Brasil-China: o que está em jogo para a parceria na eleição de 2026

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

Por Iara Vidal (*) – Moro em Beijing, no distrito de Shijingshan, tão a oeste da capital chinesa que costumo brincar que, para me visitar, é preciso fazer uma verdadeira Jornada ao Oeste, como no clássico da literatura chinesa. Em novembro, completo um ano por aqui, embora tenha a sensação de ter vivido dez.

Minha história com a China começou antes. Em 2022, passei seis meses estudando na Universidade Renmin e cobrindo o 20º Congresso do Partido Comunista da China (PCCh). Naquele ano, não consegui transferir meu título de eleitor, mas fiz campanha para Lula com uma toalha do presidente debaixo do braço e até arrisquei uma dancinha na Grande Muralha.

Desta vez, a coisa ficou mais séria: transferi meu título, votei no primeiro turno e aguardo o dia 25 de outubro para voltar às urnas, agora também como delegada da coligação Brasil pronto pra mais em Beijing.

Foi entre essa experiência de viver na China e as conversas com meu irmão que a vida me deu e camarada, Renato Peneluppi, que nasceu este artigo. A distância do Brasil não diminuiu nosso interesse pelos rumos do país. Pelo contrário, nos levou a uma pergunta que vai muito além das eleições: como transformar a parceria entre Brasil e China em desenvolvimento, autonomia e soberania para o nosso país?

A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. Em 2025, o comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações brasileiras para a China chegaram a US$ 84,7 bilhões, mais de três vezes o valor exportado para os Estados Unidos.

Esses números mostram que a relação ultrapassa preferências ideológicas. Mas também levantam uma questão fundamental: não basta vender mais para a China. Precisamos transformar essa parceria em capacidade industrial, desenvolvimento tecnológico e oportunidades para a população brasileira.

O Brasil não deveria escolher entre Beijing e Washington como quem escolhe um lado numa disputa. Precisa construir relações internacionais orientadas por seus próprios interesses e por um projeto nacional de desenvolvimento.

A China não compra apenas o que o Brasil vende

Embora a China seja o principal destino das exportações brasileiras, nossas vendas continuam concentradas em produtos como soja, minério de ferro e petróleo. O desafio é superar essa dependência de matérias-primas e transformar a parceria comercial em desenvolvimento industrial e tecnológico para o Brasil.

Desde 2023, o governo Lula tem ampliado a cooperação com a China em áreas como energia limpa, indústria automobilística, infraestrutura, ciência, tecnologia e saúde. Em maio de 2025, durante visita do presidente a Beijing, foram anunciados R$ 27 bilhões em investimentos chineses no Brasil, incluindo projetos de veículos elétricos, semicondutores e biotecnologia.

Esses investimentos ainda precisam se concretizar e gerar empregos, fortalecer a indústria nacional e promover a transferência de tecnologia. Mais do que ampliar as exportações, o Brasil precisa aproveitar essa parceria para produzir conhecimento, desenvolver tecnologias e construir um projeto próprio de desenvolvimento.

Uma parceria que também produz conhecimento

A cooperação espacial talvez seja um dos exemplos mais reveladores de quanto Brasil e China podem realizar quando decidem investir juntos em conhecimento. Em 1988, os dois países firmaram o acordo que deu origem ao programa CBERS, para desenvolver satélites de observação da Terra. Naquele momento, ambos buscavam superar as barreiras impostas pelas potências que dominavam as tecnologias espaciais.

Há um detalhe histórico que merece destaque: o Brasil não entrou nessa parceria apenas para receber tecnologia chinesa. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) já acumulava experiência científica e tecnológica, que se somou à capacidade chinesa de fabricar e lançar satélites. Inicialmente, o Brasil assumiu 30% das responsabilidades do programa, participação que depois chegou a 50%.

O primeiro satélite foi lançado em 1999. De lá para cá, a China avançou de maneira extraordinária, apoiada em décadas de planejamento estatal, formação científica e investimentos tecnológicos. Hoje, possui sua própria estação espacial, a Tiangong, realizou missões a Marte e, em 2024, tornou-se o primeiro país a trazer amostras do lado oculto da Lua.

