Claudia Ohana: 'Sou narcisista. Gosto de palco, de plateia e de aplauso'

Claudia Ohana: 'Sou narcisista. Gosto de palco, de plateia e de aplauso' - Foto
Fonte da notícia: Revista Quem Revista Quem

Com longa trajetória no meio artístico, Claudia Ohana se tornou uma voz ativa contra o etarismo. Aos 63 anos de idade e mais de 40 de carreira, a atriz conta como lida com o amadurecimento. "A palavra 'velha', muitas vezes, é usada de maneira pejorativa e como forma de agressão. Estar mais velha é ter sorte. Para um homem de 90 anos, eu sou uma gatinha novíssima. Quando eu tiver nos meus 70, 80 anos – se Deus quiser, chego lá –, eu vou recordar para mim aos 60 e pensar ‘como eu era jovem’. Tudo depende como você enxerga", diz a atriz, acumula papéis em novelas de sucesso como Vamp (1991), Cordel Encantado (2011) e Vai na Fé (2023). De acordo com a atriz, ela tinha apenas 16 anos quando foi considerada "muito velha" por uma diretora venezuelana que procurava uma atriz brasileira para o papel de Erêndira, de Gabriel Garcia Marquez. "A gente sempre tem crise de idade. Eu tinha 16 anos e essa diretora venezuelana acho que eu era muito velha para o papel. Passaram-se três anos, o Ruy Ģuerra conseguiu os direitos de Erêndira e me chamou para fazer o papel. E já estava com 19", afirma a atriz, que foi casada com Ruy Guerra, de 95 anos, entre 1981 e 1984.

Ao recordar o início da carreira, Claudia conta que buscava ser vista como uma artista com conteúdo e não apenas um rostinho bonito. "Andava com gente mais velha, intelectuais, gente por quem eu tinha muita admiração, gente muito inteligente e brilhante. Queria que me vissem como uma pessoa inteligente e não apenas bonita. Queria ser aceita e respeitada", afirma. Do relacionamento com Ruy Guerra, teve sua única filha, Dandara Guerra, de 43 anos. Claudia Ohana e a filha, Dandara Guerra Arquivo pessoal Sem esconder sua afinidade com a fotografia, ela conta que tem um vasto acervo em sua casa com antigos materiais, mas não deixa expostos. "Eu não me cultuo, mas sempre fui uma pessoa que fiz muitas fotos. Eu fazia selfie antes de existir a palavra selfie (risos). Usava o timer da câmera analógica. Sempre gostei de fazer foto. Minha relação com a fotografia veio antes da atuação, fez parte desse caminho narcisista", afirma ela, contando ser adepta de hábitos como dormir bem, fazer exercícios e ter uma alimentação saudável, sem uso remédios emagrecedores. Ao analisar o mercardo atual, ela pondera que o mercado diminui as possibilidades para as atrizes. "É como se as mulheres mais velhas tivessem que se contentar em ser a avó, a mãe. É como se as mulheres mais velhas não tivessem mais desejos, amores e conflitos", afirma a atriz, que é avó de Martim, de 21, e Arto, de 14. Além de ter encenado três peças teatrais ao longo do ano, Claudia rodou os filmes A Grande Virada, dirigido por Halder Gomes, em que interpreta uma dominatrix, e Não Me Lembro, dirigida por Fábio Flecha, em que vive Débora Angelina, uma atriz excêntrica e espalhafatosa. Profissionalmente, o saldo de 2026 é positivo. "Achei esse ano bem bom… Agora, vamos ver o que vai acontecer com o país após o resultado das eleições. Geralmente, o artista é muito atacado pela extrema-direita. Historicamente, a arte é muito atacada, surgem fake news… A arte sempre é uma forma de oposição porque a arte questiona. E o artista é atacado." Quem: Você vem em um rtimo de trabalho acelerado ao longo de 2026. O que te estimula a não parar? Claudia Ohana: Fazer personagens diferentes é o que me estimula. Gosto de personagens fortes. Para eu aceitar um trabalho, existem muitos pontos que levo em consideração, mas digo os três principais: a direção, o texto e o ambiente -- o teatro que vai ser e a galera envolvida no projeto. Neste ano, tive a sorte de ter bons trabalhos e fiquei muito feliz. Comecei o ano com Toc Toc, uma comédia que já tinha feito anteriormente. Depois, veio a peça As Amantes de George Washington, que fiz com a Priscila Fantin, e, mais recentemente, Festa no Arraial – O Musical. Festa no Arraial – O Musical surpreendeu muita gente por ser livremente baseado em Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, transportado para uma vila nordestina em clima de festa junina. Gosta de participar de musicais que tragam essa brasilidade? A Theresa Falcão faz muito isso em suas obras. Ela teve a ideia de ambientar Shakespeare no Nordeste. Ela gosta muito do universo do cordel e de festa junina. Temos músicas originais, músicas já conhecidas. Fico muito orgulhosa de fazer essa peça. É muito lúdico participar dessa peça. Qual tipo de projeto faz seu olhar brilhar? Comédia, musical? Atualmente, meus olhos brilham com musicais. Toc Toc foi a primeira comédia -- comediazona mesmo -- que eu fiz. O Alexandre [Reinecke] foi quem dirigiu e aprendi muito com a direção dele. Comédia tem matemática, tempo. Éramos uma turma muito engraçada e nos divertíamos também nos bastidores. Curti fazer comédia, mas não acho que seja meu estilo de atuação. Não é o que mais me encanta. Embora, a gente se vende pela comédia, né? A gente quer fazer o outro rir. Cláudia Ohana Henrique Tarricone Há um gostinho especial ao fazer o outro rir? É muito bom, muito bom. Embora, conseguir emocionar também é muito incrível. Fiz a peça Callas, interpretando Maria Callas, que era muito denso. Chorava em cena com o drama dela. Você tem mais de quatro décadas de carreira e... Nossa! Pesou agora (risos). Só de ouvir, deu uma pesada. Desculpe, não era a intenção pesar o clima. Mas você já teve alguma crise de idade? Ou segue uma linha mais desencanada com isso? A gente sempre tem crise de idade. Em qualquer idade. Vou te dar um exemplo: quando eu tinha 16 anos, uma diretora venezuelana veio ao Brasil para procurar uma atriz para o papel de Erêndira, de Gabriel Garcia Marquez [autor colombiano que lançou A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada em 1972, adaptado para o cinema em 1983]. Eu tinha 16 anos e essa diretora venezuelana acho que eu era muito velha para o papel. Passaram-se três anos, o Ruy Ģuerra conseguiu os direitos de Erêndira e me chamou para fazer o papel. E já estava com 19. Quando você fica mais velha, é inegável que diminui o campo [de trabalho] porque os autores não escrevem muitos personagens para mulheres mais velhas.

