Brasil se torna referência mundial no combate à extrema direita, avalia especialista

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras de 2026 transformou o país em uma referência internacional de resistência democrática à extrema direita e expôs os limites da influência política dos Estados Unidos na América Latina. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da PUC-Rio João Daniel Almeida, que considera o resultado brasileiro um acontecimento de repercussão global, com potencial para influenciar o debate político estadunidense às vésperas das eleições legislativas.

Em entrevista publicada neste domingo (1º) pelo jornal O Globo, o especialista afirmou que a virada eleitoral de Lula, seguida da fuga do candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos, alterou a percepção internacional sobre a capacidade de movimentos democráticos derrotarem forças de extrema direita.

Segundo ele, o episódio também passou a ser explorado por políticos do Partido Democrata, que enfrentam os republicanos do presidente Donald Trump nas eleições de terça-feira (3). “Da noite para o dia, o Brasil passou a ser um exemplo de como barrar a extrema direita dentro da democracia”, afirmou Almeida.

Para o professor, o significado da eleição brasileira ultrapassa as fronteiras nacionais, especialmente porque ocorreu em um momento no qual Trump procurava apresentar seus aliados latino-americanos como demonstração do êxito de sua política externa. O pesquisador destacou que a vitória de Lula interrompeu uma sequência de avanços políticos favoráveis à estratégia de Washington na região.

Ele também relacionou o resultado brasileiro a acontecimentos recentes na Sérvia e na Hungria, países onde movimentos de oposição à extrema direita ganharam destaque. Virada de Lula e fuga de Flávio repercutem nos Estados Unidos

Na avaliação de Almeida, a repercussão internacional da eleição brasileira foi ampliada pelas circunstâncias da vitória de Lula e pela decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o país após a derrota. O senador viajou aos Estados Unidos passando pela Argentina e divulgou uma carta de teor golpista, posteriormente modificada diante da repercussão negativa.

“Se Lula tivesse vencido no primeiro turno, não teria chamado tanta atenção. Mas esse roteiro da virada de Lula e da fuga de Flávio Bolsonaro foi uma história muito interessante, com toques de Hollywood, para os americanos ignorarem, e isso fez com que políticos, especialmente do campo democrata, impulsionassem o tema em suas redes sociais”, declarou.

Segundo o professor, parlamentares e lideranças democratas passaram a utilizar o episódio para questionar a disposição do governo Trump de acolher políticos estrangeiros derrotados nas urnas. Alguns chegaram a defender a deportação de integrantes da família Bolsonaro caso o Partido Democrata reconquiste a Presidência dos Estados Unidos em 2028.

O desgaste também teria influenciado a postura do próprio Trump. Embora tenha levantado suspeitas sobre a eleição brasileira, o presidente estadunidense procurou apresentar a controvérsia como uma questão interna do Brasil.

Almeida considera que essa reação contribuiu para a mudança no discurso de Flávio Bolsonaro, que inicialmente se apresentou como presidente eleito em sua carta, mas posteriormente passou a se identificar como líder da oposição. Derrota eleitoral pode elevar custo da aliança entre Trump e bolsonarismo

O professor avalia que a manutenção do apoio de Trump à família Bolsonaro poderá se tornar politicamente mais onerosa caso os democratas conquistem a maioria no Congresso estadunidense. Até a eleição brasileira, segundo ele, o governo republicano dispunha de instrumentos políticos e digitais capazes de favorecer seus aliados no país.

A presença de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e a atuação de Paulo Figueiredo integravam esse ambiente de articulação. O cenário, entretanto, mudou com a reeleição de Lula e a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil.

O especialista identifica três fatores capazes de enfraquecer a aliança: uma eventual derrota republicana nas eleições legislativas, a perda de influência política do bolsonarismo e a conhecida resistência de Trump em manter vínculos com lideranças derrotadas. “Se Trump entender que é melhor se livrar dos ‘perdedores’, ele não pensará duas vezes”, afirmou.

Almeida também considera que o presidente estadunidense tende a adotar uma postura pragmática diante de lideranças que demonstram força política, independentemente de suas posições ideológicas. Nesse contexto, mencionou o tratamento dispensado por Trump a Lula, ao presidente chinês Xi Jinping e ao presidente russo Vladimir Putin.

Para o professor, a derrota de Flávio Bolsonaro comprometeu sua capacidade de atuar como principal representante da oposição brasileira. A fuga para os Estados Unidos teria acelerado esse processo de perda de protagonismo.

Vitória brasileira expõe limites da estratégia de Washington O resultado das urnas também representa, segundo Almeida, um obstáculo à chamada “Doutrina Donroe”, expressão utilizada para caracterizar a política de ampliação da influência estadunidense sobre o continente americano durante o governo Trump.

A estratégia, associada à atuação do secretário de Estado Marco Rubio, encontrou resistência no Brasil, onde Lula conseguiu derrotar o candidato apoiado pelo campo político alinhado ao presidente dos Estados Unidos. “O fato de o Brasil ter feito isso democraticamente, mesmo com a manipulação das redes sociais, é extraordinário.