E o Brasil faz parte dessa história. Não porque tenha sido responsável por todas essas conquistas, mas porque foi um parceiro importante numa etapa em que a China construía capacidades que hoje a colocam entre as maiores potências espaciais. A cooperação continua com o CBERS-6, cujo lançamento está previsto para 2028.

Essa experiência mostra algo que deveria orientar nossas escolhas: tecnologias estratégicas não surgem por acaso, nem apenas pela vontade do mercado. Elas exigem planejamento, investimento público, instituições científicas e continuidade.

Na saúde, a cooperação entre Brasil e China também abre oportunidades para a produção de medicamentos, vacinas e novas tecnologias. Soberania é justamente desenvolver a capacidade de produzir conhecimento e encontrar soluções para as necessidades da própria população.

Quando a realidade econômica contraria a ideologia

A aproximação entre Brasil e China já esteve no centro de disputas políticas em outros momentos da nossa história. Em agosto de 1961, o então vice-presidente João Goulart, o Jango, estava em missão comercial à China quando Jânio Quadros renunciou à Presidência. Sua viagem, realizada no contexto da política externa independente, tornou-se mais um elemento explorado por setores conservadores e militares que tentaram impedir sua posse.

Jango assumiu após uma intensa mobilização em defesa da legalidade, mas seria derrubado pelo golpe militar de 1964, que inaugurou 21 anos de ditadura. A viagem à China não provocou o golpe, mas aquele episódio revela como a busca por uma política externa menos subordinada às grandes potências já enfrentava forte resistência no Brasil.

Décadas depois, a China voltou a ser alvo de ataques ideológicos durante o governo Jair Bolsonaro. Em 2020, Eduardo Bolsonaro responsabilizou o país pela propagação do coronavírus, provocando uma crise diplomática. Apesar da hostilidade, o comércio bilateral continuou crescendo e alcançou novos recordes.

O agronegócio brasileiro precisava do mercado chinês, enquanto a indústria nacional dependia de máquinas, equipamentos e insumos importados. A China, por sua vez, buscava garantir o fornecimento de alimentos e matérias-primas, além de preservar seus investimentos. Beijing manteve uma postura pragmática, demonstrando que os interesses econômicos podiam sobreviver às divergências políticas.

Mas sobreviver não é o mesmo que avançar. Uma coisa é manter relações comerciais apesar da hostilidade diplomática. Outra é construir uma parceria estratégica voltada ao desenvolvimento industrial, científico e tecnológico. É essa diferença que deveria orientar o debate brasileiro sobre a China.

A soberania também começa no campo

Há outra dimensão da experiência chinesa que merece nossa atenção: a segurança alimentar. Para um país com mais de 1,4 bilhão de habitantes, garantir o abastecimento da população não é apenas uma questão econômica, mas parte fundamental de sua estratégia de soberania.

Essa preocupação tem raízes na própria história chinesa, marcada por graves períodos de escassez e fome. Nas últimas décadas, a resposta passou por investimentos em infraestrutura rural, mecanização, pesquisa agrícola, melhoramento de sementes e políticas de revitalização do campo. Em 2025, a China alcançou uma produção recorde de aproximadamente 715 milhões de toneladas de grãos.

Isso não significa autossuficiência absoluta. A China continua dependendo fortemente da soja importada, sobretudo para a alimentação animal, e o Brasil é um de seus principais fornecedores. Ao mesmo tempo, Beijing procura diversificar suas fontes de abastecimento e desenvolver tecnologias e alternativas produtivas que reduzam sua vulnerabilidade diante de crises internacionais.

As disputas comerciais com os Estados Unidos e a instabilidade geopolítica reforçaram essa preocupação. A estratégia chinesa, entretanto, é anterior a esses conflitos: ampliar a produção nacional, preservar terras agrícolas e evitar que a alimentação de sua população fique excessivamente dependente de decisões tomadas no exterior.

