Boicote bolsonarista em Teresópolis evoca perseguição nazista e é repudiado até pelo PL

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Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

O advogado Klauss Fins gravou um vídeo defendendo que comerciantes identificados como petistas coloquem uma estrela do partido na porta de suas lojas em Teresópolis, na Região Serrana do Rio. “Mete uma estrela do PT na portinha da sua loja e vê o que vai acontecer”, afirmou.

A gravação circulou junto de uma campanha contra estabelecimentos cujos proprietários seriam apoiadores de Lula. Segundo a CNN Brasil, uma lista compartilhada em grupos de mensagens propunha deixar de consumir nesses locais após a vitória do presidente sobre Flávio Bolsonaro.

Vestido com uma camisa amarela com a frase “Meu partido é o Brasil”, Fins recomendou negociar “somente com patriotas”. A escolha do freguês passaria pelo voto do comerciante, como se uma preferência eleitoral retirasse de alguém o direito de trabalhar e participar da economia da cidade.

O repúdio reuniu a Prefeitura, a Ordem dos Advogados do Brasil, o sindicato do comércio varejista e o diretório do Partido dos Trabalhadores. Alcançou também um dirigente local do Partido Liberal, a legenda de Bolsonaro.

Alex Castellar, diretor do PL em Teresópolis, afirmou que trabalhadores não podem sofrer discriminação por suas opiniões políticas. A administração municipal condenou a intimidação e o uso da disputa partidária para prejudicar atividades comerciais e profissionais.

À CNN, Fins disse discordar da lista e defendeu que a identificação dos estabelecimentos fosse voluntária, permitindo ao consumidor considerar esse critério. Segundo o advogado, a proposta teria partido de um movimento iniciado pelo deputado Nikolas Ferreira.

A ressalva não apaga o conteúdo do vídeo. O convite para marcar a fachada vem acompanhado de uma advertência sobre as consequências e da defesa de não negociar com petistas.

Quem se identifica aceita a exposição, quem recusa pode acabar identificado por terceiros numa lista que não controla. O diretório do PT comparou a campanha aos boicotes contra judeus na Alemanha nazista.

A referência tem um fundamento histórico preciso, embora os alvos, os contextos e a dimensão das perseguições sejam diferentes. Em 1º de abril de 1933, os nazistas organizaram um boicote nacional a negócios e profissionais judeus.

Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, integrantes das tropas de assalto ficaram diante de lojas e consultórios, enquanto estrelas de Davi eram pintadas em portas e vitrines. A campanha procurava intimidar os judeus e afastar seus clientes.

O boicote nacional durou um dia, mas integrou a perseguição que expulsaria aquela população da vida econômica alemã. A analogia apresentada pelo PT alcança o método de marcar estabelecimentos e transformar a identidade de seus donos em motivo para punição econômica.

Reconhecer esse mecanismo não exige equiparar o episódio de Teresópolis ao conjunto dos crimes do nazismo. Listas semelhantes foram noticiadas em Nova Friburgo, pelo jornal O Dia, e em Petrópolis, pelo Diário de Petrópolis.

A circulação em outras cidades mostra que o problema ultrapassa uma declaração individual e exige uma resposta de quem representa o comércio e os trabalhadores. Ninguém tem obrigação de comprar numa determinada loja.

Organizar uma campanha para sufocar o sustento de alguém por seu voto, porém, transforma a liberdade do consumidor num instrumento de coerção contra a liberdade política do vizinho. O comerciante atingido também paga fornecedores, contrata empregados e sustenta uma família.

Uma queda nas vendas pode alcançar o balconista que votou em outro candidato, o entregador sem qualquer participação na discussão e o pequeno produtor que abastece o negócio. A Folha de S.Paulo também registrou publicações que defendem demissões por preferência política.

O vereador Guilherme Kilter, eleito deputado federal pelo Paraná, divulgou a frase “Demitir petista, gostoso demais”. A ameaça de demissão por preferência eleitoral leva essa crueldade para dentro de casa.

O salário paga comida, aluguel, transporte, remédios e material escolar. Crianças, idosos e outros dependentes recebem o castigo de uma disputa que não escolheram.

Há um desprezo pelas famílias nessa disposição de comemorar a perda do emprego alheio. Quem transforma a renda de um trabalhador em prêmio por obediência política pretende mandar também na consciência de quem depende dela.

A democracia exige que o eleitor possa escolher seu candidato sem pedir licença ao patrão, ao cliente ou ao grupo de mensagens do bairro. A derrota nas urnas não concede a ninguém o direito moral de perseguir os vencedores ou quem os apoiou.

O posicionamento do dirigente do PL merece registro justamente por recusar essa lógica dentro do próprio campo político. A defesa do trabalho e da convivência não pode depender de quem venceu a eleição.

Ameaçar o sustento de uma família porque um trabalhador exerceu seu direito de voto é autoritário, antidemocrático e imoral. Em linguagem popular, é comportamento de sem-vergonha.

Foto de abertura: vista do centro de Teresópolis, em foto de arquivo de outubro de 2021. Matheus R.

Camacho/Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. A imagem é ilustrativa e não identifica estabelecimentos citados na reportagem.

Publicação Original Cafezinho ocafezinho.com
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