Para muitos estudantes paraenses, a preparação para o vestibular é marcada por horas de estudo, ansiedade e incertezas. Mas, para alguns, a busca pela aprovação também passa pela fé.
Em Belém, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré acompanha vestibulandos que encontram nas orações e nas promessas uma forma de alimentar a esperança durante a caminhada rumo à universidade. A caloura de Medicina da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Maria Luisa Oliveira, de 19 anos, conhece de perto essa relação entre fé e vestibular.
Devota de Nossa Senhora de Nazaré desde a infância, ela cresceu acompanhando o Círio, as trasladações e as procissões. Maria Luisa Oliveira,19 anos, caloura de Medicina na UEPA.
(Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal) Quando decidiu disputar uma vaga em Medicina em uma universidade pública, Maria Luisa sabia que teria pela frente uma preparação longa e concorrida.
Foi nesse período que intensificou a confiança na santa. “Eu sabia que o trajeto ia ser muito largo, muito difícil, mas eu sempre mantive minha fé acesa em Nossa Senhora, confiando de que eu, como uma filha dela, ela iria guiar todo o caminho para que, no final, eu conseguisse conquistar minha aprovação em Medicina”, conta.
No Círio do ano passado, enquanto fazia o primeiro ano de cursinho, Maria Luisa fez uma promessa. Caso conseguisse a aprovação, faria a pé o percurso de Castanhal até Belém durante a Romaria, em outubro.
A aprovação veio em 2025. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ela alcançou média de 872 pontos e 940 na redação.
Agora, como caloura de Medicina, prepara-se para cumprir a promessa feita durante o período de preparação. Um obstáculo poucas horas antes da prova
A trajetória até a aprovação, porém, teve um episódio que poderia ter impedido Maria Luisa de realizar o exame. No segundo dia do Enem, poucas horas antes da prova, ela bateu a cabeça em uma bancada de granito na casa de uma tia, em Castanhal.
O impacto provocou um corte profundo. Segundo ela, houve muito sangramento, dor intensa e até um desmaio.
Faltavam cerca de três horas para o início da prova. “Eu tinha certeza que eu não ia conseguir fazer a prova.
Já era o segundo dia de prova, eu tinha certeza que, infelizmente, eu ia ter que fazer mais um ano de cursinho”, lembra. Maria Luisa foi levada a uma unidade de pronto atendimento, onde recebeu pontos na cabeça.
Mesmo com o ferimento e o mal-estar, decidiu seguir para o local de prova. Na sala, antes do início do exame, encontrou na oração uma maneira de controlar a ansiedade.
Como já tinha o hábito de levar um terço para as provas, aproveitou os minutos de espera para rezar. “Eu rezei o terço inteiro, dedicado à Nossa Senhora.
E depois disso, parece que tudo se acalmou e eu consegui fazer uma boa prova”, relata. Para Maria Luisa, a experiência reforçou uma relação com a fé que já fazia parte de sua vida.
A aprovação, segundo ela, também não foi encarada como uma conquista individual. Um sonho compartilhado pela família
A preparação para Medicina envolveu toda a família. Mãe, avó, tios e primos acompanharam o processo e participaram das orações.
“Esse sonho, a partir do momento que a gente vai trilhando, ele não é só meu, mas ele é da minha mãe, ele é da minha avó, meus primos, meus tios. Ele vira de toda a família”, afirma.
Durante o período de preparação, a família participava de momentos de adoração e mantinha as orações como parte da rotina. A aprovação transformou a expectativa em realidade.
Hoje, ao entrar na UEPA, Maria Luisa diz lembrar do desejo que tinha no ano anterior — e também dos estudantes que ainda percorrem o mesmo caminho. “Eu acho que todos os dias, quando eu entro aqui na Uepa ou quando eu acordo, eu agradeço, porque o que eu estou vivendo hoje era o meu sonho do ano passado e é o sonho ainda de muita gente que ainda não passou”, diz.
O Liberal