Nota que, na dramaturgia, há uma sensível diminuição dos conflitos colocados para personagens a partir de determinada faixa etária. É como se as mulheres mais velhas tivessem que se contentar em ser a avó, a mãe. É como se as mulheres mais velhas não tivessem mais desejos, amores e conflitos. Para um personagem acontecer, ele precisa de um conflito. É raro a gente ver atores mais velhos no protagonismo. É como se o mundo só quisesse saber sobre os jovens. Já não se escreve para uma pessoa 60+. Há uma falta de visão. Acho que querem apenas mostrar o amor de gente jovem. É uma estrutura social bem difícil de se quebrar, mas as pessoas estão mais atentas. "Estar mais velha é ter sorte" Claudia Ohana Henrique Tarricone Nas redes sociais, você se tornou uma voz de combate ao etarismo, questionando o uso do termo “velha”. Tudo pode ser velho, tudo pode ser novo, depende do ponto de vista. A palavra “velha”, muitas vezes, é usada de maneira pejorativa e como forma de agressão. Estar mais velha é ter sorte. Sempre faço esse discurso. Para um homem de 90 anos, eu sou uma gatinha novíssima. Quando eu tiver nos meus 70, 80 anos – se Deus quiser, chego lá –, eu vou recordar para mim aos 60 e me pensar ‘como eu era jovem’. Tudo depende como você enxerga. É aquele lance do copo meio vazio, ou meio cheio.