Acredito que a doutrina tem seus limites, e isso enfraquece o poder de Marco Rubio (secretário de Estado dos EUA), ainda mais se os democratas vencerem na terça-feira”, declarou. O professor considera que o resultado brasileiro demonstrou a capacidade de mobilização política e digital de setores democráticos diante de estratégias de influência externa.

Ele também identificou um movimento de influenciadores brasileiros de esquerda que passaram a publicar conteúdos em inglês, procurando participar do debate eleitoral estadunidense e apoiar candidaturas democratas. Na interpretação do pesquisador, essa mobilização representa uma resposta simbólica ao histórico de interferências dos Estados Unidos em processos políticos latino-americanos.

“Me parece que o Brasil começa a ser entendido não apenas como o país do futebol e do samba, mas também como o país da defesa da democracia, conseguindo conter a Doutrina Donroe e enfraquecer Marco Rubio, e que obteve sucesso ao mobilizar e organizar os algoritmos das redes sociais contra elas mesmas, em nome da liberdade e da democracia”, afirmou.

Trump deve reconhecer vitória de Lula após eleições legislativas Apesar de ter elogiado a rapidez do sistema eleitoral brasileiro depois do primeiro turno, Trump passou a questionar o resultado quando a vitória de Lula foi confirmada.

O presidente estadunidense levantou acusações de irregularidades sem apresentar provas que sustentassem suas alegações. Almeida classificou a postura como inédita na história das relações entre Brasil e Estados Unidos, mas avaliou que a resistência de Washington ao reconhecimento formal do resultado não representa uma ameaça significativa à legitimidade da eleição.

“Acredito que ele reconhecerá o resultado depois das eleições legislativas, mas isso não faz muita diferença hoje, uma vez que o mundo inteiro já reconheceu a vitória de Lula”, afirmou. O especialista também prevê dificuldades para Trump na segunda metade de seu mandato caso os democratas conquistem o controle da Câmara dos Representantes e, eventualmente, do Senado.

Na sua avaliação, o presidente republicano deverá contestar uma possível derrota eleitoral, mas não encontrará condições políticas suficientes para impedir o funcionamento das instituições. A perda de maioria no Congresso também poderá limitar sua capacidade de aprovar medidas.

Almeida ressalvou, contudo, que uma vitória democrata nas eleições legislativas não seria suficiente, por si só, para assegurar a conclusão de um processo de impeachment contra Trump. Soberania digital pode provocar novos conflitos entre Brasil e EUA

Embora considere que a presença de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos não deva produzir consequências diplomáticas duradouras, Almeida identificou outro ponto de potencial atrito entre Brasília e Washington: a regulamentação das plataformas digitais. O professor destacou que a defesa da soberania digital brasileira, incluindo a proteção do Pix e a discussão sobre o funcionamento das grandes empresas de tecnologia, poderá adquirir importância crescente nas relações bilaterais.

“Algo que entendo ter um potencial para mexer nas relações é a demanda crescente pela regulamentação das redes sociais, a ideia da soberania digital brasileira, que também inclui o Pix e que estará na pauta nos próximos meses e anos”, afirmou. Segundo ele, essas questões atingem interesses estratégicos dos Estados Unidos de maneira mais profunda do que a controvérsia eleitoral ou o acolhimento de integrantes da família Bolsonaro.

O especialista também chamou atenção para a desigualdade de poder entre os dois países. Enquanto Washington dispõe de instrumentos de pressão política e econômica, o Brasil possui capacidade mais limitada de responder a medidas unilaterais estadunidenses.

Essa assimetria, segundo Almeida, ajuda a explicar por que episódios como a aplicação de sanções contra o ministro Alexandre de Moraes não produziram uma ruptura nas relações bilaterais. Credibilidade dos Estados Unidos sofre desgaste internacional

Ao analisar as consequências mais amplas da política externa de Trump, Almeida afirmou que a postura de Washington diante da eleição brasileira contribuiu para aprofundar questionamentos sobre a credibilidade dos Estados Unidos como parceiro internacional. O professor considera que a política externa estadunidense passou a privilegiar ações agressivas e intervenções políticas, afastando-se de mecanismos multilaterais que historicamente beneficiaram tanto Washington quanto seus aliados.

Ele observou que a deterioração da confiança internacional nos Estados Unidos não começou com o atual governo republicano. Segundo sua análise, o processo também se manifestou durante a administração democrata de Joe Biden.

Nesse ambiente, a China vem ampliando sua influência ao apresentar maior previsibilidade nas relações diplomáticas e econômicas, característica considerada especialmente importante em períodos de instabilidade internacional. Para Almeida, a experiência brasileira demonstra que a capacidade de Washington de influenciar resultados políticos na América Latina encontra limites quando movimentos democráticos conseguem mobilizar o eleitorado e conquistar legitimidade nas urnas.

A reeleição de Lula, nesse sentido, não representa apenas uma derrota do bolsonarismo, mas também um acontecimento com consequências para a disputa política internacional e para a imagem do Brasil como país capaz de enfrentar eleitoralmente a extrema direita.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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