamento é muito mais focado em missões de combate a drones do que era para os pilotos da Otan há cinco anos, antes do início da guerra na Ucrânia. — É completamente diferente por causa da natureza dessa nova forma de guerra — disse em entrevista recente na base romena, enquanto um piloto ucraniano preparava seu caça para um voo matinal.
O Globo