O cuidado com a aparência vem ganhando um novo significado entre os homens brasileiros. Mais do que uma rotina associada à vaidade, hábitos relacionados à pele, cabelo, fragrância e vestuário começam a ser incorporados à forma como eles se preparam para diferentes situações do dia, inclusive reuniões, eventos e outros compromissos profissionais.
Dados da Kantar ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo artigo publicado pela empresa de pesquisa, 72% dos homens brasileiros demonstram ou já demonstraram interesse por produtos de beleza desenvolvidos especificamente para o público masculino.
Em 2023, eram 70%. Os homens também já respondem por 39% das ocasiões de uso de produtos de beleza no país.
A preocupação não se restringe ao consumo de cosméticos. Um estudo do Centro de Estudos Aplicados de Marketing, o CEAM, da ESPM, realizado com 295 homens da Região Metropolitana de São Paulo, mostrou que 91% dos entrevistados consideram relevante a imagem que transmitem aos outros.
Para Henrique Berri, fundador da Better e da DRUØN, os números refletem uma mudança na maneira como parte dos homens passou a enxergar a apresentação pessoal. Em vez de separar autocuidado, vestuário e preparação para compromissos, esses elementos começam a fazer parte de uma mesma rotina.
"Durante muito tempo, o cuidado masculino esteve muito associado ao básico e à praticidade. Isso continua importante, mas hoje existe uma preocupação maior com a forma como você chega aos lugares.
Cabelo, pele, fragrância e roupa acabam fazendo parte de uma mesma preparação, seja para um encontro, um evento ou uma reunião profissional", afirma. O avanço aparece também em categorias que, até poucos anos atrás, tinham presença menor na rotina masculina.
De acordo com a Kantar, nos últimos cinco anos, produtos como protetor solar e hidratante para a área dos olhos chegaram a triplicar seu alcance entre homens brasileiros. Categorias como corretivo para os olhos e esfoliante corporal também registraram crescimento no período.
De acordo com Henrique, porém, o movimento não significa simplesmente a adoção de rotinas de beleza mais complexas. A principal mudança estaria na percepção de que cuidar da própria imagem pode fazer parte da preparação para diferentes contextos.
"No ambiente profissional, estar bem apresentado pode transmitir atenção ao contexto e cuidado com os detalhes. Não significa que aparência determine competência, porque preparo, repertório e postura são o que sustentam uma relação profissional.
Mas a apresentação faz parte da primeira percepção que as pessoas constroem umas sobre as outras", diz. Aos 23 anos, ele afirma perceber essa relação também na própria rotina como empreendedor.
Por frequentemente estar entre os profissionais mais jovens em reuniões e eventos de negócios, passou a enxergar a maneira de se apresentar como um dos elementos de preparação para esses encontros. "Ser mais jovem em determinados ambientes me fez prestar atenção nisso.
A forma como me apresento pode ajudar na primeira impressão, mas ela precisa estar acompanhada do que você tem para entregar. A imagem pode contribuir para a percepção inicial, mas é a capacidade de conduzir uma conversa, apresentar uma ideia e demonstrar conhecimento que sustenta essa percepção depois", afirma.
O movimento ajuda a explicar por que o mercado de cuidado masculino vem ultrapassando categorias tradicionalmente associadas à higiene básica. À medida que a preocupação com bem-estar e apresentação ganha espaço, diferentes aspectos da imagem pessoal passam a ser vistos de maneira integrada, sem necessariamente significar a adoção de rotinas extensas ou padrões estéticos.
Para Henrique, essa é justamente uma das mudanças mais relevantes no comportamento masculino recente. "O homem continua procurando soluções simples e práticas.
O que mudou é que existe menos resistência em reconhecer que cuidar da própria imagem também pode contribuir para confiança e bem-estar. Não é sobre construir um personagem para o ambiente profissional, mas se sentir preparado para ocupar aquele espaço", conclui.
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