Carlos Marighella: 57 anos do assassinato que marcou a ditadura

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Marighella na redação do Jornal do Brasil, em 1964, após o golpe militar.Reprodução Na noite de 4 de novembro de 1969, uma operação policial na Alameda Casa Branca, em São Paulo, terminou com a morte de um dos homens mais procurados pela ditadura militar brasileira. Carlos Marighella, dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), foi morto por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em uma ação comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.A versão divulgada pelos órgãos de segurança afirmava que Marighella havia morrido durante um confronto armado com a polícia.

Décadas depois, investigações oficiais apontariam contradições importantes nessa narrativa, indicando que ele havia sido atingido por disparos a curta distância quando já estava sob domínio dos policiais.Considerado o principal inimigo da ditadura em 1969, Marighella havia se transformado em uma das figuras mais conhecidas da resistência armada ao regime.

Mas sua história política começara muito antes do golpe militar de 1964.Da Bahia à militância comunistaCarlos Marighella nasceu em 5 de dezembro de 1911, em Salvador, na Bahia. Filho de Maria Rita do Nascimento, uma mulher negra descendente de africanos escravizados, e de Augusto Marighella, imigrante italiano e operário, cresceu em uma família de origem trabalhadora.Ainda jovem, ingressou na Escola Politécnica da Bahia para estudar Engenharia Civil.

Foi também durante esse período que começou a participar da militância política, aproximando-se do Partido Comunista Brasileiro (PCB).Sua primeira prisão aconteceu em 1932, depois de escrever um poema com críticas ao interventor federal na Bahia, Juracy Magalhães. A partir daí, sua trajetória seria marcada por perseguições políticas, prisões e períodos de clandestinidade.Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937–1945), Marighella foi novamente preso e submetido a torturas pela polícia política.

Passou anos encarcerado e conheceu diretamente os métodos de repressão utilizados pelo Estado contra seus adversários.Carlos Marighella ao lado de Luís Carlos Prestes e Gregório Bezerra, durante o protesto dos parlamentares comunistas contra a cassação dos mandatos, em 1948.Memorial da democracia Com o fim da ditadura Vargas e a redemocratização de 1945, voltou à atividade política.

Em 1946, foi eleito deputado federal constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro, representando a Bahia. Participou dos trabalhos da Assembleia Constituinte, mas seu mandato foi cassado em 1948, depois que o registro eleitoral do PCB foi cancelado.A partir daquele momento, voltou à clandestinidade e continuou atuando na organização comunista.O golpe de 1964 e a opção pela luta armadaO golpe civil-militar de 31 de março e 1º de abril de 1964 derrubou o presidente João Goulart e instaurou um regime autoritário no Brasil.

Partidos e organizações políticas passaram a enfrentar perseguições, enquanto opositores eram presos, cassados e submetidos à repressão.Na época do golpe de 1964, Carlos Marighella ainda não era o comandante da luta armada que se tornaria nos anos seguintes. Ele era um dos principais dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), atuava na organização política do partido e defendia a resistência ao avanço das forças que derrubaram o presidente João Goulart.Poucas semanas depois, em 9 de maio de 1964, foi localizado por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) dentro do cinema Eskye-Tijuca, no Rio de Janeiro.

Ao resistir à prisão, foi baleado no peito à queima-roupa, diante de outras pessoas que estavam no local. Depois de receber atendimento médico, foi levado à Penitenciária Lemos Brito, onde permaneceu preso por 83 dias.

Conseguiu a liberdade em 31 de julho, por meio de um habeas corpus apresentado pelo advogado Sobral Pinto.A prisão aprofundou seu rompimento com a orientação do PCB, cuja direção defendia uma estratégia de resistência diferente da luta armada. Em 1965, Marighella publicou Por que resisti à prisão, no qual relatou o episódio e expôs suas críticas à postura do partido diante do golpe.

Em 1966, passou a defender abertamente a luta armada. Em 1967, Marighella foi expulso do partido. No ano seguinte, participou da fundação da Ação Libertadora Nacional, organização que se tornou um dos principais grupos da luta armada contra o regime militar.A ALN defendia a derrubada da ditadura por meio da guerrilha urbana e rural.

Seus integrantes realizaram assaltos a bancos, ataques a instalações militares e outras operações destinadas à obtenção de recursos, armas e munições.Em setembro de 1969, a organização participou, em conjunto com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro.

A ação resultou na libertação de 15 presos políticos enviados ao México.O episódio teve enorme repercussão internacional e colocou Marighella definitivamente no centro das preocupações dos órgãos de segurança da ditadura.Em 1969, publicou também o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, um documento que reunia orientações e estratégias de combate clandestino.

