247 – O Ministério Público do Paraguai identificou um suposto esquema de fraude financeira no Ueno Bank, acusado de utilizar recursos da própria instituição para simular a venda de uma carteira de créditos avaliada em US$ 74,4 milhões. A operação teria sido realizada por meio de empresas intermediárias, algumas vinculadas aos controladores do banco, com o objetivo de ocultar a verdadeira situação patrimonial da instituição.
As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo, com base em investigações do Ministério Público e do Banco Central do Paraguai, além de reportagens do jornal paraguaio Última Hora. O caso provocou a intervenção das autoridades financeiras, o fechamento das agências do banco e a prisão de oito pessoas, incluindo integrantes de sua alta administração.
Segundo os investigadores, o Ueno Bank decidiu se desfazer de créditos concedidos a empresas ligadas à própria instituição depois de enfrentar investigações da Procuradoria e pressões da Superintendência dos Bancos. Entre as companhias envolvidas estão MOWI, Grupo Hendy, Grupo M, Tuiu, Franede e Aime, investigadas por operações de crédito consideradas irregulares.
Operação de US$ 74 milhões envolveu recursos do próprio banco A investigação aponta que a carteira de US$ 74,4 milhões, composta por empréstimos concedidos ao Grupo Hendy, Grupo M e MOWI, foi formalmente adquirida pela Vinanzas SA em 15 de junho de 2026.
Posteriormente, o Ministério Público identificou que a compradora também pertencia ao Ueno Bank. Um dos principais indícios de irregularidade está na movimentação financeira da Vinanzas.
Um dia antes da aquisição, a empresa possuía apenas US$ 93,8 mil em sua conta. Em 15 de junho, recebeu US$ 76,06 milhões e, poucas horas depois, utilizou parte dos recursos para comprar a carteira de créditos.
De acordo com o Última Hora, o dinheiro teve origem em empréstimos concedidos pelo próprio Ueno Bank a outras empresas entre 11 e 15 de junho. As transferências teriam permitido que os recursos retornassem à instituição sob a aparência de pagamento por uma venda legítima.
Empréstimos milionários abasteceram empresas intermediárias O rastreamento das operações identificou cinco financiamentos realizados pelo banco.
Em 11 de junho, a Technoma e a La Tropa Fletes receberam US$ 10 milhões cada uma. Quatro dias depois, foram liberados US$ 35 milhões para a HD Invest, US$ 20 milhões para a Satec e US$ 6,8 milhões para a Factopar.
Conforme a investigação, os valores destinados à HD Invest e à Satec foram transferidos diretamente à Vinanzas. Já os recursos recebidos pelas demais empresas passaram por outras companhias, incluindo o Grupo Vázquez, controlador majoritário do Ueno Bank, antes de chegar à compradora da carteira.
Os investigadores suspeitam que parte dessas empresas tenha atuado como intermediária para disfarçar a origem dos recursos. O mecanismo teria permitido ao banco registrar a transferência dos créditos sem que houvesse uma entrada efetiva de dinheiro externo à instituição.
“Essa situação impediria conhecer o estado real de sua situação patrimonial, uma vez que sua carteira teria sido adquirida pela própria instituição financeira”, afirmou o Ministério Público paraguaio. A suspeita central é que a operação tenha produzido uma aparência de redução da exposição do banco a empresas relacionadas aos seus controladores, embora o financiamento da aquisição tenha partido da própria instituição.
Oito dirigentes são presos e outros 19 investigados O escândalo resultou na prisão de oito pessoas ligadas ao Ueno Bank.
Outras 19 pessoas vinculadas às empresas mencionadas nas operações também estão sob investigação. Entre os presos estão o presidente da instituição, Juan Manuel Gustale Cardoni; o fundador e primeiro vice-presidente, Federico Miguel Vázquez Villasanti; e a segunda vice-presidente, Diana Leticia Mongelós González.
Também foram detidos Julio Daniel Rey Fernández, ex-segundo vice-presidente; Diego Fernando Duarte Schussmuller, ex-integrante do conselho de administração do Banco Central do Paraguai; Alejandro Gómez Abente, diretor principal do Ueno Bank; Mariana Torres, ex-diretora-geral; e Miguel Ángel Almada Frutos, presidente do Grupo Vázquez.