Existe aí uma reflexão importante para o Brasil. Enquanto exportamos soja em grande escala, a China investe para reduzir os riscos associados à dependência de fornecedores externos. Não se trata de deixar de vender alimentos aos chineses, mas de compreender por que eles planejam sua autonomia enquanto nós ainda temos dificuldades para transformar nossa força agrícola em desenvolvimento tecnológico, agroindustrial e segurança alimentar para toda a população.

A experiência chinesa mostra que soberania também exige planejamento no campo. E que uma parceria verdadeiramente estratégica pode ir além da compra e venda de produtos agrícolas, envolvendo pesquisa, tecnologia, processamento de alimentos e desenvolvimento rural.

O que Lula fez de diferente?

Durante a visita de Xi Jinping ao Brasil, em novembro de 2024, os dois governos anunciaram a aproximação entre a Iniciativa Cinturão e Rota e programas brasileiros como o Novo PAC, a Nova Indústria Brasil e o Plano de Transformação Ecológica. O Brasil, porém, não aderiu formalmente à iniciativa chinesa, optando por estabelecer mecanismos de cooperação voltados a projetos de interesse comum, preservando sua autonomia na definição das prioridades nacionais.

A política externa de Lula também busca fortalecer o multilateralismo, os BRICS e as relações com o Sul Global. Embora essa aproximação não resolva, por si só, problemas históricos como a desindustrialização e a dependência tecnológica, pode abrir caminhos para enfrentá-los.

A diferença está em transformar as relações internacionais em instrumentos de um projeto nacional de desenvolvimento, sem subordinar os interesses brasileiros aos de outras potências.

O que pode mudar depois da eleição

A eleição presidencial de 2026 acontece em meio à crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, que envolve comércio, tecnologia, energia e influência geopolítica. Nesse cenário, Lula defende o fortalecimento dos BRICS, do multilateralismo e das relações com o Sul Global, enquanto Flávio Bolsonaro prioriza a aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina.

Uma eventual vitória de Flávio não significaria necessariamente o rompimento das relações com a China, já que os interesses econômicos dos dois países permaneceriam relevantes, como ocorreu durante o governo de seu pai. Entretanto, uma mudança na Presidência poderia alterar as prioridades diplomáticas, os investimentos estratégicos e o ritmo da cooperação tecnológica entre Brasil e China.

A disputa por minerais críticos, essenciais à transição energética e às novas tecnologias, ilustra esse desafio. O Brasil possui recursos cobiçados pelas duas potências, mas precisa ir além da exportação de matérias-primas, investindo em indústria, empregos qualificados e desenvolvimento tecnológico. Mais importante do que saber se o país estará próximo de Beijing ou Washington é garantir que tenha autonomia para decidir sobre seus recursos e seu próprio futuro.

A soberania não deveria ter dono

Morar na China ampliou minha percepção sobre como os países definem e defendem seus interesses nacionais. Os chineses investem em planejamento de longo prazo, infraestrutura, ciência e tecnologia para fortalecer sua economia e ampliar sua presença internacional. O Brasil precisa agir com a mesma consciência de seus próprios interesses, construindo relações que atendam às necessidades de sua população.

Isso significa não tratar a China como inimiga ideológica nem como solução para todos os nossos problemas. A parceria com Beijing, assim como as relações com Estados Unidos, Europa e outros países, deve servir à ampliação da capacidade produtiva, tecnológica e econômica brasileira. Soberania é ter liberdade para negociar, desenvolver nossas próprias capacidades e decidir sobre o futuro do país sem subordinação a nenhuma potência.

É essa a questão que atravessa nossas reflexões: queremos um Brasil limitado à exportação de matérias-primas e às prioridades das grandes potências ou um país capaz de construir seu próprio projeto de desenvolvimento?

A resposta não está em Beijing nem em Washington. Está no Brasil.

(*) Escrito em parceria com Renato Peneluppi)

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