Banco digital do Paraguai quebra e presidente do BC renuncia

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Os órgãos reguladores do Paraguai intervieram no banco digital Ueno após concluírem que a instituição estava subcapitalizada, provocando a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, e criando um problema político para o presidente Santiago Peña. No Brasil: Ministro da Fazenda diz que governo debate 'ajuste gradual' nas contas públicas e critica proposta de tabelamento de juros

Com incerteza sobre ajuste fiscal: Empresas adiam ofertas de ações para 2027 O Banco Central afirmou nesta terça-feira que precisava agir rapidamente para proteger os depósitos e limitar os impactos sobre o sistema financeiro.

O índice de solvência do Ueno havia caído abaixo do mínimo exigido de 50% após ajustes em seus balanços patrimoniais, segundo os reguladores. Carlos Carvallo, presidente do Banco Central, anunciou que deixaria o cargo, mas permaneceria na função até a conclusão da intervenção.

Anteriormente, ele havia comandado uma versão anterior do Ueno, vínculo que alimentou críticas de que o governo Peña era próximo demais do banco e não havia agido antes para fiscalizar o rápido crescimento da instituição. — Minha renúncia está assinada — afirmou Carvallo em entrevista coletiva em Assunção, “pelo simples motivo de que o Banco Central do Paraguai precisa de tranquilidade para realizar seu trabalho”.

Especialistas apontam: Eleições nos EUA podem favorecer Bolsa e real, mas riscos domésticos limitam ganhos Os títulos soberanos do Paraguai registraram leve queda, com os papéis denominados em dólares e com vencimento em 2055 recuando quase 1 centavo por dólar.

Segundo dados indicativos de preços compilados pela Bloomberg, esses títulos estavam entre os de pior desempenho nos mercados emergentes na manhã de terça-feira. Os rendimentos dos títulos em dólares do Ueno com vencimento em 2031 ultrapassaram 10% no início deste mês, sinalizando preocupações crescentes com o crédito da instituição.

Os papéis foram emitidos em março, quando o banco estreou no mercado internacional de títulos, afirmando, na ocasião, que os recursos seriam utilizados para financiar oportunidades de crescimento. A intervenção representa uma mudança significativa de rumo e ameaça causar danos à reputação de Peña, um importante aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América Latina, que tem apresentado seu país como um paraíso fiscal de baixa tributação para investidores estrangeiros.

Peña descartou repetidamente as preocupações sobre o balanço patrimonial do Ueno Bank, criticando a atenção da imprensa, que, segundo ele, tinha a intenção de provocar temor na população. Míriam Leitão: BC se reúne para decidir juros com o Focus piorando as expectativas, o dólar em alta, e muito debate interno sobre taxa de juros

O Ueno Bank não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Peña ainda não se manifestou sobre a intervenção.

Os depósitos do governo no Ueno Bank — controlado pelo poderoso conglomerado paraguaio Grupo Vázquez — dispararam desde que Peña assumiu a Presidência, em 2023, alcançando aproximadamente 5 trilhões de guaranis (US$ 869 milhões), o equivalente a 29% dos depósitos do banco no final de junho.

Maior operadora de cartão de crédito do país O Ueno era a maior operadora de cartões de crédito do país, com quase 1,1 milhão de cartões emitidos até setembro, segundo dados do Banco Central.

No fim do ano passado, a instituição tinha 2,6 milhões de clientes, o equivalente a um em cada três paraguaios, de acordo com informações publicadas em seu site. Vídeos que circularam nas redes sociais e nos jornais paraguaios na manhã desta terça-feira mostravam policiais posicionados em frente às agências do Ueno, enquanto clientes formavam filas à espera de sacar dinheiro ou obter mais esclarecimentos.

Um dos correntistas manifestou surpresa com a rapidez com que a situação do banco se deteriorou. — Ficamos sabendo dessa notícia hoje de manhã — afirmou por telefone Iván Rojas, consultor e advogado de 32 anos.

— Nunca imaginamos que a situação chegaria a esse ponto. Os órgãos reguladores paraguaios afirmaram que a situação do Ueno Bank não reflete uma crise mais ampla e que os depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa seriam garantidos pela autoridade monetária.

“Este é um caso isolado, que não representa uma situação generalizada do sistema financeiro paraguaio”, afirmou o Banco Central em comunicado. Os investidores no Paraguai pareciam concordar com essa avaliação e disseram não esperar que os problemas do Ueno provocassem efeitos em cadeia no sistema bancário.

— Era uma instituição com uma gestão controversa —, afirmou Alvaro Acosta, presidente da Investor Casa de Bolsa, a segunda maior corretora de valores do Paraguai. — Todo o sistema financeiro já vinha alertando sobre essa situação.

Por isso, os bancos estavam preparados e tinham exposição limitada à instituição. Segundo o ex-ministro da Fazenda Manuel Ferreira, os impactos econômicos dos problemas do Ueno Bank deverão permanecer limitados, desde que o Banco Central assegure liquidez suficiente ao sistema financeiro e evite interrupções nos fluxos de pagamentos.

— A reputação do Paraguai está em jogo neste momento, e tudo depende da maneira como as autoridades reagirem e das medidas que adotarem — afirmou em entrevista por telefone. José Brítez, vice-presidente da Associação de Bancos do Paraguai (Asoban), afirmou que as instituições associadas não estavam observando sinais de retirada de depósitos em outros bancos.

“A situação está restrita a um único banco”, declarou em comentários transmitidos pela televisão. Os principais desdobramentos dos problemas do Ueno, porém, podem ocorrer no cenário político do pequeno país sul-americano, sem saída para o mar.

A senadora da oposição Yolanda Paredes pediu, nesta terça-feira, a abertura de um processo de impeachment contra Peña, embora o partido do presidente detenha uma maioria confortável no Congresso, suficiente para barrar qualquer iniciativa destinada a afastá-lo do cargo. Santiago Peña, presidente do Paraguai

Michael Nagle/Bloomberg A emissão de títulos de dívida do Ueno, realizada em março, foi a maior operação de emissão de títulos corporativos da história do Paraguai.

No entanto, os papéis sofreram fortes desvalorizações nos últimos meses, em meio a notícias sobre a situação patrimonial do banco. Em outubro, a agência de classificação de risco Fitch Ratings revisou de estável para negativa a perspectiva dos títulos da instituição, citando o “rápido crescimento do balanço patrimonial e o elevado volume de ativos intangíveis”.

Na semana passada, executivos do Ueno Bank apresentaram um plano de capitalização de US$ 100 milhões para reforçar a confiança nas operações da instituição. Metade dos recursos viria de sua controladora, a U Holdings, enquanto a outra metade seria obtida por meio da venda de ações a investidores privados locais, informou o Ueno Bank em comunicado, sem fornecer maiores detalhes.

Os principais executivos do Conselho de Administração do Ueno afirmaram, em entrevista em outubro, que os problemas de endividamento de outra empresa paraguaia, a Frigorífico Concepción, estavam provocando um efeito em cadeia sobre os títulos do banco. O Ueno Bank já era alvo de uma investigação independente por parte dos reguladores monetários, destinada a determinar se havia concedido financiamento indireto para viabilizar a venda de uma carteira de ativos de uma empresa pertencente ao seu grupo controlador.

— O que o Banco Central está questionando é se houve financiamento indireto — afirmou o presidente do conselho de administração, Juan Manuel Gustale, na entrevista. — Sustentamos que não houve.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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