Você costuma compartilhar alguns registros que rendem muitos elogios. Isso te deixa lisonjeada, massageia seu ego ou esses comentários não te atingem? Quem não gosta de elogio? Claro que eu curto. Quem não gosta de elogio não deve estar bem consigo mesma. Não tem como não gostar de elogio. Não fico indiferente. Nunca sou indiferente a quem gosta de mim, mas isso não é tudo. O que eu mostro nas redes sociais, na maioria das vezes, é o meu melhor. Às vezes, também mostro o bem real, quando não estou linda e maravilhosa, cheia de disposição o tempo todo. Eu me cuido muito porque isso é fundamental para uma velhice saudável. Como são seus cuidados? Cuido do corpo e da mente. Tem dias em que preciso acordar cedo e pegar um voo, o tempo fica mais apertado e preciso fazer escolhas. Medito, vou ao banheiro e tomo um bom café da manhã. Na minha vida, é basicamente isso: meditar, comer bem, ir ao banheiro bem e dormir bem. Se isso tudo estiver bem, dá para aguentar bastante coisa. Quando você fala em comer bem, sua alimentação tem muitas restrições? Não muitas. Mas não como gordura, tenho quatro refeições diárias, bebo muita água. Minha alimentação é rica em legumes, verduras, proteína. E malhar, malhar, malhar. É fundamental malhar. É dessa forma que é possível chegar aos 80 anos e amarrar o cadarço do seu tênis. É importante estar atento ao alongamento e flexibilidade. Quando você fica mais velho, você parece ter menos tempo. É verdade. Afinal, você passa a ter necessidade de fazer mais coisas. Tem que se exercitar, se alongar, passar creme no rosto, passar creme no corpo, arrumar o cabelo. Digo isso em relação a mim. Meus cuidados são maiores. Prefiro muito mais uma noite de sono do que uma noite de farra. "É fundamental malhar. É dessa forma que é possível chegar aos 80 anos e amarrar o cadarço do seu tênis" Claudia Ohana Henrique Tarricone Você teve uma fase da farra, das baladas? Em 1700 (risos)! Fui da noitada quando eu tinha 15, 16 anos… Aos 18, já não era mais. Tudo vai diminuindo porque você percebe que nem toda a farra é interessante. Muitas vezes, as pessoas acabam indo a festas pela necessidade de pertencer a um grupo… Eu já estou naquela fase que não quero pertencer a nada. Ou pertenço, ou não pertenço. Tanto faz. Pertenço a mim, ao que acredito, às pessoas que eu amo. Quando você é jovem, você ficar querendo pertencer a grupos, ser aceita. Como é a questão da aceitação na sua vida? Na juventude, chegou a passar por alguma rejeição?Desde os tempos de colégio, era difícil para mim. Tive que mudar de escola muitas vezes e isso acabava gerando alguma rejeição. Mais tarde, quando fui morar sozinha e comecei a trabalhar, eu andava com gente mais velha, intelectuais, gente por quem eu tinha muita admiração, gente muito inteligente e brilhante. Queria que me vissem como uma pessoa inteligente e não apenas bonita. Tinha muita vergonha. Havia esse conflito de saber me colocar, não falar bobagem, insegurança. Queria ser aceita e respeitada. Ao mesmo tempo que há a arrogância do jovem, que acha que pode tudo, também há a insegurança. Com o passar do tempo, essa arrogância e essa insegurança vão diminuindo.