O texto circulou internacionalmente e se tornou uma das publicações mais conhecidas da literatura revolucionária daquele período e da história recente.A emboscada na Alameda Casa BrancaEm novembro de 1969, o aparato repressivo intensificou as operações para localizar Marighella.Uma parte importante das informações utilizadas pelos policiais foi obtida por meio da prisão e tortura de integrantes do movimento dominicano que mantinham contato com a ALN.

Entre eles estavam os frades Fernando de Brito e Ivo Lesbaupin.Na noite de 4 de novembro, Marighella foi atraído para um encontro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Os dois religiosos haviam sido levados pelos policiais até um automóvel Volkswagen estacionado no local.

Agentes do DOPS aguardavam escondidos nas proximidades.Quando Marighella se aproximou e entrou no veículo, os policiais iniciaram a operação.O delegado Sérgio Paranhos Fleury comandava a ação. Marighella foi atingido por disparos e morreu no local.

A versão oficial divulgada pela polícia sustentou que ele havia tentado sacar uma arma e reagido à abordagem, provocando um tiroteio.Entretanto, os depoimentos e as perícias posteriores levantaram dúvidas sobre essa explicação.Em 1996, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos analisou o caso.

Um parecer médico-legal elaborado pelo perito Nelson Massini concluiu que Marighella havia recebido um disparo fatal no tórax a curtíssima distância.Registro do corpo de Carlos Marighella após sua morte, em 4 de novembro de 1969.Arquivo Nacional. A análise das fotografias também identificou sinais de que seu corpo havia sido colocado no banco traseiro do veículo, e não simplesmente caído naquela posição durante um confronto.A Comissão reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro por sua morte e considerou que os elementos disponíveis contrariavam a versão oficial do tiroteio.

As conclusões apontaram que Marighella foi morto quando já se encontrava sob o domínio dos agentes policiais.O episódio passou a ser reconhecido como um dos casos emblemáticos da violência praticada pelos órgãos de repressão durante a ditadura.A morte de um homem e a sobrevivência de uma memória A morte de Marighella representou um duro golpe para a Ação Libertadora Nacional.

A organização continuou atuando por algum tempo, mas perdeu progressivamente suas principais lideranças, em meio a prisões, mortes e operações de repressão.O assassinato também teve consequências para os religiosos dominicanos envolvidos no caso. Frei Fernando de Brito e Frei Ivo Lesbaupin foram presos e submetidos à repressão.

Outros integrantes do grupo dominicano também sofreram perseguições.Memorial instalado na Alameda Casa Branca, em São Paulo, no local onde Marighella foi morto em 4 de novembro de 1969.Reprodução A trajetória de Marighella, entretanto, continuou provocando debates muito depois de sua morte.Para seus admiradores, Carlos Marighella tornou-se um símbolo da resistência à ditadura e da luta contra o autoritarismo.

Para seus críticos, sua defesa da guerrilha e as ações armadas da ALN levantam questionamentos sobre os métodos e os limites da luta revolucionária.Sua trajetória, porém, não pode ser reduzida à maneira como morreu, nem compreendida fora do contexto em que viveu. É também a história de um país atravessado pelas disputas da Guerra Fria, de uma democracia interrompida por um golpe de Estado e de homens e mulheres que, diante da ditadura, escolheram diferentes caminhos de enfrentamento.Compreender esse percurso exige reconhecer suas contradições.

Marighella foi um dirigente comunista que rompeu com seu partido, defendeu a luta armada e liderou uma organização responsável por ações violentas contra o regime. Foi também um opositor perseguido por dois períodos autoritários da história brasileira, preso, torturado e, por fim, morto em uma operação conduzida pelos órgãos de repressão do Estado.Passados 57 anos, sua morte permanece como um dos episódios emblemáticos da violência política durante a ditadura militar.

Sua história também expõe as práticas de um Estado que perseguiu adversários, institucionalizou a tortura como instrumento de repressão e tentou ocultar as circunstâncias das mortes provocadas por seus próprios agentes. Compreender Marighella é, portanto, olhar não apenas para as escolhas de um revolucionário, mas também para a violência de um regime que não admitia oposição.Quer ler mais artigos como este? Acesse a coluna do Paulo Henrique no iG e confira outros textos sobre história, sociedade e temas que ajudam a compreender o Brasil de ontem e de hoje.Fontes históricas e documentaisComissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo — Carlos Marighella.

Documentação sobre sua trajetória e as circunstâncias da morte.Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos — ficha de Carlos Marighella. Documentos e conclusões médico-legais.Memórias da Ditadura — Carlos Marighella.

Contexto político e biográfico. FGV — Atlas Histórico do Brasil.

Histórico da luta armada e da repressão.

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