Os investigados enfrentam acusações relacionadas a condutas indevidas em situações de crise, abuso de confiança, tentativa de fraude e descumprimento das exigências de manutenção de registros contábeis. Segundo o jornal ABC Color, a Justiça paraguaia deverá analisar nesta quinta-feira (5), em audiência no Juizado Penal de Garantias Especializadas em Delitos Econômicos, se os oito presos permanecerão detidos.
O advogado do presidente do banco, José Fernández Zacur, afirmou em entrevista coletiva que seu cliente desconhecia as operações consideradas irregulares. “Não sei se vítima é a palavra certa, mas posso afirmar que ele desconhecia completamente a natureza independente das empresas.
O presidente não é responsável por definir ou determinar quem é o beneficiário dos empréstimos”, declarou. Banco Central determina fechamento e pagamento de depósitos
A crise levou o Banco Central do Paraguai a determinar o fechamento das agências do Ueno Bank. A autoridade monetária anunciou medidas para proteger os depositantes e permitir a restituição de valores cobertos pelo sistema de garantia.
O limite de cobertura informado é equivalente a aproximadamente US$ 38 mil, ou R$ 208,48 mil, por cliente. Na noite de quarta-feira (4), o Banco Central anunciou a antecipação dos pagamentos pelo Fundo Garantidor de Depósitos.
Os depósitos devem começar nesta quinta-feira (5), com previsão de conclusão em até cinco dias úteis. Anteriormente, o prazo estabelecido pela autoridade monetária era de até 15 dias úteis.
A equipe responsável pela intervenção também informou que os trabalhadores do Ueno Bank receberão suas verbas rescisórias, mas não apresentou um calendário para os pagamentos. Escândalo provoca protestos contra Santiago Peña
A crise financeira ganhou dimensão política e desencadeou manifestações nas ruas de Assunção na noite de quarta-feira (4). Os participantes exigiram o impeachment do presidente paraguaio, Santiago Peña, que manteve investimentos na holding controladora do Ueno Bank até março de 2025.
Segundo o ABC Color, a Polícia Nacional utilizou spray de pimenta, balas de borracha e jatos de água para dispersar os manifestantes. Não foram divulgadas informações sobre pessoas feridas ou detidas.
A relação entre o banco e o governo tornou-se um dos principais pontos de questionamento público. Durante a gestão de Peña, os depósitos de recursos públicos na instituição ultrapassaram US$ 850 milhões, aproximadamente R$ 4,66 bilhões.
Esse montante representava quase um terço dos depósitos do Ueno Bank, ampliando a preocupação com a exposição de dinheiro público à crise financeira. Antes do agravamento do escândalo, Peña havia minimizado repetidamente os questionamentos sobre a situação do banco.
Crescimento acelerado e exposição a empresas ligadas aos controladores Fundado como fintech em 2021, o Ueno Bank passou por uma rápida expansão no mercado financeiro paraguaio.
A instituição obteve licença bancária, abriu dezenas de agências e investiu em campanhas publicitárias de grande alcance, incluindo o patrocínio da seleção nacional de futebol. Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o banco chegou a aproximadamente 3 milhões de clientes e afirmava atender mais de 60% da população adulta do Paraguai.
A expansão, entretanto, passou a despertar preocupação entre reguladores e investidores devido ao volume de empréstimos concedidos a empresas relacionadas ao próprio grupo controlador. Nos últimos meses, o aumento da fiscalização e das denúncias repercutiu no mercado financeiro, pressionando os títulos do banco com vencimento em 2031 e também os títulos soberanos paraguaios.
Segundo o Financial Times, o Ueno realizou em março de 2026 a maior emissão de títulos corporativos da história do Paraguai. Desde então, os papéis da instituição sofreram forte desvalorização.
Em outubro, a agência de classificação de risco Fitch revisou para negativa a perspectiva da nota de crédito de longo prazo do banco, citando “crescimento acelerado do balanço e altos ativos intangíveis”. A investigação sobre a suposta venda fictícia de US$ 74,4 milhões acrescentou uma nova dimensão às suspeitas que já cercavam a instituição: a possibilidade de que operações financiadas pelo próprio banco tenham sido utilizadas para mascarar riscos e comprometer a transparência de suas demonstrações financeiras.
Brasil 247