Você citou a importância de estar cercada por pessoas que realmente ame. Na sua trajetória, sabemos da proximidade entre você, sua filha e seus netos. Como é essa relação? É afetuosa ou também há arranca-rabo? Sou uma mãe e uma avó legal. Curto, amo, elogio, tenho orgulho, mas não sou daquelas que passo a mão na cabeça por tudo. Como avó, você dá umas broncas? Ou é relax? Não sou uma pessoa de dar bronca, mas não deixo de chamar a atenção sempre que preciso. Eu evito brigas na vida. Fujo de brigas. Não sei brigar. Não sabe brigar? Não sei. Prefiro a paz. Claudia Ohana Henrique Tarricone E não há algum receio em ser passada para trás, ainda mais sabendo que o meio artístico é muito concorridos, com eventuais puxadas de tapete? Não me importo muito com isso. Não me importo se uma pessoa quer, ou não, puxar o meu tapete. Na verdade, poucas pessoas me importam nesta vida. Sou aquariana. O aquariano é paz e amor, mas também é muito desapegado. Para brigar comigo, é muito difícil. Não falo isso como se eu fosse “a evoluída”, mas é que só brigo com gente que me interessa. Nem discuto. Eu me importo com as pessoas que me importam. Posso estar sendo contraditória, afinal, eu sou atriz. Quero que todos me amem e batam palma para mim. Com certeza, sou narcisista porque gosto de palco, de plateia e de aplauso. Ao mesmo tempo, eu sou fechada, reservada e tímida. Poucas pessoas entram na minha bolha, no meu mundo. Você é uma pessoa que gosta de viver o presente ou há momentos de nostalgia? Sou nada nostálgica. Nenhum pouco. Existem dois tipos de pessoas: a nostálgica, que se deprime, e a ansiosa, que pensa no futuro. Estou no segundo grupo. Todo mundo gostaria de estar focado no presente, mas é muito difícil. E como você gostaria de se ver no futuro, nos próximos dez anos, por exemplo? Sei lá. Quando digo que sou do tipo que penso no futuro, é naquela ansiedade do dia a dia, para dar conta do que é preciso fazer para chegar onde você quer chegar. Em casa, por exemplo, tenho pouquíssimas fotos antigas minhas. Eu não me cultuo. Não tenho essa de ficar falando ‘olha como eu era’... Claudia Ohana Henrique Tarricone Você não tem essas fotos expostas, mas conserva um acervo? Sim. Tenho um armário cheio. Sempre fui uma pessoa que fiz muitas fotos. Eu fazia selfie antes de existir a palavra selfie (risos). Usava o timer da câmera analógica. Sempre gostei de fazer foto. Minha relação com a fotografia veio antes da atuação, fez parte desse caminho narcisista. Segue uma rotina de cuidados de beleza e estética? Faço poucos tratamentos estéticos. Sou mais adepta do dormir bem, me alimentar bem e fazer exercícios. Não gosto de partir para remédios emagrecedores. Nas redes sociais, muitas vezes que comparam fotos suas em antigos trabalhos como A Próxima Vítima (1995) ou As Filhas da Mãe (2002), e surgem comentários como “passaram só dois anos para a Claudia Ohana”, “conservada em formol”... Você acha que isso é um olhar generoso do público ou concorda que a passagem do tempo tem sido amigável? Acho que estou indo bem, sim, mas há um olhar generoso. Hoje em dia, como não faço cirurgia estética, eu dependo de uma boa luz para me sentir bonita. Sem dúvida, o tempo passou. Não sou mais a mesma coisa. Hoje em dia, eu me sinto fora do peso. Engordei na pandemia, com a menopausa e tenho que tomar alguns cuidados. Quais? Fiquei fissurada em doces. Antes, eu não entendia pessoas fissuradas em doces e, hoje, eu sou. Torta de limão, pavê… Sabe esses doces maravilhosos? Antes, eu nem pensava neles, nem lembrava que existiam. Hoje, eu penso muito (risos). Tento tomar cuidado para não extrapolar. E também se preocupa nos hábitos dos seus netos? Ou deixa isso a cargo da Dandara? Impossível não me preocupar. Ainda mais com o Arto, o caçula, que é um atleta e se dedica ao futebol. Ele é todo preocupado com a alimentação e a performance dele. Gosto de ajudá-lo a ter um nutricionista, academia boa, personal. Dou uma força. Claudia Ohana Henrique Tarricone Você é uma pessoa que gosta de estar rodeada ou precisa de momentos de solitude? Por ter morado sozinha desde cedo e ter me acostumado com a solidão, eu preciso muito ficar sozinha. Meu grande problema de relacionamento é esse: ficar sozinha junto. É raro a pessoa que consegue encontrar alguém para ficar sozinha junto – dividir o mesmo ambiente, mas respeitando momentos solitários. Se você encontrar alguém assim, segura porque é raro. Você e o diretor Alexandre Reinecke continuam juntos? Não estamos mais juntos, não. Terminamos. O meio artístico passa por transformações ao longo dos últimos anos. Os contratos de longo prazo na TV deixaram de existir. Como é essa instabilidade para você? Eu nunca tive contrato longo. Não sei o que é isso. Sempre fui freelancer, sempre fui independente. Meus contratos eram por obra. Você acha que o mercado de trabalho está em um momento aquecido? Achei esse ano bem bom. Temos filmes, streamings… Agora, vamos ver o que vai acontecer com o país após o resultado das eleições. Geralmente, o artista é muito atacado pela extrema-direita. Historicamente, a arte é muito atacada, surgem fake news… A arte sempre é uma forma de oposição porque a arte questiona. E o artista é atacado. "Eu nunca tive contrato longo.Sempre fui freelancer, sempre fui independente" Cláudia Ohana Henrique Tarricone Você esteve no elenco de novelas icônicas. Hoje, a maneira como o público assiste é diferente. O reconhecimento nas ruas muda? É diferente hoje em dia. Já tivemos novelas marcando 70, 80 pontos de Ibope e isso não acontece mais. Mas continuo achando que a novela é muito forte, muito importante. Estar no ar muda bastante a forma como sou reconhecida. Adorei ter feito Vai na Fé, era uma novela linda, muito bem escalada,com o texto ótimo da Rosane. O João Emanuel Carneiro, autor de Avenida Brasil, é seu irmão e vocês já chegaram a trabalhar juntos. Não pretende repetir a dose? Fizemos juntos A Favorita (em 2008). E gosto de trabalhar em família, não vejo problema nisso. Mas também não significa que seja obrigatório trabalhar junto só porque é da família. Temos carreira bem independentes. Ainda tem algo que gostaria de fazer e não fez? Tem um monte de coisa que eu desejo fazer, tanto profissionalmente, como na vida. Sonhar é tudo. Ter desejo em todos os sentidos. Claudia Ohana Henrique Tarricone Fotógrafo: Henrique Tarricone (@tarricone) Stylist: Thiago Setra (@thiagosetra) Assistentes de Stylist: Fernanda Miyazawa (@femiyazawa) e Pedro Augusto (@pdroaugusto) Make: Anne Liz (@annelizbeauty) Assessoria: evva comunicação (@evvacomunicacao)

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