Jenna Ortega, conhecida por interpretar Wandinha na série da Netflix, revelou que convive com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) desde a infância. Ao falar sobre a condição, a atriz trouxe atenção para um diagnóstico que ainda costuma ser associado a imagens estereotipadas, como a necessidade de limpeza ou de manter objetos perfeitamente organizados.
As manifestações, no entanto, podem ser menos perceptíveis e envolver pensamentos persistentes, medos e comportamentos repetitivos que provocam sofrimento. Veja: Taylor Swift vira assunto nas redes e reacende debate sobre pressão estética
Sua profissão define quem você é? O que Bruna Marquezine nos faz pensar O TOC é um transtorno de saúde mental caracterizado pela presença de obsessões, compulsões ou ambas.
As obsessões são pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes e indesejados, que podem causar ansiedade. Já as compulsões são ações ou rituais mentais realizados na tentativa de aliviar esse desconforto ou evitar que algo temido aconteça.
Quando frequentes, esses sintomas podem consumir tempo e interferir na rotina. Para a médica Mariana Pimenta Martins, com atuação em Psiquiatria, Endocrinologia e Neurociência Aplicada à Saúde, além de hipnoterapeuta na Clínica Caiena, é importante diferenciar o transtorno de características como organização e perfeccionismo.
"O TOC não é simplesmente gostar das coisas organizadas ou ter uma rotina bem definida. Estamos falando de pensamentos que surgem de maneira involuntária e provocam sofrimento, muitas vezes acompanhados da necessidade de repetir comportamentos para tentar neutralizar uma sensação de perigo ou desconforto.
A pessoa pode reconhecer que aquele ritual não faz sentido, mas ainda assim sentir uma dificuldade enorme de interrompê-lo", explica. Entre as manifestações mais conhecidas estão o medo excessivo de contaminação, a necessidade de lavar as mãos repetidamente e a verificação constante de portas, aparelhos e outros objetos.
Há também pessoas que precisam organizar itens de determinada maneira ou repetir ações até sentirem que algo foi feito corretamente. Em outros casos, as obsessões envolvem pensamentos indesejados de conteúdo agressivo, religioso ou sexual, que não representam necessariamente desejos ou intenções de quem os experimenta.
Nem todas as compulsões são visíveis. Algumas acontecem mentalmente, por meio da repetição de palavras, números ou orações, além de tentativas de revisar acontecimentos e buscar a certeza de que nada inadequado foi feito.
Por isso, o transtorno pode provocar sofrimento mesmo quando não há comportamentos repetitivos facilmente identificados por familiares e amigos. "Uma das maiores dificuldades é que nem sempre o transtorno aparece de forma visível.
Existem pacientes que passam horas tentando ter certeza de que não cometeram um erro, que não magoaram alguém ou que não fizeram algo inadequado. Outros repetem frases mentalmente ou procuram garantias constantes de que nada ruim acontecerá.
São manifestações que podem gerar sofrimento intenso, mesmo quando as pessoas ao redor não percebem", observa. O relato de Jenna também chama atenção para a possibilidade de o TOC começar ainda na infância ou na adolescência.
Nessa fase, alguns sinais podem ser confundidos com insegurança, hábitos próprios do desenvolvimento ou características de personalidade. A frequência dos rituais, o sofrimento provocado e a interferência nas atividades cotidianas ajudam a diferenciar comportamentos passageiros de manifestações que merecem investigação.
"É importante observar quando os rituais começam a provocar sofrimento ou interferir na rotina. Uma criança que precisa repetir determinada ação muitas vezes antes de dormir, que fica extremamente angustiada quando algo sai do padrão ou que perde muito tempo tentando afastar pensamentos desagradáveis pode precisar de avaliação.
Isso não significa que todo comportamento repetitivo seja TOC, mas que sinais persistentes não devem ser ignorados", alerta a médica. A banalização do termo também é um obstáculo à compreensão do transtorno.
Expressões como "sou muito TOC" são usadas frequentemente para descrever pessoas detalhistas ou organizadas, embora essas características, por si só, não indiquem um diagnóstico. No transtorno, os pensamentos e rituais costumam ser indesejados e difíceis de controlar, além de provocarem sofrimento ou prejuízos à rotina.
O tratamento pode incluir psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental com exposição e prevenção de resposta, abordagem com eficácia reconhecida para o TOC. Dependendo do quadro, medicamentos também podem fazer parte do acompanhamento, conforme avaliação médica.
"O objetivo do tratamento não é simplesmente pedir que a pessoa pare de realizar seus rituais. É ajudá-la a compreender o funcionamento do transtorno e desenvolver recursos para lidar com a ansiedade sem depender das compulsões.
Com acompanhamento adequado, é possível reduzir significativamente os sintomas e recuperar a autonomia em situações que antes pareciam impossíveis de enfrentar", afirma Mariana. Ao compartilhar sua experiência, Jenna Ortega ajuda a ampliar a discussão sobre uma condição que ainda é cercada por estereótipos.
O relato também reforça a importância de reconhecer que o sofrimento psíquico nem sempre é evidente e que comportamentos aparentemente discretos podem exigir atenção quando passam a comprometer o bem-estar e a vida cotidiana. "Quanto mais informação de qualidade circula, maiores são as chances de as pessoas reconhecerem os sinais e procurarem ajuda.
O TOC não define a personalidade, a capacidade ou o futuro de ninguém. É uma condição que pode ser tratada, e o diagnóstico não deve ser visto como um rótulo, mas como um caminho para compreender o sofrimento e melhorar a qualidade de vida", conclui a médica.
O Globo